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Alceu Valença co-assina com Walter Carvalho a direção do filme 'Cordel virtual' e lança disco com canções inspiradas no projeto João Bernardo Caldeira Quando ouviu de Alceu Valença suas idéias para um longa-metragem, o diretor e fotógrafo Walter Carvalho ficou tão impressionado que entrou de imediato no projeto. Os dois vão assinar juntos a direção de Cordel virtual, filme que reúne ícones da cultura nordestina por meio de parábolas visionárias, personagens míticos e passagens de tempo que misturam presente, passado e futuro, bem ao estilo caótico de Alceu. Já em fase de captação, a película, orçada em R$ 6 milhões, poderá ser rodada ainda em 2005. Há cinco anos imerso na empreitada, o cantor tem ainda composto músicas sob influência direta da temática do filme. Algumas delas estão reunidas no disco Na embolada do tempo (Indie Records), seu primeiro de inéditas em três anos. É a ponta de um iceberg, muito maior. - O roteiro mostra a trajetória de um cantor que regressa à sua terra e sua relação com o tempo, uma questão que os artistas procuram discutir em determinado período de sua vidas. Esse disco está focado nessa pedra filosofal. Pincei de meu balaio canções relacionadas a esse tema - afirma o cantor de 58 anos. Entre as 12 músicas inéditas do trabalho, duas figuram no roteiro (leia trecho ao lado) do filme, Depois do amor e Samba do tempo. Quando conta sobre a história de Cordel virtual, no qual extravasa todas as referências musicais de sua infância, Alceu extrapola os limites da imaginação, interpretando falas inteiras já decoradas por ele: - É um road-movie, mas não é exatamente isso, porque uma hora a história pára de andar. Fala sobre um cantor que escreve uma peça e parte para uma turnê com sua trupe. Seu passado recente de shows é visto nos laptops dentro do ônibus em que viajam. Quando ele volta para sua cidade natal, Sacramento, que é ficcional, para sua surpresa a peça dele já está sendo encenada. E dessa trama afloram mil signos brasileiros. Alceu ainda está estudando se interpretará o personagem principal, o do cantor batizado de João Maurício, assumindo diretamente os traços auto-biográficos do projeto, um misto de musical e literatura de cordel. Será sua estréia como diretor e roteirista, mas não como ator. Em 1974, ele foi protagonista de A noite do espantalho, de Sérgio Ricardo. - Dedico esse roteiro ao Sérgio, porque a partir dele minha vida mudou. Até então nunca tinha sido tratado como artista, nem ganhando um dinheirinho. Foi também uma experiência fundamental para o desenvolvimento de minha postura no palco e para eu perder o medo das câmeras - avalia. Walter Carvalho é de João Pessoa, Paraíba, e Alceu de São Bento do Una, Pernambuco. O fato de dividirem a mesma origem e a mesma geração foi importante para o firmamento da parceria. Foi sobretudo a paixão em torno da idéia que os uniu, segundo Carvalho: - Ele foi me contando o roteiro e interpretando os personagens ao mesmo tempo. A figura do Alceu falando é um acontecimento. No palco, ele é um ator, me deu vontade de filmá-lo. Também tinha vontade de trabalhar com alegorias, uma fábula sobre o Nordeste, com elementos como o padre, o coronel, o cangaceiro - diz o co-diretor de Cazuza - O tempo não pára, adiantando que não acumulará a função de fotógrafo para não embolar as funções. Entre uma pergunta e outra, Alceu confundide disco e filme, ator e personagem, tamanho é seu mergulho no ato da criação. Livre, como sua música: - Sinto que o cinema e a música não são estáticos. Eles seguem uma contemporaneidade, mas podem estar olhando para trás: para o aqui e o agora, com um pé no passado e de olho no futuro. Estou muito satisfeito com essa liberdade que é própria da vida do artista. Entendo arte como um sacerdócio, uma religião. (© JB Online) Trecho inédito do roteiro de ‘Cordel virtual’ (música) PALHAÇO FARSANTE Em 1939, o Satanás inventou LAMPIÃO Que sujeito deletério, PALHAÇO (VELHO) QUIABO Entrou pela porta da frente LAMPIÃO Vai viver por piedade PALHAÇO (VELHO) QUIABO E quanto a tal da internet LAMPIÃO Toco na tecla delete (© JB Online) Alceu, o arauto inquieto Tárik de Souza Ao completar redondos 35 anos de carreira, o pernambucano Alceu Valença reflete sobre essa passagem no CD Na embolada do tempo (Indie). Integrante da leva nordestina (Fagner, Belchior, Geraldo Azevedo, Ednardo, Vital Farias, Elba e Zé Ramalho) que desceu para o Sul no começo dos 70 a bordo de uma releitura eletrificada das raízes plantadas por autores como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João do Vale, Alceu não tergiversou. Manteve-se fiel à doutrina reformadora da rica herança popular da região apontada como a de economia mais pobre do país. ''Sempre procurei usar os elementos que a modernidade apresenta colocando a tecnologia a serviço da minha música'', discursa ele no texto de apresentação.A viagem do repertório do CD começa no 1970 da inédita repescada Noite vazia, que, num leve galope mouro, reconstrói uma cena de vizinhança no Leme (''Helena não lembra nada/ da noite anterior/ entre o silêncio do quarto/ e o ronco do elevador''). E chega à abrasiva faixa-título, um coco de embolar movido a berimbau, pandeiro e guitarra, marcado ''no grito'' por seu filho caçula Rafael Valença. ''O tempo em si/ não tem fim/ não tem começo/ mesmo pensado ao avesso não se pode mensurar'', filosofa a letra. A temática do disco recua mais na parceria Romance da moreninha, de Alceu com o ator Emanuel Cavalcanti, alicerçada por naipe de cordas e fincada na cantiga de gesta medieval, da tradição oral nordestina (''moreninha do cabelo cacheado/ aonde eu for/ levo você ao meu lado''). O maracatu pulsa em Carnaval da Marim (Marim dos Caetés, velho nome de Olinda), um dos ambientes do disco também passado no Rio, a outra cidade onde tem casa, que lhe inspirou Ai de ti, Copacabana. A letra revisita a musa de João de Barro, o Braguinha (co-autor do hino que chama o bairro de Princesinha do Mar), de Dorival Caymmi (de Sábado em Copacabana) e do cronista Rubem Braga, autor do texto de título utilizado por Alceu. Este inspirou-se no caderno editado pelo JB nos 80 anos de Caymmi, em 1994, que reuniu personalidades de alguma forma ligadas ao baiano (de Tom Jobim a Jaguar, Albino Pinheiro, Sérgio Cabral, Almir Chediak, João Ubaldo Ribeiro e o próprio Alceu) para uma foto na colônia de pescadores do Posto 6. ''Fiquei com essa imagem muito tempo e acabei fazendo a música lembrando de Rubem Braga, um dos autores que mais li quando morei no Recife'', rebobina. Nestes extremos geográficos há o energético frevo Vampira, do fornecedor especializado J. Michiles, provável aposta para o carnaval pernambucano de 2005, e o Samba do tempo, um sincopado leve que remete à bossa nova. Na letra, outra meditação sobre o rito de passagem. ''A gente/ segue o tempo e ninguém nota/ seus caminhos suas rotas/ por onde o tempo seguiu/ depois quer viver tudo que viu/ vai bater na mesma porta de onde um dia saiu''. Embora Depois do amor soe quase um remake do sucesso Como dois animais, Na embolada do tempo mostra que o autor Alceu continua inquieto, arauto agudo de uma tradição em transformação. (© JB Online) |
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