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Quando a vida parece que imita o brega

Orlando Dias, um dos pioneiros do Brega

Os artistas bregas pernambucanos desbancaram os compositores e cantores ‘estrangeiros’. Eles reinam absolutos com suas canções de amor

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   Após um dos shows de Michelle Melo (ex-Banda Metade), uma moça fazia de tudo para se aproximar da cantora. Aos berros, a fã implorava: “Michelle, preciso falar com você. Sua música salvou meu casamento”. A canção em questão era Banho de espuma. “Fiquei curiosa para saber o que aquela moça queria comigo. Quando se aproximou, disse que o marido dela havia pedido o divórcio. Nessa hora, ela chegou para ele e disse ‘ok, assino, mas você tem de satisfazer meu último desejo como sua esposa’”, lembrou Michelle.

   O tal desejo foi o seguinte: a fã levou o marido para o motel, encheu de espuma a banheira e deixou o CD de Michelle rolando. “Ela disse que não iria pedir nada ao marido porque, assim, como a moça que estava cantando, ela era uma mulher para ser cobiçada e não para cobiçar. Foi a forma da minha fã provar que podia satisfazer seu homem de todas as maneiras”, completou a cantora. O papel do divórcio não foi assinado.

   A historinha acima retrata a força que a música pop pode ter, muitas vezes a ponto de imprimir um novo rumo na vida do ouvinte. Uma boa canção radiofônica funciona como uma tela de cinema em branco, feita para projetar os desejos mais básicos de quem a esteja ouvindo. Sua função é amplificar a vida, fazendo com que ela seja mais vívida e real que a própria realidade. Seja essa faixa de hip hop, rock, sertanejo ou brega.

   O brega (ou brega-pop), que tomou de assalto a vida do recifense de dois anos para cá, tem o centro de sua força em letras simples, que falam da realidade como ela é ou do sexo como ele deveria ser, sem falhas e com lances cinematográficos. Para entender melhor a força do fenômeno, a reportagem do JC foi atrás de alguns dos principais compositores do gênero. A idéia era saber de onde eles tiram histórias como a da moça que liga para o amante dizendo que ele a fez sentir como uma virgem, e depois se manda para nunca mais aparecer – atualizando assim, 20 anos depois, o clássico Like a virgin, da Madonna, com fim triste e ainda mais fôlego folhetinesco.

   Entre os compositores está Lindinaldo Silva, o ‘Lindão’, que trabalha como frentista em um posto de gasolina no bairro da Boa Vista.

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Compositor de brega, com todo o gás

Ex-forrozeiro, o frentista Lindinaldo Silva, o ‘Lindão’, defende que o brega é a música de quem ama, opinião compartilhada com outros autores

   Lindinaldo Silva, o ‘Lindão’, trabalha como frentista em um posto no começo da Avenida Conde da Boa Vista. Nas horas vagas, faz o que realmente gosta: música. Ex-forrozeiro, começou a se envolver com o brega há um ano e meio. A mudança surgiu quando uma amiga sua dos tempos de ouro da ‘oxente-music’ (o finzinho dos anos 90), Nanau, vocalista da Luminar, o chamou para escrever algumas canções para sua nova banda.

   “Quando eu cheguei na casa de Nanau, ela estava triste. Logo estranhei, porque Nanau é uma pessoa tão feliz”, lembrou Lindão. Nanau havia acabado de encerrar um relacionamento. “Ela ficava me dizendo que não entendia como você pode dar tanto amor a uma pessoa e ser largada.”

   No fim da visita, Lindão saiu pensando na história da amiga. “Eu estava voltando para casa, quando surgiu a letra de Sozinha na minha cabeça. Cheguei em casa, e gravei uma versão da canção com a minha própria voz. Nanau ficou espantada ao ver sua história retratada”, explica o compositor. Sozinha foi não só o primeiro sucesso de Lindão, como a música mais estourada da Luminar nas rádios locais, e o passaporte para compor para artistas como Maestro Cristiano, Ovelha Negra e Alex Vieira.

   Apesar do sucesso, a canção não rendeu mais que R$ 1 mil para o compositor – “O problema é que a pirataria anda muito forte. Além disso, a Luminar não tem CD lançado. Eles só fazem canções para os DJs das rádios.” Mesmo assim, ele ainda tem esperança que o brega mude sua vida. Tanto que vai lançar sua própria banda, a Deusa do Amor – “O brega é muito forte, porque fala como as pessoas vivem e amam.”

   Eliel Barbosa, compositor e produtor da Banda Metade, afirma que toma todo o cuidado do mundo para não deixar os discos de sua protegida caírem nas mãos dos “piratas”. “Eu seguro o disco até o lançamento. Só solto uma faixa, e para as rádios. O resto fica em meu poder. A pirataria não tem como ter os discos todos”, declara. A Banda Metade vende 20 mil discos em média.

