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Alceu Valença lança álbum "Na Embolada do Tempo"

Evelson de Freitas/AE

Quase todas as composições do álbum são assinadas por Alceu Valença
 

O cantor e compositor pernambucano pegou o tempo e o transformou em fio condutor conceitual do novo CD, Na Embolada do Tempo

Ouça Embolada do Tempo

Adriana Del Ré

   São Paulo - O cantor e compositor pernambucano Alceu Valença pegou o tempo e o transformou em fio condutor conceitual do novo CD, Na Embolada do Tempo (Indie Records), e de seu filme, Cordel Virtual, cuja direção dividirá com o cineasta Walter Carvalho.

   Na verdade, foi o tempo no filme que despertou Alceu para o tempo nesse seu álbum de inéditas, o 26.º da carreira. Quase todas as composições levam sua assinatura, com exceção de Romance da Moreninha, uma parceria com Emmanoel Cavalcanti, e do frevo Vampira, de J. Michiles.

   No disco, o tema aparece abordado explicitamente, como na faixa-título - com arranjos de instrumentos acústicos, berimbaus, programações e uma participação do filho Rafael, de 3 anos, nos vocais: "Você quer parar o tempo/ E o tempo não tem parada." Ou na canção No Tempo Que me Querias: "Em maio eu montava um cavalo/ Chamado de Ventania/ Lembrei olhando o calendário/ Do tempo que me querias."

   Mas o tempo surge também de maneira sutil, subliminar, afetiva, consciente e até inconsciente. Cada ritmo, cada letra, cada lugar citado remete à sua história, ao seu passado e, sobretudo, à fase que ele considera como a primeira, a da infância, fase determinante para a sua formação de músico.

   O compositor desenvolveu-se num meio efervescente culturalmente, com influências ainda do avô, cordelista, e dos programas de rádio. "Tudo aquilo era lúdico em termos de música, eu não via a música como objetivo. O aparelho de 78 rotações do meu avô, para mim, era um brinquedo", recorda. "Ouvia de tudo: embolador, cego de feira, as toadas seculares. São referências primais, anteriores a Luís Gonzaga."

   Por isso, o CD Na Embolada do Tempo não poderia ser configurado de outra maneira senão por maracatus, frevos, sambas, toadas e outros ritmos.

   Alceu canta ainda Olinda, em Dona de 7 Colinas, e Rio, em Ai de Ti Copacabana, uma característica que já virou constante em sua discografia - a de homenagear cidades queridas, por onde já passou, viveu ou ainda vive. Noite Vazia é a composição mais antiga do CD, composta antes mesmo do primeiro disco, gravado com Geraldo Azevedo.

estadao.com.br)


Cultura brasileira como conceito

Alceu Valença lança disco de inéditas mesclado a projeto cinematográfico

Mônica Loureiro

   No novo disco de Alceu Valença, música e cinema se confundem. Isto porque Na Embolada do Tempo, o CD vem cheio de referências e dentro do clima de "Cordel virtual", longametragem que o cantor e compositor pretende lançar ainda este ano. "É um projeto que desenvolvo há cinco anos. Um filme que aborda o tempo, as estradas, a fama. Quando fui fazer o CD, estava impregnado dessas idéias. Então, a partir deste conceito, fui procurar as canções", diz o artista que, em 1974, protagonizou o filme "A noite do espantalho", de Sérgio Ricardo e teve a sua atuação bem aceita.

   Fazer um disco guiado por um conceito não é novidade para este pernambucano: "Cada disco significa para mim uma história. São 10, 12 músicas que estão ligadas de alguma forma".

   Na Embolada do Tempo é o 26º de uma carreira que já completou 35 anos. Um trabalho inédito depois de uma série de discos ao vivo ou de sucessos. "Este traz, por exemplo, `Ai de ti, Copacabana', que venho cantando há uns seis anos em meus shows. Por que não gravei antes? Por causa dos problemas que passei com as gravadoras, resolvi que não iria gravar mais inéditas. Afinal, meus discos não `aconteciam' por absoluta falta de trabalho em cima deles. Agora, como estou numa gravadora - referindo-se à Indie Records - onde todos são prioridade, vale a pena fazer um trabalho assim", afirma.

