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Na toca do Lobo

Edu Lobo
 

Antonio Carlos Miguel

   Não deve faltar quem insista na idéia de que finalmente Edu Lobo está saindo da toca. Ou mais, que os shows que fará neste e no próximo fim de semana no Rio, no Mistura Fina, e o disco de inéditas que começa a planejar são reação ao susto que levou em agosto passado, quando viu a morte de perto, surpreendido pelo rompimento de um aneurisma. A primeira afirmação é um equívoco reincidente. Com exceção do período em que viveu nos EUA, entre 1969 e 72 — quando fez cursos de orquestração e de música para cinema, gravou um disco produzido por Sérgio Mendes e trocou figurinhas com gente do jazz, como Paul Desmond — Edu sempre esteve por aqui. Apenas diminuiu a presença nos palcos, sem parar de gravar e compor (e compondo cada vez melhor, como o recente musical “Cambaio”, com letras de Chico Buarque, prova). Quanto à influência que o acidente teria exercido sobre seus passos atuais, esclarece:

   — Fiz shows em São Paulo e num shopping em Niterói antes do meu problema, uma coisa não tem a ver com a outra. E eu só soube do risco que passara depois de operado. O trabalho de Niemeyer (o neurocirurgião Paulo Niemeyer) e sua equipe foi extraordinário sob todos os pontos. Então, passado todo o susto, quando a minha cabeça foi aberta de orelha a orelha, o que penso é que tive sorte por ser bem atendido na hora certa.

   Nos primeiros momentos de sua convalescença, a única mudança que percebeu foi uma “preguiça para conversar”. Seqüela mais que superada, como o repórter confirma. E, seis meses depois da cirurgia, aos 61 anos (com corpo e aparência de um quarentão), Edu Lobo voltou a correr na esteira, com os mesmos índices de antes, e a se enfurnar em sua toca, lendo, fazendo ou ouvindo música.

   — Você já percebeu que diminuíram nossos dias, que agora só têm 16 horas? — pergunta, cercado de livros, CDs, DVDs, teclados, equipamentos de som e vídeo que, mesmo em perfeita ordem, atulham seu ambiente de trabalho.

   Sua toca é uma sala na confortável casa que construiu nos anos 70, ao voltar ao Brasil, no alto de uma encosta em São Conrado. Nessa época, Edu já fizera a opção de trocar os holofotes pelos bastidores. Ele que fora o primeiro grande ídolo dos cantores-compositores de sua geração — a insuperável safra pós-bossa-novista revelada nos festivais de música dos anos 60. Interpretada por Elis Regina, a sua “Arrastão” (com letra de Vinicius de Moraes) venceu em 1965 o I Festival de Música Popular Brasileira, na TV Excelsior. Mas, antes disso, o currículo do jovem já acumulava muitos feitos. Em 1961, aos 20 anos, conheceu Vinicius — “Que me apresentou a todo mundo”, lembra — com quem neste mesmo ano compôs o clássico “Só me faz bem”, a primeira de quase 20 parcerias com o poeta, que incluem também “Canto triste”, “Canção do amanhecer” e “Zambi”. Também manteve por pouco tempo um grupo com os amigos Dori Caymmi e Marcos Valle, mas as encomendas já eram muitas. A partir de 1963, passou a compor para o teatro, incluindo trilhas para peças de Vianinha, Dias Gomes, Guarnieri e Augusto Boal.

   — Não acredito em inspiração, sempre tive que perseguir a música, e adoro trabalhar por encomenda, o que me leva a fazer coisas diferentes — conta Edu, que, recentemente, na trilha sonora para o filme “O Xangô de Baker Street”, compôs temas que remetem ao Rio da virada do século XIX para o XX. Uma delas, bela e evocativa valsa que mostra com algum receio (“Trilha sem as imagens nem sempre funciona”), estará no repertório do disco inédito que programa, sem pressa e sem gravadora. — Depois penso em como lançar, quero fazer com o trio que tem me acompanhado nos shows. Gosto muito dessa formação básica, violão, bateria, piano e contrabaixo.

   As apresentações, no entanto, continuarão esparsas:

   — Não gosto de me lembrar do tempo em que vivia em aviões e hotéis. Preciso de meu canto para compor.

Opção pela excelência musical

   Repertório inédito não será problema. Edu tem seis composições prontas para receberem letra de parceiros, além de duas canções gravadas apenas em trilhas e já incluídas no repertório dos shows: “Forrobodó” (de “Xangô”) e “Senhora do rio” (de “Canudos”) — a letra desta vem de uma cantiga de domínio público que conheceu quando trabalhava com o diretor Sérgio Rezende.

   — É um tipo de música cantada em enterros no Nordeste, os benditos, e ao conhecer aquela letra vi que tinha uma canção nova — conta ele, que, nos anos 60, foi dos primeiros a atentar para a riqueza musical do Nordeste, injetando influências que iam do frevo às cirandas, consciente que a geração anterior, de Tom Jobim, Vinicius, Carlos Lyra, já tinha feito praticamente tudo no samba moderno.

   Rigoroso, pautado pela excelência musical, em 1968 ele viu parte de seus amigos embarcar na Tropicália. Caetano, Gil e companhia acenavam com ingredientes outros para brigar pelo grande mercado pop. Edu, erroneamente tachado de conservador por alguns, preferiu continuar brigando pela sua grande e pessoal música. Mais de três décadas depois, quando o tema é abordado, a impressão é que essa ferida não cicatrizou. Mas, antes do racha, antes mesmo da bossa nova, ele ouvia standards americanos, Caymmi, Ary Barroso, Custódio Mesquita, e brigou com o acordeom por oito anos.

   — Estudei dos 8 aos 16 anos, era um sacrifício, aquele instrumento enorme. Tanto que, ao voltar a estudar em Los Angeles, esquecera tudo, não sabia mais ler.

   Pois entre seus prazeres atuais está ouvir música lendo as partituras, seja Debussy (“É muito original, e difícil rastrear as suas influências, mas a influência de Debussy se percebe em tudo que vem depois, de seus contemporâneos, como Ravel, ao jazz e à música popular moderna. Ainda não se fez a devida avaliação do papel de Debussy.”) ou o orquestrador jazzístico Gil Evans.

   — No Brasil, soa pedante, mas isso é comum na Europa, e é a melhor forma de ouvir música — garante. No que somos obrigados a discordar. Melhor ainda é ouvir Edu Lobo, fora de sua toca, ao lado de Cristóvão Bastos (piano), Jorge Helder (baixo) e Rafael Barata (bateria).

O Globo)

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