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Violão no Baião

Fábio Lima

NONATO LUIZ brilha em versões para violão da obra de Teixeira e parceiros, com destaque para Gonzagão
 

No mês em que Humberto Teixeira completaria 90 anos, uma oportunidade ímpar para conferir, em outra linguagem, toda a riqueza da obra do doutor do baião, sozinho ou com os parceiros Gonzagão e Lauro Maia. É o show “Baião Erudito”, da turnê nacional do violonista Nonato Luiz, que aporta no Teatro do Centro Dragão do Mar. Seguindo na estrada, o aclamado instrumentista se prepara para gravar seu primeiro DVD

Dalwton Moura

   Nas cordas de Nonato Luiz, a cadência com que os baixos são convocados remete ao bater da zabumba, no compasso quente e sedutor do baião. As primas dançam ligeiras, qual os dedos de Gonzaga pelas brancas e pretas de sua concertina, ou pelos 120 botões pretos bem juntinhos, feito nego empareado. Os sons nascentes das cantigas de cego, das feiras livres, da herança ibérica sintetizada em um matulão de cores musicais nordestinas, uma das mais valiosas e espontâneas manifestações da cultura dita popular, recebem tratamento erudito pelas mãos de Nonato Luiz.

 
 
 
 
 

   Em trajetória parecida ao revelar do baião por Gonzaga, também o violonista saiu de um recanto do interior cearense, Lavras da Mangabeira, para ganhar o País e o mundo. Tanto que Nonato Luiz acaba de retornar de mais shows pelo exterior. Desta feita, foram oito apresentações, passando por Alemanha, Áustria e Itália, cujo público teve a oportunidade de conferir a linguagem violonística de Nonato, trabalhada durante toda uma vida e, também por isso, prodigiosa tecnicamente, mas também extremamente pessoal.

   Coroação de um ano especial para o instrumentista cearense, que em 2004 acrescentou nada menos que três novos álbuns à sua vasta discografia. Foi assim com “Choro em Sonata”, em que desaguou o repertório autoral chorão, recorrente em sua trajetória; com o disco em parceria com o pianista cearense Antonio José Forte, trabalhando em duo composições do universo particular de ambos e alguns clássicos da música brasileira; e, por fim, com “Baião Erudito”, disco em que Nonato prestou um tributo a Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, nesta ordem. Pela precedência, entenda-se o desejo de enfatizar a valorosa obra do doutor do baião, ainda menos (re)conhecida que a do intérprete pernambucano responsável por consagrá-la. “Por isso escolhi músicas do Humberto Teixeira também com outros parceiros, além de canções que são só dele. O repertório ajuda a mostrar que Humberto era muito mais que só o letrista de Luiz Gonzaga, o que já seria muita coisa”, destaca o violonista.

   A transposição de repertórios não-violonísticos para a linguagem clássica do instrumento é tarefa constante na trajetória de Nonato. Além de várias músicas brasileiras, até mesmo as melódicas canções dos Beatles já foram reconstruídas, no “Álbum Branco de Nonato Luiz”. Em comum a essas recriações, a revelação de novas nuances, a experimentação rítmica, a incorporação de influências bem brasileiras, em um diálogo que procura, tanto quanto possível, desprezar as fronteiras convencionais entre popular e erudito.

   Daí não surpreender o belo resultado obtido neste álbum especialmente dedicado ao baião de Humberto e Gonzagão. O violão leva o ouvinte por entre pérolas como “Dono dos teus olhos” e a menos conhecida “Benzim”, ambas somente de Humberto. Desfila seguro e encantador pelas parcerias do doutor com Sivuca, em “Fogo pagô” e “Adeus Maria Fulô”. E areja de vitalidade mesmo clássicos um desgastados pela banalização de tantas versões, dos quais os exemplos mais evidentes são “A volta da Asa Branca” e “Asa Branca”, esta enriquecida por uma ousada passagem para tom menor, exibindo todas as possibilidades da linguagem violonística. Entre outros destaques, o medley “Juazeiro”, “Assum preto” e “Algodão”, a versão contagiante para o samba “Deus me perdoe” (de Humberto e Lauro Maia) e as abordagens mais líricas de “Légua tirana” e “Vida de viajante”. Nonato, o compositor, oferece ainda ao público um tema de sua autoria: “Um outro baião”.

