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Um pandeiro nordestino em palco carioca

Jackson do Pandeiro

Roberta Oliveira

   Desde “Cambaio”, seu último musical, o autor e diretor João Falcão planeja se debruçar sobre a obra de um compositor brasileiro e escrever a partir dela o texto de um espetáculo. Ou usar uma trama conhecida, como a de “Romeu e Julieta”, e misturá-la com as canções escolhidas. Vários foram os nomes que passaram pela sua mesa de trabalho nos últimos quatro anos. O primeiro foi o próprio Chico Buarque, autor das canções de “Cambaio” ao lado de Edu Lobo. Passou também por Cartola, Lupiscínio Rodrigues, Renato Russo e Roberto Carlos. Mas o destino foi mais rápido e pôs diante de seus olhos a obra de compositor sobre o qual João Falcão ainda não tinha planejado trabalhar: Jackson do Pandeiro.

   — Quando eles me convidaram para escrever e dirigir um musical a partir das canções do repertório de Jackson do Pandeiro, percebi que seria um excelente nome para começar — lembra o autor e diretor, que ao usar o pronome “eles” refere-se à atriz e produtora Rosa Dalney e ao diretor musical Alexandre Elias.

   É de autoria da dupla o projeto de “Jackson do Pandeiro — As aventuras de Zé Jack e seu pandeiro solto na buraqueira”, espetáculo que estréia no dia 14 de janeiro, na Sala Baden Powell. Felizmente, não se trata de um musical biográfico que conta tintim por tintim a trajetória do artista paraibano que nasceu José Gomes Filho, e que começou a tocar pandeiro primeiro como Jack, em homenagem a um mocinho de filmes de faroeste, Jack Perry, e depois como Jackson, por sugestão de um diretor de programa de rádio.

   — Como toda fórmula, a do musical biográfico está se esgotando — avalia Falcão.

   Disposto a fugir dela, o autor e diretor, que, quando recebeu o convite, só conhecia uma dúzia de músicas de Jackson do Pandeiro, passou a correr atrás de toda a discografia do músico a fim de encontrar um caminho dramatúrgico. Paralelamente, ele recebia um amplo material sobre a vida e a carreira do artista paraibano. Na busca, Falcão descobriu o que nem os herdeiros de Jackson conheciam, como a gravação de “A feira” para a novela “Pigmaleão 70”.

   — Se não fosse a internet não sei o que teria sido de mim — brinca Falcão, que encontrou o LP com a trilha no site Mercado Livre. — Todos duvidaram da minha memória, mas eu tinha certeza de que existia esta gravação.

Em cena, o artista é um menino

   E a feira passou a ser o espaço perfeito para ambientar o espetáculo. Por ela, perambulam personagens típicos ou meros curiosos. Todos foram inspirados nos próprios personagens que Jackson do Pandeiro cantou até 1982, quando morreu de embolia cerebral depois de ter passado mal durante uma série de shows. E em suas histórias.

   — Cada canção do repertório dele é quase uma história para uma peça inteira — elogia Falcão, que a partir das mais de 200 músicas pesquisadas escolheu umas 30, entre aquelas que entram na íntegra e outras que só têm seu refrão citado. — Fui escolhendo as músicas à medida que se adaptavam ao roteiro que estava escrevendo. O musical é experimental, no sentido que é aberto. Uma música dá na outra, um trecho que foi cantado por um personagem pode voltar a aparecer mais lá na frente e por aí vai.

   O fato de não ser um musical biográfico não quer dizer que não haja no palco um Jackson do Pandeiro.

   — Mas é muito sutil, é um menino — diz Falcão. — É como se fosse o menino Jackson do Pandeiro vendo os personagens que depois estariam em suas canções.

   Em cena estarão os dez atores da recém-formada Companhia de Ópera Popular, que dispensam a presença de uma orquestra e se revezam eles mesmos em instrumentos como o pandeiro, o cavaquinho, a sanfona, a flauta doce e o triângulo, todos emprestados pelo próprio Falcão para o grupo.

   — As pessoas que forem assistir ao musical vão se dar conta, como aconteceu comigo, de que conhecem muito mais músicas do repertório dele do que pensam — acredita Falcão, destacando a importância de Jackson do Pandeiro na história da música popular brasileira. — Mesmo quando a música não era sua, ele tinha a capacidade de se apropriar dela e dar a sua cara. Ele é um artista moderno, podemos dizer que é um bossanovista, porque ele criou uma nova maneira de dividir as frases musicais. Até hoje ele influencia músicos como Alceu Valença, Lenine e Gilberto Gil.

   Na opinião do diretor, Jackson do Pandeiro é um artista tão moderno que não foi preciso que Alexandre Elias relesse suas canções para a peça.

   — Nas músicas dele já está claro o que ele é, o que ele queria, é só não atrapalhar — brinca Falcão.

   Além do livro “Jackson do Pandeiro — O rei do ritmo”, assinado pelos jornalistas Fernando Moura e Antônio Vicente, Falcão pôde ter acesso ao acervo do artista, guardado por seu sobrinho, o músico José Gomes, em Campo Grande, onde mora. Como Jackson era semianalfabeto, há poucos registros escritos. Mas há duas fotos inéditas. Uma em que ele aparece recebendo o seu primeiro cheque e que, em si, representava o recibo do pagamento, assinado no verso. E outra em que ele aparece ao lado da primeira mulher, Almira Castilho, que passou anos sendo sua parceira de palco.

   — Não é preciso contar no palco a trajetória de Jackson do Pandeiro para que ele esteja lá — diz Falcão. — Ele está em cada canção.

O Globo)

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