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O tambor do Brasil

Daniela Name

   Vai ter fitinha do Bonfim junto com as curvas de Oscar Niemeyer; maracatu afinado com a bossa nova; as cores vivas de Mestre Vitalino e a invenção de Amilcar de Castro; a literatura de cordel e a de Chico Buarque. Em 2005, a sanfona das festas de São João vai dar a cadência do 14 Julliet, a festa em que os franceses celebram a Queda da Bastilha. Este é o ano em que a França homenageia a cultura brasileira, recebendo em solo nacional exposições, peças de teatro, shows, seminários e rodas literárias saídas daqui. E nossa âncora na França já começa a ganhar forma: é o Espaço Brasil, que vai ser inaugurado no dia 11 de junho e vai funcionar como pólo irradiador de tudo o que vai ser visto pelos franceses.

   — O Espaço Brasil vai ser a caixa de ressonância do Brasil na França — disse o ministro da Cultura, Gilberto Gil, que ontem pela manhã anunciou oficialmente a programação do pavilhão. — Vai ser também a casa de atualização de nossa imagem no exterior, uma casa aberta para o mundo. Não vamos conseguir esgotar todos os aspectos da cultura brasileira, mas podemos criar um núcleo de reflexão.

“Brasil da diversidade e da paz” vai ser divulgado

   O Espaço Brasil vai funcionar no Carreau du Temple, um pavilhão tombado de 2.400 metros quadrados localizado no Marais, um dos bairros mais charmosos de Paris. Ronaldo Barbosa, diretor do Museu da Vale do Rio Doce, no Espírito Santo, assina a cenografia, que não vai interferir em nada no patrimônio tombado dos franceses: feitas com tecnologia de ponta, as paredes modulares vão criar salas com funções variadas e serão uma primeira amostra do “Novo Brasil” que o governo Lula quer mostrar aos franceses.

   — Não queremos vender o exótico. Somos exuberantes, sim, mas não só isso. Queremos mostrar nossa tecnologia e as várias faces da nossa cultura — diz Daiana Dias de Castilho, curadora do Espaço Brasil.

   Quem entrar no pavilhão vai ser imediatamente bombardeado com imagens deste país “da diversidade e da paz”, como define Gil: no corredor de acesso às salas, as paredes vão projetar cenas da cultura brasileira.

   O pavilhão foi dividido em cinco núcleos temáticos — um nacional e outros quatro divididos entre as cinco regiões brasileiras. Doze estados já fecharam acordo para levar programações para lá, enquanto outros vão participar de outras atividades do Ano do Brasil na França, a última temporada deste tipo que os franceses vão realizar. Duas galerias (uma de arte contemporânea e uma de arte popular), um auditório, um palco para shows e peças e um café literário vão sediar a programação.

   Além disso, uma sala especial vai mostrar “O Brasil de Portinari”. A obra de nosso pintor mais popular vai ser apresentada em cinco telas multimídia de grandes dimensões. Os principais quadros e personagens de Portinari serão reconstruídos passo a passo através de animação e os franceses vão poder entender “a imensa aventura de pintar uma Pátria” proposta pelo artista.

   Na galeria de arte contemporânea, o público vai ver uma exposição de Amilcar de Castro, um dos maiores nomes da arte construtiva brasileira. O escultor brasileiro, morto em 2002, vai ser festejado dentro do ambiente da galeria, com peças de médio e pequeno porte, mas também na rua: esculturas monumentais vão ser instaladas na calçada em frente ao Carreau du Temple.

   — A programação do Espaço Brasil vai vazar para a rua, chamando o público para o lado de dentro — conta Daiana. — Vamos fazer festas e apresentações na calçada.

   A galeria de arte popular vai explorar um patrimônio brasileiro — a água. Uma exposição sobre as embarcações populares, organizada pelo Iphan, vai ser um pretexto para falar de nossos rios e nosso litoral, bem como da cultura e do imaginário das populações ribeirinhas.

Marais vai ganhar festa junina na inauguração

   Há três datas estratégicas para o Espaço Brasil: a abertura, em junho; o 14 de julho, dia que os franceses celebram a Pátria; e o 7 de setembro, nossa data cívica. Na inauguração, a proximidade das festas juninas vai transformar o Marais em um arraial.

   Um show do cantor Dominguinhos, com participação do ministro da Cultura, Gilberto Gil, é um dos pontos altos da programação, que também vai contar com a exibição do filme “Viva São João”, de Andrucha Waddington. A programação de cinema brasileiro, com curadoria do Grupo Estação, vai estar sempre afinada com o que estiver sendo mostrado nas salas do espaço.

   Há outros shows confirmados — Milton Nascimento, Marcelo D2, Martinália e Fernanda Abreu, entre outros — e a música clássica não foi esquecida: Heitor Villa-Lobos, nosso maior compositor, é a vedete de uma programação high-tech, que vai incluir concertos e conferências transmitidos do Brasil para a França, via satélite.