   A Banda Metade ficou famosa por ser o lado “sexual” do brega. “Sensual”, corrige Eliel, que afirma pensar na sensualidade feminina na hora de escrever. “Não tenho uma musa específica quando faço minhas canções, mas sei que elas fazem a cabeça da mulherada”, declara.

   Louro Santos é outro compositor responsável por dar forma à sensualidade da Banda Metade. “Quando fui chamado para escrever para a Metade, a minha inspiração foi a sensualidade que Michelle Melo (agora em carreira solo) colocava nas músicas. Ela inspirou o sucesso Babydoll. Já Topo do prazer, não pensei em uma mulher específica, mas em todas elas. Toda mulher quer chegar ao topo do prazer.” Louro cobra em média R$ 3 mil reais para ceder uma canção para uma banda.

   A musa Michelle Melo, famosa por cantar sobre sexo e pelas dezenas de gemidos que imprime a cada nota cantada, corre de temas sexuais na hora de escrever suas próprias músicas. “Quando escrevo, penso em amor.” A inspiração da moça em geral são as histórias que suas amigas contam. “Elas pedem que eu escreva sobre o que acontece no coração delas. Acho que falar de forma direta sobre o que as pessoas estão sentindo, é o segredo do sucesso. Para você ter idéia, não saio de casa sem ouvir pelo menos uns 15 ‘eu te amo’ todos os dias”, ressalta.

   Chrystian Lima, ao lado de seu irmão, Ivo, foi responsável por um dos maiores sucessos do brega-pop, Como uma virgem, gravada pela Banda Calypso. “Em geral, eu escrevo sobre o que vivo. Cobertor, por exemplo, que foi gravada pelo Araketu, fala de uma separação que eu vivi. Ela me deixou e nem se preocupou se meu coração iria ficar vazio. Como uma virgem não foi sobre ninguém em especial. Acho que muita gente já viveu algo parecido”, lembra Lima.

   O compositor afirma que, após a canção estourada, uma amiga telefonou para ele – “Ela disse que havia passado pela mesma história da canção, e que ligou para o cara, perguntando se havia alguém com ele, e se a resposta fosse sim, que ele dissesse que foi engano”. (S.C.)

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Acadêmico estuda o fenômeno a partir da análise do corpo

   De tão imperativo que é, o brega-pop também chegou à academia. Fernando Fontanella, mestrando em Comunicação pela UFPE, defende em março uma dissertação que estuda “o corpo no brega”. Os estudos do corpo – de grande enfoque sociológico – analisam como o corpo interage com a sociedade, como ele pode ser uma inscrição cultural.

   Ou mesmo capital cultural, como explica Fontanella. Entende-se por capital cultural tudo aquilo que você sabe, os idiomas, sua formação, quem você conhece ou mesmo quem lhe conhece. No caso do brega, Fontanella afirma que os exageros das danças, as dançarinas que não precisam ser magras, as roupas para lá de coloridas, em resumo, todo esse aparato subverte o padrão estético rígido e longe da realidade exportado por novelas e filmes.

   Mas, por que entender o brega a partir do corpo? “É no corpo que todos os grupos sociais se igualam. Pobres e ricos, todos estão submetidos à condição corporal: seus corpos se alimentam, defecam, suam, envelhecem, adoecem e possuem uma sexualidade. O corpo iguala as pessoas. Por exemplo, você investe no corpo, malha, e de repente assiste alguém na TV, quase sem roupa, dançando e agindo de maneira sexy. Daí, você pensa: todo meu esforço foi em vão. Isso desestabiliza o sistema.”

   Para Fontanella, os artistas do brega-pop não fazem uma oposição consciente ao sistema. Eles mostram, sim, que existe um outro modelo, além daquele conhecido e já aceito.

   “Mas, são justamente as formas simbólicas populares presentes no brega que lhe garantem a rejeição por parte dos grupos culturais hegemônicos, cujos membros lhe dirigem ataques que muitas vezes deixam transparecer preconceitos de raça e classe, que visa naturalizar as circunstâncias de desigualdade de acesso aos benefícios do consumo. Vista como tosca, vulgar e de mau-gosto, a música brega é considerada nesse discurso elitizado como exemplo da degradação da cultura popular promovida pela mídia, degeneração imposta pela vida precária nos subúrbios ou fruto da ignorância das massas”, explica o mestrando.

   Outra característica interessante do brega, para Fontanella, é a “democratização” da condição de artista que o gênero promove. “Não há a exigência de um domínio de informações ou técnicas específicas para a produção artística: praticamente qualquer pessoa pode ser um astro do brega: cantores não precisam saber cantar, compositores não precisam saber escrever. Muitas vezes as músicas são versões de músicas internacionais que estiveram nas paradas de sucesso nos anos 80 e 90, agora esquecidas, ‘recicladas’ com letras de temática brega. Tanto músicos como dançarinos não precisam seguir um padrão rígido de beleza corporal, mesmo para assumirem papéis ‘sensuais’ nas encenações dos palcos”, completa.