   E aproveita para contar a curiosa origem da canção "Ai de ti, Copacabana": "Ela é inspirada em uma crônica de Rubem Braga, autor que comecei a ler aos 12 anos. Eu decorava os textos e quando chegava meio `alterado' em casa e sabia que meus pais iriam brigar comigo, subia no sofá e começava a recitar Rubem Braga. Eles adoravam!", diverte-se.

   Mas a inspiração para escrever "Ai de ti, Copacabana" veio muito tempo depois, quando Alceu já estava morando no Rio. "Uma vez um jornal reuniu Braguinha, Tom Jobim, Caymmi e outros artistas em Copacabana para uma entrevista. Depois, fomos tirar uma foto na praia. Eu fiquei com aquela imagem na cabeça, compus a música e dediquei a todos eles", conta.

Alceu de ponta a ponta

   Na Embolada do Tempo tem 12 faixas - a face do CD é o desenho de um relógio, idéia de sua mulher Yanê - onde apenas duas não são de autoria de Alceu: "Romance da moreninha", uma parceria com Emmanoel Cavalcanti, e "Vampira", frevo de J. Michiles, mesmo autor do sucesso "Diabo louro".

   "Emmanoel me deu a primeira parte de `Romance da moreninha' há uns quatro anos, depois eu fiz a segunda parte. Nós temos muito em comum, como o amor profundo por nossa música, nossa cultura", diz Alceu.

   O disco abre com "Embolada do tempo", um "coco de embolar eletrônico", segundo definição do próprio Alceu, que tem a participação "mais do que especial" de Rafael, seu filho caçula. "Eu levei umas bases para ouvir em casa e ele começou a gritar, como se marcasse a música! Resolvi levá-lo para o estúdio, mas ele não quis fazer logo. Depois, sem ninguém pedir, repetiu direitinho", conta o pai coruja.

   Alceu destaca ainda o arranjo de Márcio Lomiranda para a música: "Ele trabalhou há anos comigo, depois tomou outros caminhos e, agora, voltamos a nos encontrar. Falei para ele que queria esta música como um coco, mas cheia dos elementos eletrônicos que ele tanto conhece e com um berimbau na frente", conta.

   Outro destaque nos arranjos são as cordas de Guto Graça Mello, particulamente na bela "Longe demais": "O Guto foi um dos que mais me incentivou no início de carreira. Ele me entende perfeitamente e acaba indo além do que eu quero. O resultado são esses arranjos primorosos", elogia Alceu.

   O novo disco não só carrega influência direta do filme que Alceu está preparando para dirigir e atuar, como já traz duas músicas da trilha sonora: "Samba do tempo" e "Depois do amor", que abre e fecha o longa, respectivamente. "Depois do amor' é o tema dos personagens Rodrigo e Mariana. E o `Samba do tempo', bem, é a maior novidade do disco. Eu sempre tive uma certa timidez em gravar sambas, porque pensava que, por eu não ser daqui do Rio, não seria capaz. Mas é um universo no qual sempre fui acostumado. Em Recife, ouvia meus tios cantando os sambas tradicionais de Noel Rosa, Pixinguinha e também já tinha composto canções em outro projeto - um livro de poemas", diz.

   Segundo Alceu, o novo disco traz músicas compostas em diferentes épocas, uma forma de mostrar que a arte extrapola o conceito de tempo. "`Noite vazia', por exemplo, eu compus antes de gravar meu primeiro disco, ao lado de Geraldo Azevedo", comenta.

Musical épico

   Projeto acalentado por Alceu há mais de cinco anos, o filme "Cordel virtual" chega finalmente à fase de captação. "Além de atuar, vou dirigir com Walter Carvalho. Já tenho vários atores para chamar, mas ainda não há nada decidido. Boa parte da história se passa dentro de um ônibus, posso dizer que é um road movie, pelo menos até sua metade", conta.

   A idéia é rodar em vários brasis para fazer um verdadeiro musical épico. "O filme é uma história dentro de outra história. Há os artistas que estão no ônibus, entre eles um que escreveu uma peça que é a outra história do filme", tenta explicar.

   Todo em verso e canto, "Cordel virtual" traz embolada, frevo, samba, música eletrônica, bolero, samba-canção, baões gonzaguianos, aboios e muito mais - tudo de autoria de Alceu. "Uma verdadeira ode à cultura brasileira", resume.

Tribuna da Imprensa)

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