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Bandeiras desfolhadas para o poeta que fez a geléia geral tropicalista

O poeta Torquato Neto
 

João Pimentel

   Como na canção “Geléia geral”, poetas e músicos desfolharam bandeiras para lembrar um dos principais artífices da manhã tropical. No lançamento do livro “Torquatália” (Rocco) — luxuosa e criteriosa seleção de textos, cartas, poesias, letras de músicas e de suas colunas no “Jornal dos Sports” e na “Última Hora” — anteontem, no Parque Lage, Torquato Neto foi lembrado em filmes, músicas e palavras, muitas palavras.

   A festa virou um happening , ao estilo dos anos 70 e, segundo o poeta Chacal, fez parte do evento L’Age d’Or, que segue o conceito idealizado pelo poeta e letrista:

   — Torquato sempre teve essa preocupação de ocuparmos os espaços com arte. Sempre teve um poder crítico aguçado que tanta falta faz hoje em dia — disse Chacal.

   Foram mostrados curtas-metragens com a participação do poeta, como “Helô e Dirce”, de Luiz Otávio Pimentel, e dirigido por ele — seu filme-testamento “O terror da Vermelha”, em que o personagem principal volta à cidade natal e assassina seus amigos.

   — Esses filmes foram feitos em 72, em plena repressão. Torquato era fascinado pelo Super-8, o VHS da época. Ele usou o formato como tática de guerrilha. Para ele a arte não podia parar, se não tínhamos o ideal, que partíssemos para o possível — lembra Chacal. — E isso foi o ponto de partida para que a minha geração fosse à luta. O mimeógrafo foi o nosso Super-8.

   Juntamente com Scarlet Moon, Chacal leu trechos soltos da coluna “Geléia geral”: “O compacto de Chico Buarque de Hollanda. Está saindo e além de ser lindo tem uma transa chamada ‘Construção’. Maravilha, bichos.”

   Macalé lembrou parcerias com Torquato, como “Let’s play that” (“Eis que o anjo me disse/ apertando a minha mão/ Com um sorriso entre dentes/ Vai bicho desafinar o coro dos contentes”), e Waly Salomão, “Vapor barato”.

   — Torquato foi o primeiro dos tropicalistas que conheci. Ele passava lá em casa, para deixar letras. Mas muita coisa se perdeu — lembrou Macalé.

Coluna do “Jornal do Sports” é a grande novidade

   Em seguida, Viviane Mosé, Cabelo, Omar Salomão e Michel Melamed, trajando parangolés de Hélio Oiticica, leram poesias para um público que, apesar da chuva, espremia-se no salão para sentir um pouco da genialidade do artista que se suicidou um dia depois de completar 28 anos.

   — Esses volumes são frutos de dez anos de trabalho. O grande achado são as colunas que ele fazia no “Jornal dos Sports”. Ali, com apenas 24 anos, Torquato é capaz de desancar um disco de Ataulfo Alves, dizendo não estar à altura de sua obra — contou o jornalista Paulo Roberto Pires, organizador de “Torquatália”.

O Globo)

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