Diário do Nordeste)


Fábio Lima

Fábio Lima
 
DOUTOR NONATO: o baião de Humberto Teixeira se inclui no rol de suas irrepreensíveis recriações
 

Doutor das cordas

Humberto Teixeira, o Doutor do Baião, encontrou no violonista Nonato Luiz um digno interlocutor, capaz de transgredir para a linguagem erudita uma das obras mais populares da história da música brasileira

   O disco mereceu inclusive saudação especial da filha de Teixeira, a atriz Denise Dumont, em declaração transcrita no álbum: “Este disco me tirou o fôlego! (...) Não sei se Nonato sabe disso, mas ‘Baião Erudito’ é um presente para todos nós e para mim em especial”. “Foram peças transcritas para o violão, de uma música que foi composta para outros instrumentos. O desafio foi esse, deu um trabalho danado. Mas parece que a Denise gostou”, celebra Nonato Luiz.

   SHOW - O violonista leva ao Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura o show correspondente ao disco. Com patrocínio do grupo M. Dias Branco, do Banco do Estado do Ceará e do Banco do Nordeste, via Lei Rouanet, a turnê de “Baião Erudito” passará ao todo por 15 cidades, até abril próximo. A viagem musical foi iniciada ano passado, em Curitiba, já tendo chegado a Florianópolis, Jaraguá do Sul e Natal.

   “O show se concentra no repertório do disco, reproduzindo-o ao vivo, com pequenas diferenças. A emoção do contato com o público também conta bastante para a música”, considera Nonato Luiz, que se diz tão à vontade no palco quanto nos estúdios. “Não é fácil, para um violonista, se apresentar ao vivo. É preciso concentração, disciplina, atenção. Mas gosto muito desse contato com o público, acho que a reação das pessoas nos estimula a procurar fazer o melhor”, emenda, não descartando que, além dos baiões, brinde o público desta noite com temas autorais que marcaram sua carreira.

   Pelo próprio objetivo do projeto, o show desta noite tem entrada franca, com os ingressos sendo distribuídos na bilheteria do próprio teatro, já a partir das 14h. Vale, pois, ficar atento para não perder. Produtor da turnê e dos álbuns mais recentes de Nonato, Henilton Menezes frisa ainda que, apesar de não estar prevista no projeto, pretende viabilizar uma segunda apresentação desse show em Fortaleza, no encerramento da turnê, que passa ainda por cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Teresina, João Pessoa, Salvador, Recife e Maceió, além do Rio de Janeiro, onde em fevereiro próximo Nonato estará gravando seu primeiro DVD. “Será um produto centrado no disco ‘Baião Erudito’, mas que também mostrará outras músicas da trajetória do Nonato, além de extras como entrevistas, bastidores, depoimentos dele e sobre ele”, detalha Henilton, anunciando que o vídeo deverá ser lançado por um selo carioca e distribuído nacionalmente.

   Em maio próximo, Nonato volta a viajar, desta vez para os Estados Unidos, onde ministrará um curso de violão clássico, no estado da Flórida. “Gosto de viajar pra fora, mas principalmente pelo Brasil. A receptividade dos shows dessa turnê até aqui foi muito boa. Estou muito satisfeito”, diz o violonista. Hoje, então, é não perder essa oportunidade de passear pelo baião, nas seis cordas de Nonato Luiz. (DM)

Diário do Nordeste)


Da sanfona ao violão

Gratidão à eterna poesia do sertão. Nonato Luiz presta homenagem aos parceiros Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em Baião Erudito, 27º disco de carreira. O violonista traz releituras da dupla e se apresenta em show gratuito hoje, no Teatro do Centro Cultural Dragão do Mar

Felipe Gurgel
Especial para O POVO

NONATO LUIZ: novo CD traz releituras dos clássicos de Luiz Gonzaga e Humberto Martins, com novos arranjos para o violão solo/DIVULGAÇÃO

