|
|
Este ano surge como um dos mais promissores para alguns cineastas do
Estado, que exibem uma nova safra de longas e curtas-metragens Idéias na cabeça sempre sobraram, o que faltava mesmo era a tal ‘câmera na mão’. Bem, o fato é que, até hoje, elas (as câmeras) não são exatamente abundantes em Pernambuco, mas certamente estão sendo melhor aproveitadas por uma geração de cineastas que começou a ganhar prática não apenas com a burocracia de arrecadação, mas particularmente com a manha de conseguir produzir filmes mesmo sem laboratórios de cinema no Estado. Em 2005, várias das “idéias na cabeça” que esses profissionais tiveram chegam às telas grandes, em uma produção que há tempos não é tão intensa: estréiam dois longas inéditos e, pela previsão dos diretores, uma dezena de curtas-metragens. Isso sem contar com o longa do pernambucano Heitor Dhalia, Nina, que já estreou em São Paulo e chega no começo do ano no Recife. Entre os longas ainda inéditos, estão os novos trabalhos de Marcelo Gomes e Lírio Ferreira. São dois filmes que, apesar de serem conceitualmente opostos, guardam bastante coincidências. Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo, foi filmado em outubro e novembro de 2003 e tem como cenário maior o Sertão nordestino. Árido Movie, de Lírio, ligou as câmeras em novembro e dezembro do mesmo ano, em um cenário semelhante, ou seja, o Sertão. A diferença é que enquanto Marcelo Gomes optou por criar em seu primeiro longa um filme autoral, com imagens muitas vezes semelhantes a um trabalho em videoarte, Lírio resolveu mesmo contar um história linear, com início, meio, fim e um elenco que traz nomes como o de Giulia Gam, Selton Mello, Guilherme Weber, Renata Sorrah, Paulo César Pereio, José Dumont, José Celso Martinez Corrêa, Aramis Trindade e outros. “Acho que as pessoas que gostam de cinema vão gostar bastante de Cinema, Aspirinas e Urubus. O filme é muito autoral, chega a ser uma espécie de road movie mesmo”, explica Marcelo, que trabalhou basicamente com dois atores, João Miguel e Peter Ketnath, ‘guias’ do enredo. Lírio, que ao contrário de Marcelo já tem um longa no currículo, Baile Perfumado, tenta agora exercitar mais sua narrativa fictícia com um filme que busca criar elos entre o urbano e o desterro do Sertão, em uma cidade fictícia chamada Rocha, no interior de Pernambuco. Parceiro de Lírio no Baile Perfumado, o pernambucano Paulo Caldas também tem novo longa-metragem engatilhado para dirigir. Mas este só deve sair em 2006, pois as filmagens só acontecem este ano. Caldas chegou no último mês de dezembro em Pernambuco para adiantar o seu Deserto Feliz, título do trabalho que ele desenvolveu ao lado do próprio Marcelo Gomes, além do também pernambucano Xico Sá e de Manuela Dias. Mas esse já será um outro momento, do qual talvez ainda participem outras figuras tarimbadas do cinema pernambucano, como Kátia Mesel, cujo plano é dirigir seu primeiro longa sobre a comunidade judaica, e ainda Cláudio Assis, já em pré-produção de seu segundo longa, o Woyzek, adaptação para o cinema de uma peça teatral. Idéias não faltam a ser contadas. Este ano, seja em festivais ou nas salas comerciais de cinema, os pernambucanos exibem um pouco do amadurecimento que cineastas locais adquiriram desde o começo dos anos 90. Eles revelam uma produção que, mais do que nunca, precisa de equipamentos e técnicos que viabilizem a conclusão de filmes no Estado. (© JC Online) Em breve, no festival mais próximo
Os laboratórios de mixagem e montagem de filmes do Rio de Janeiro e de São Paulo estão abarrotados de gente. Gente pedindo, algumas vezes implorando, por um ‘pedaço’ de hora na ilha de edição. Muitas dessas pessoas são de Pernambuco. E passam semanas gastando diárias de hotel e refeição à espera de alguma brecha entre uma propaganda e um longa-metragem, as duas prioridades na lista de espera. A cena é comum entre cineastas pernambucanos que, na falta de um laboratório no Estado, precisam comprar passagens para cidades como o Rio, São Paulo ou até capitais nordestinas como Salvador e Fortaleza que, apesar de não terem uma produção tão intensa quanto o Recife, conseguiram montar seus próprios laboratórios. Este ano, quando a produção de curtas-metragens no Estado está esticada, a esperança dos produtores e diretores tem quatro letras: CTAV. Por extenso: Centro Técnico Audiovisual. O núcleo de equipamentos (câmeras, ilha de edição e cursos técnicos) foi prometido no ano passado pelo Ministério da Cultura (MinC) para ser instalado no Recife, em um trabalho de parceria com a Fundação Joaquim Nabuco. Segundo a diretora do Instituto de Cultura da Fundaj, Isabela Cribari, “até agora tudo caminha para que o projeto final seja aprovado. A princípio, eles pensaram em ceder apenas material para edição em digital, mas nós insistimos em ter os equipamentos para película e isso já foi acertado”. Em outras palavras, se tudo der mesmo certo, os vários curta-metragistas que trabalham hoje em Pernambuco acumularão milhas a menos e facilidades a mais para terminar seus filmes. A chegada do CATV, por exemplo, poderia mudar o