   Fontanella aponta ainda a independência que o brega-pop tem em relação à mídia convencional – “Embora a maior parte dos meios de comunicação, das gravadoras e das grandes casas de show ignorassem sua existência, esses artistas continuaram produzindo, assimilando as influências novas que chegavam e mantendo um público significativo nas periferias.”

   Para seu trabalho, o mestrando tomou como foco de estudo os programas de auditório locais, que têm o brega como maior atrativo de sua programação. As bandas mais citadas na dissertação são Calypso e Vício Louco. (S.C.)

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Compositores versáteis caíram no brega

JOSÉ TELES

   Paulo Sérgio Valle formou com o irmão Marcos Valle uma das parcerias mais inspiradas da bossa nova. Assinaram clássicos como Samba de verão e Preciso aprender a ser . Esta última com mais de 80 gravações apenas nos Estados Unidos. Embora a mídia raramente se ocupe dele, Paulo Sérgio Valle é atualmente um dos compositores mais gravados, e um dos que mais faturam com direito autorais no País. Em 1998, por exemplo, segundo o Ecad, a música mais tocada no Brasil foi Cada volta é um recomeço, de Paulo Sérgio Valle & Nenéo, com Zezé di Camargo & Luciano.

   Desde 1978, quando fez com Eduardo Lage Às vezes penso, para o álbum anual de Roberto Carlos, Valle enveredou pela vertente considerada menos nobre da MPB, a da chamada música brega. O compositor, que já foi gravado por Elis Regina e Sarah Vaughan, tornou-se fornecedor de sucessos para artistas populares como José Augusto, Christian & Ralf, Elymar Santos, Negritude Jr., Karametade, Leonardo, Só pra Contrariar, Alcione, e até pelos bregas internacionais. A canção mais executada no México, em 1992, foi a versão em espanhol de Evidência, de Paulo Sérgio, lançada por Chitãozinho & Xororó, e gravada pela mexicana Ana Gabriel.

   Paulo Sérgio Valle é o mais bem-sucedido autor a ousar essa guinada de estilo. Exemplos como o dele são muitos. A cantora Maria Dapaz compõe para Sandy & Júnior e os repentistas Raimundo e Nonato Costa para bandas de forró eletrônico. J. Michiles, consagrado compositor de frevo-canção, dois deles sucesso nacional com Alceu Valença – Diabo louro e Roda e avisa – não se dedica ao brega em tempo integral, mas não nutre preconceitos contra o gênero, ao qual é ligado por laços de parentescos. É genro de Louro Santos, um dos mais prolíficos autores do brega atual, e sobrinho de Orlando Dias (já falecido), um recifense que vendeu milhões (sic) de LPs até os primeiros anos da década de 60. Dias, tanto pelas descabeladas performances, quanto pelas arrebatadas interpretações, pode ser considerado o pai da música brega brasileira.

   Gravaram Michiles do veterano Roberto Müller, a Augusto César, para quem compôs Delírio. Michiles também é cantado pela atual rainha do brega pernambucano, Michelle Melo, que gravou Negue, lançado originalmente, em 1987, por Fafá de Belém, e incluída na trilha da novela Sassaricando.

   Brega assumido, e que ainda se responsabiliza pela popularização da palavra “rapariga” nas letras das músicas, Valter de Afogados é autor da badalada Morango do Nordeste, com mais de 150 gravações, inclusive no exterior. Valter de Afogados, assim como Paulo Sérgio Valle, já trilhou outros caminhos. Com Ívano, Ednaldo Lima e Valdir Afonjá, ele integrou a cena reggae do Recife e Olinda nos anos 80. “Fazia também maracatu, afoxé, mas quando vi que não se valorizava a cultura em Pernambuco, decidi mudar. Afinal, precisava ganhar a vida”, explica-se Valter, que inicialmente incursionou por ritmo latinos, como a cumbia, e em seguida pela música axé. “Estava fazendo bastante sucesso nas rádios com Ilumina. Aí, apareceu Luiz Caldas com uma música parecida e, como ele tinha uma gravadora grande para ajudar, as rádios pararam de me tocar para tocar o cara. Daí, parti para o brega.”

   Os primeiros bregas de Valter de Afogados foram gravados por ele mesmo.O mais conhecido dessa fase foi O raparigueiro. “Até essa época ninguém colocava isso numa música. Depois de mim, veio Amor de rapariga, Rapariga é você, e mais uma porção. Hoje, eu já sou conhecido pelo apelido de ‘o raparigueiro’”, jacta-se o ex-regueiro.

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