   Impunha-se o violão. Ao colo do solista, o velho instrumento de seis cordas desvenda acordes e escalas em melodias auto-suficientes. Imponente. Fiel ao estilo solo instrumental, o violonista Nonato Luiz, 52, faz show gratuito hoje, a partir das 21 horas, no Teatro do Centro Cultural Dragão do Mar, em apresentação do novo CD Baião Erudito. O trabalho homenageia dois dos maiores mestres da música popular nordestina. Humberto Teixeira, poeta do Interior cearense, que teria feito 90 anos no último dia 5. E Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Parceiros, os dois compuseram ''Asa Branca'', ''Assum Preto'', entre outras canções que ganharam novos arranjos. Da velha sanfona ao violão.

   Baião Erudito, lançado em Curitiba em outubro passado, percorreu o Sul do País. ''Também fiz Florianópolis, Jaraguá do Sul em Santa Catarina. O público de lá é muito interessante. Eles têm outra cultura, uma concentração profunda no show'', revela Nonato. O apego ao cancioneiro popular vem datado. Quase sem querer. Nonato Luiz, natural de Lavras da Mangabeira, Interior do Ceará, não nega as referências e desde a infância está sob a influência do baião. Na época, meados de 1950, o estilo latejava no sertão nordestino.

   ''A obra deles já virou folclore. Luiz Gonzaga não sabia ler, fazia tudo intuitivo. Mas era altamente brasileiro, tinha uma sonoridade muito rica. E eu tentei pegar isso e transcrever para o erudito, refinando as músicas sem perder a essência. Você sabe que é 'Assum Preto', 'Asa Branca', eu fiz uma roupagem'', diz o violonista. Nonato gravara Luiz Gonzaga pela primeira vez em 1992. Gosto de Brasil traz uma versão para ''Suíte Nordestina''. ''Até então tocava muito, mas só em shows'', conta.

   Nonato Luiz interpreta Luiz Gonzaga, de 1994, já tecia reverências a Gonzagão. O formato dos arranjos porém, acompanhados por percussão e acordeon, era atípico para a performance do violonista. ''Quando você é solista, fica complicado tocar com outras pessoas. Eu não tinha muitas dificuldades nisso, até ficava à vontade. Mas neste trabalho agora queria fazer um CD realmente com a minha cara. Com o violão solo, porque enfim, eu estudei pra isso'', diz Nonato.


   No último mês de novembro, o violonista lançou Nonato Luiz & Antônio José Forte no Theatro José de Alencar. Para o dueto de violão e piano, está sendo planejada uma turnê pelo Brasil. Nonato Luiz apadrinha o vasto legado. Cauteloso, ele põe no colo sua discografia de mais de 40 anos de carreira. O músico despista preferências. ''Disco é como se fosse filho, cada trabalho eu sinto que tem uma importância. Teve aquele de versão dos Beatles, com uma repercussão grande lá fora. Esses dois mais recentes também estão vindo com muita força, é difícil destacar um''.

   Sozinho, Nonato fez e faz nome. A carreira internacional prevê shows no Exterior até 2008. Recentemente, o violonista regressou da Europa, onde se apresentou na Alemanha, Itália e Áustria. Pelo Brasil, Nonato Luiz foi um dos artistas selecionados para excursionar com o Projeto Pixinguinha, reativado em 2004. ''Foi interessantíssimo, fizemos a região Norte do País. Éramos eu, Zé Renato do Boca Livre, Mário Adner e Vírginia Rosa. O Felipe Baden Powell, filho do Baden, fez algumas participações, outros artistas também''.

   Da turnê atual, o primeiro DVD deverá sair em breve. As gravações estão programadas para o show que o violonista fará no próximo dia 24 de fevereiro, em local ainda a ser confirmado no Rio de Janeiro. ''Basicamente a espinha dorsal será o Baião Erudito, mas devo mostrar também um pouco do que estou compondo'', revela. O material editado para o vídeo sairá da edição de duas apresentações no dia. À tarde, para uma equipe técnica. À noite, com a participação do público.