   A ponte entre o popular e o erudito vai ser feita por artistas que já trabalham com esta mistura, como os grupos de teatro Galpão e Giramundo (este último vai dar um workshop sobre bonecos) e o cantor Antônio Nóbrega. No subsolo do Espaço Brasil, empresas do país inteiro vão mostrar seus produtos e fechar negócios. Terminais de computador e atendentes treinadas vão poder mostrar catálogos e fechar convênios e até iniciar negociações para a exportação.

   — Foi a forma que encontramos de multiplicar o espaço ao infinito, sempre de olho na economia — conta Daiana.

O Globo)


EVENTO

Ano do Brasil na França terá espaço reformado com dinheiro do governo

Pavilhão francês vira Espaço Brasil

DA SUCURSAL DO RIO

   Mesmo sem ter a programação fechada, foi lançado ontem pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil, o Espaço Brasil, pavilhão parisiense de 800 m2 que será um dos carros-chefes do Ano do Brasil na França, série de eventos que ocorrerão ao longo de 2005.

   O Espaço será aberto em 11 de junho no Carreau du Temple, construção do século 19 que pertence à Prefeitura de Paris, mas está sendo reformada pelo governo brasileiro. O Ministério da Cultura e o Comissariado Brasileiro, responsável pela programação do evento, não informam o custo das obras.

   Em parceria acertada com o governo federal, os Estados tentarão captar recursos junto à iniciativa privada para viabilizar as centenas de atrações sonhadas para o ano. Da cerimônia de ontem, realizada no Palácio Gustavo Capanema, no Rio, participaram vários secretários estaduais de Cultura e os governadores do Pará, Simão Jatene, e do Tocantins, Marcelo Miranda.

   O Espaço Brasil terá entrada franca, como forma de atrair o público de Paris e os turistas que visitam a cidade no verão europeu. Segundo o Comissariado, cerca de 400 mil pessoas passarão pelo pavilhão, no bairro do Marais, até 25 de janeiro.

   "[O Espaço Brasil] Será a caixa de ressonância da cultura brasileira durante o Ano do Brasil na França. Seu papel estratégico será revelar a cultura brasileira ao mundo em sua faceta mais contemporânea, complexa e inovadora", afirmou Gil.

   Embora o lançamento tenha sido ontem, pouco ainda se fala da programação do espaço, que deverá estar completa no fim de janeiro, segundo os organizadores. Já estão confirmadas, entre outras coisas, uma grande mostra do artista plástico mineiro Amilcar de Castro (1920-2002) e uma exposição multimídia de telas de Cândido Portinari (1903-1962).

   No pacote de 140 shows estão previstos Milton Nascimento, Fernanda Abreu, Mart'nália, Zeca Baleiro e Marcelo D2. E entre os 20 nomes de artes cênicas já estão certos Antonio Nóbrega, Michel Melamed e as companhias mineiras Galpão e Giramundo.

   Todos esses artistas estão na Mostra Nacional, a primeira das cinco que ocuparão o Carreau du Temple. Depois delas virão mostras dedicadas às regiões Sul, Norte, Sudeste e Nordeste.

   "O Centro-Oeste ficou de fora porque havia um prazo para os Estados responderem às nossas consultas. Mas a região estará em outros projetos. E São Paulo também não estará no Espaço Brasil porque preferiu fazer uma programação própria", contou Daiana Castilho Dias, coordenadora do espaço.

   Segundo ela, a concepção da montagem do pavilhão é fugir de estereótipos nacionais como escolas de samba e futebol.

   "Queremos mostrar o que é real. Como não podemos reproduzir no espaço o que é exatamente um desfile de escola de samba, não vamos fazer uma maquiagem. A prioridade é mostrar expressões que não têm um circuito aberto na Europa", explicou.

Madeira

   O objetivo é levar à França, por exemplo, manifestações que revelem a presença européia na região Sul; jogos, produtos e costumes dos povos amazônicos; a diversidade das expressões musicais dos grandes centros urbanos, onde se cruzam samba, hip hop, rap etc.; e a arte contemporânea feita no Nordeste a partir de madeira, material que será o fio condutor da mostra dessa região.

   "Estamos interessados em diversidade e no casamento entre a modernidade e o que é genuinamente nacional. Vamos mostrar a nossa produção contemporânea, mesmo que transitando por tradições", disse a coordenadora.

   O espaço também terá um viés econômico, com as chamadas rodadas de negócios e esforços para vender produtos brasileiros a empresários europeus. O objetivo é levar as mostras a outras cidades francesas depois de Paris.

   O Ministério da Cultura já divulgou uma lista de 234 projetos aprovados para o Ano do Brasil na França. Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Ernesto Neto, grupo Corpo e Lenine são alguns dos nomes confirmados. A lista está no site www.cultura.gov.br.

Folha de S. Paulo)

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