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Para se desligar do mundo, o violoncelista pernambucano tem como hobby
cozinhar. Ele descansa no Rio de Janeiro, se preparando para mais um ano
de agenda cheia Temporada de descanso, para o violoncelista pernambucano Antonio Meneses, combina com panelas, temperos e ingredientes sofisticados. Enquanto conversava pelo telefone de sua casa, em Basel, na Suíça, sobre seus variados e inusitados projetos para 2005, o violoncelista brasileiro de maior nome internacional corria, de quando em vez, até o fogão para remexer um pot au feu, um cozido à francesa. A cozinha é terapia de relaxamento, enquanto ele comemora a boa aceitação de seu mais recente disco — um CD duplo com as seis suítes para violoncelo de Bach — e também bola idéias incomuns para o novo ano, sobretudo parcerias inéditas com compositores brasileiros, para os quais encomendou peças para seu instrumento. “São carnes e verduras cozinhando juntas e lentamente” ensina ele, confessando sua preferência por pratos italianos (ossobuco é um deles) e pela culinária indiana. “Gosto de cortar a cebola, o alho. É a melhor forma de me desligar do mundo”. Precisar, Meneses não precisa se desligar do mundo. Só no Brasil, o disco com as suítes de Bach vem sendo elogiadíssimo. Nas palavras do crítico Luiz Paulo Horta, “a interpretação de Meneses pode concorrer com as melhores existentes na praça.” As seis peças — que são um divisor de águas na carreira de todo violoncelista que se preze — foram revistas por Meneses exatamente uma década depois da primeira gravação feita por ele, para um CD lançado apenas no Japão. Esses dez anos em que ele andou mais pelo mundo, ampliou seu repertório e passou a integrar o reconhecido Trio Beaux Arts fizeram uma diferença e tanto no resultado final do CD, gravado em meados do ano passado pela inglesa Avie (e lançado no Brasil pela Clássicos Editorial), numa igrejinha bucólica escondida a uma hora e meia de Londres. — De todas as obras do repertório do violoncelo, esse conjunto é o de maior desafio para o intérprete — afirma o músico. “Agora, numa comparação com a gravação anterior, percebi que não precisava recriá-las. Preferi evocar a simplicidade e o grande músico que foi Bach, sem inventar moda”. (© JC Online) Compositores brasileiros preparam obras inéditas Embora fale um pouco sobre sua interpretação, Meneses prefere não tecer comentários mais filosóficos sobre as seis suítes de Bach, algo recorrente entre críticos e melômanos. Ele tende a ser um pouco mais direto na avaliação do resultado final, explicando um pouco de suas influências: “Minha primeira referência foi o meu professor, Antonio Jamigro, que nos anos 50/60 também fez suas gravações, demonstrando uma pureza incrível para aquela música. Também há os discos de Casals e de outros grandes. Outra linha é a nova onda dos barroquistas, que também é interessante. Acho que a minha versão está entre os dois caminhos, um lado mais romantizado e outro mais barroco”.Romantizada ou barroca, a versão de Meneses será apresentada ao vivo para os brasileiros em abril. O violoncelista já está com a agenda fechada para dois dias de apresentações no Cultura Artística em São Paulo, apresentando as seis peças, e também em Belo Horizonte. O Rio, como sempre, ainda não foi confirmado, mas ele acredita que não haverá problemas. Durante os concertos do ciclo integral, Meneses aproveita para apresentar outro projeto no qual ele está jogando boa parte de suas fichas a partir de agora: encomendas de obras para compositores brasileiros. Na estréia, sempre acompanhando as peças de Bach, obras curtas especialmente criadas por Edino Krieger, Mariza Rezende, Ronaldo Miranda, Almeida Prado, Marlos Nobre e Marco Padilha: “São prelúdios de dois a quatro minutos que vão acompanhar cada uma das suítes. Convenci-os a criar a partir das peças, mas cada um fará da forma que bem entender”. A partir daí, levando em conta todas as encomendas que Meneses espalhou pelo país, o violoncelista não vai parar mais de oferecer um repertório recém-saído do forno para o público. Em maio, Meneses faz no Rio, junto com a Orquestra Petrobras Pró Música, a estréia carioca de um concertino para violoncelo e cordas do pernambucano Clóvis Pereira, que ele apresentou pela primeira vez em sua cidade natal, Recife, em dezembro. Depois, até 2006, faz a première de uma obra de Marco Padilha (compositor radicado em Campinas) e outra de Edino Krieger. Idéias e novidades que Meneses pretende não abandonar mais daqui para a frente: — Deu um clique em mim depois que fiz a estréia de uma sonata de Almeida Prado, em Campos do Jordão, no ano passado, e resolvi que daqui para a frente vou prestigiar cada vez mais os compositores brasileiros. Quero fazer isso o resto da vida. Os compositores aceitam honrados porque não são muitos intérpretes que fazem isso no Brasil. Meneses evoca o mestre Rostropovich como o violoncelista que mais soube valorizar a boa safra de compositores do século XX, encomendando a nomes como Prokofieff, Britten e Shostakovich peças inéditas. “Todos escreverem para ele! ê importante apresentar peças como as suítes de Bach, mas a vida continua e os compositores de hoje precisam de intérpretes para suas obras. Beethoven, Bach e Mozart tocavam suas peças mas quem é que vai tocar a obra de Edino Krieger?” Pergunta ele. (© JC Online) |
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