   De pés ao solo, esse solista cearense hoje é mais Fortaleza. Vai longe por ofício. ''Já morei no Rio, mas hoje as malas estão aqui. Tenho que procurar qualidade de vida, então prefiro morar em Fortaleza. A gente está sempre trabalhando, viajando, mas se alguém quiser minha música, pode vir até a mim. Hoje os meios de comunicação têm esse acesso facilitado''.

NoOlhar.com.br)


Baião de imortais

Em seu 27º disco de carreira, Nonato Luiz interpreta o Rei do Baião Luiz Gonzaga e o cearense Humberto Teixeira

  
Nonato só. Baião Erudito traz o compositor como solista em performance instrumental. O trabalho, 27º disco de carreira, situa o violonista no formato que enfatiza toda sua trajetória. O reconhecimento no Exterior, mesmo a própria identidade como concertista, acontece a partir da música de Nonato Luiz sozinho ao violão. Nonato Luiz interpretando Luiz Gonzaga (1994) já trouxera releituras da obra do Rei do Baião em violão, percussão e acordeon. No novo disco, o violão 'resolve' sozinho.

   As semelhanças entre os dois trabalhos recaem na seleção de ''Juazeiro'', ''Algodão'', ''A Volta da Asa Branca'' e do clássico ''Asa Branca'' para o repertório. O projeto gráfico do CD recorre à temática rústica do sertão. No encarte, xilogravuras do artista João Pedro estão distribuídas com fotos em seqüência do Rei com o parceiro Humberto Teixeira; de Nonato ao lado de Denise Dummont (filha de Teixeira), entre outras. A combinação ilustrativa cabe bem à proposta saudosista.

   ''Um Outro Baião'' é a única inédita entre velhas canções. Composição do próprio violonista, a música é boa e soa leve no repertório, sem se sobrepor ao clima do restante das releituras. Nonato Luiz alcança uma sonoridade limpa com os novos arranjos. O violão adapta a sanfona de Luiz Gonzaga sem perder as referência originais. ''Benzim'' e ''Dono dos teus Olhos'' - melodias de Humberto Teixeira - desmistificam as limitações do poeta cearense, famoso como letrista.

   Dominguinhos aparece íntimo do baião. O sanfoneiro acrescenta o instrumento em ''Baião de Dois''. A faixa é a cara da ingenuidade do homem sertanejo, uma das melhores do CD. Uma participação interessante em dueto de belas melodias crescentes. Imersos na sutileza dos arranjos, o erudito e o popular enraizado 'namoram' de forma plena em músicas como o medley ''Juazeiro/ Assum Preto/ Algodão'' e ''Vida de Viajante''.

   Baião Erudito inova e surpreende. Nonato Luiz propõe arranjos sofisticados ao mesmo tempo que ainda sente a quentura do asfalto do sertão. Mais do que um bom trabalho em mais de 40 anos de carreira do cearense, o CD é um tributo competente e bem diferenciado de obras imortalizadas do baião. (FG)

Os Homenageados

LUIZ GONZAGA
Pernambucano de Exu, Luiz Gonzaga teria completado 92 anos há exatamente um mês. Os dotes da sanfona, pegou do pai. Trabalhava na roça e tocava em forrós em meados de 1920. De 1930 a 1939, rodou o Brasil todo até chegar ao Rio de Janeiro e sagrar sucesso. Em parceria com Humberto Teixeira, é autor de ‘‘Juazeiro’’, ‘‘Assum Preto’’, entre tantas canções que delinearam a essência do baião. Há 25 anos, partiu deste mundo, imortalizando ‘‘Asa Branca’’.


HUMBERTO TEIXEIRA
Nascido em 5 de janeiro de 1915, este cearense de Iguatu logo cresceu poeta. Aos 13, escreveu a primeira canção, ‘‘Miss Hermengarda’, tendo o Rio de Janeiro como destino dois anos depois. Em 45, conheceu Luiz Gonzaga e firmou a parceria que entraria para a história da música e da cultura popular nordestina. Seguiu carreira política e teve mais de 400 canções gravadas, falecendo na capital carioca há 35 anos.

NoOlhar.com.br)

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