ritmo frenético por que passam os cineastas pernambucanos neste começo de ano, quando começa a maratona para inscrever os filmes no festival Cine PE, realizado no próximo abril. Até o dia 31 de janeiro (prazo que provavelmente será adiado), os curtas-metragens precisam estar na mesa da produção do festival. E é justamente nesse período em que os próprios pernambucanos têm oportunidade de ver a quantas anda o cinema local. Boa parte dos curtas que estréia este ano tenta se inscrever no Cine PE. Entre eles, está o novo curta dirigido por Léo Falcão, e produzido pela paulista Andreza de Faria. Como as Coisas Funcionam traz o cantor Ortinho no elenco e o cenário de uma redação de jornal para contar a história de um fotógrafo e um matador profissional. Ainda na corrida para o Cine-Teatro Guararapes está o trabalho do cearense (há três anos trabalhando no Recife) Eric Laurence, com o curta Entre Paredes. Segundo o próprio Eric, o filme fala do “medo da perda de um homem que não se sente capaz de preencher a vivacidade de sua mulher, o que gera uma desconfiança e paranóia de achar que ela o está traindo”. Outro curta que deve entrar para o festival, este já terminado, é o de Adelina Pontual, Véio, documentário sobre um escultor sergipano que faz esculturas com ceras de abelhas. Em comum com os filmes acima citados, os demais trabalhos que chegam este ano aos cinemas se ‘arriscam’ em ter roteiros completamente originais. Léo Falcão, que ainda finaliza este ano outra história (dessa vez de amor), escrita por ele mesmo, começa a filmar no próximo dia 9 o seu A Vida é Curta e Kleber Mendonça Filho monta ainda na próxima semana seu segundo curta em menos de seis meses, Eletrodoméstica, “crônica sobre a classe média brasileira nos anos FHC e Plano Real, quando famílias passaram a comprar muito e reequipar lares com todo tipo de eletro-eletrônico”, diz o diretor. Colega de Kleber em algumas produções, Daniel Bandeira, uma das pessoas que teve acesso à produção de cinema via tecnologia digital, também põe a mão na película este ano, com o curta Amigo de Risco. Entre os documentários, o Estado assiste a uma nova produção centrada na cena musical pernambucana, em dois filmes. Um resgata imagens filmadas de 96 a 98 de Chico Science, Fred 04, Otto e outros nomes da cena mangue, e o outro é sobre Siba e a Fuloresta do Samba. O primeiro está sendo finalizado agora em janeiro e foi concluído, depois de anos de espera por recursos financeiros, pela dupla Bidu Queiroz e Cláudio Barroso. O segundo está sendo produzido pela Luni Produtora, que já pensa até em ampliar o projeto do curta em um longa sobre a produção musical da Zona da Mata do Estado. “Mas por enquanto, isso é só um projeto, não escrevemos nada ainda”, garante Daniele Hoover. (© JC Online) Filmes geram formação profissional Em um curta-metragem, trabalham de 20 a 40 profissionais de cinema. No começo dos anos 90, quando se falava em retomada da produção nacional, achar mais de meia dúzia de técnicos em cinema no Estado de Pernambuco ainda era tarefa de Hércules. Passados mais de dez anos da batizada retomada, a qualificação técnica das pessoas que produzem, filmam, sonorizam e montam os filmes é outra, e a quantidade de pessoas especializadas é certamente maior, mas ainda escassa. Hoje, profissionais como Adelina Pontual são convidados para ministrarem aulas em conceituadas escolas de cinema, como a de Cuba, por exemplo, onde a própria Adelina se formou e para onde embarca no começo deste ano, para dar um curso.Para muitos, difícil mesmo é conseguir não sair do Estado. Com uma especialização na França em montagem e um curso de edição em São Paulo, o montador pernambucano João Maria admite que, possivelmente, seria mais fácil trabalhar em cidades como São Paulo, onde ele talvez já estivesse editando longas-metragens. “Mas a questão é que há muito trabalho para se fazer aqui. Se todos forem embora, a produção se perde”, explica João. Sua agenda comprova a demanda: depois de editar o curta Véio, de Adelina, ele montou, até a semana passada, o documentário O Mundo é uma Cabeça. Esta semana, pega outro curta, o Eletrodoméstica, e ainda no começo do ano edita A Vida é Curta. Teve até que abdicar de outros dois filmes para conseguir dar conta do recado. Por enquanto, João ainda é um oásis na área de montagem em Pernambuco. Mas, a cada filme que edita, ele vê mais e mais nomes novos entre os créditos finais. Para ele, bem como para os demais realizadores, ter um laboratório no Recife que conclua o chamado trabalho offline de montagem, será um dos motivos de uma profissionalização cada vez maior na região. Léo Falcão, que atualmente também circula na ponte aérea Recife-São Paulo para finalizar seus filmes, ressalta que, apesar de haver uma exportação de profissionais, existe também um “contra-fluxo de técnicos, pessoas de fora que estão vindo para o Recife”. Atualmente, Léo trabalha com um paulista, um mineiro e um norte-americano. “Há sempre gente circulando pela cidade e isso é importante”, frisa ele. (C.A.) (© JC Online) |
||||||||
|
||||||||
© NordesteWeb.Com 1998-2005