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Viagem de luta numa jangada

Marco Morel

Diário dos jangadeiros, coordenado editorialmente pelo Museu do Ceará. Museu do Ceará/Secretaria da Cultura, 201páginas. R$ 40

   Jangada, livro e liberdade: esta é a combinação que perpassa as 201 páginas em grande formato do “Diário dos jangadeiros”, que traz novamente à tona a legendária saga de quatro pescadores pobres que, em pleno Estado Novo, fizeram a viagem marítima entre Fortaleza e Rio de Janeiro numa rústica embarcação para reivindicar melhores condições de vida ao ditador Getúlio Vargas. O gesto teve grande impacto e deu visibilidade àqueles trabalhadores do mar que, além de recebidos em triunfo ao longo de todo litoral e na capital do país, tornaram-se atores principais de um filme feito pelo então maior astro de Hollywood, Orson Welles.

   A novidade é que são publicados agora dois conjuntos de textos, até então inéditos e praticamente desconhecidos pelos estudiosos, referentes às percepções e visões de mundo dos protagonistas ao longo da famosa travessia. O livro contém, em primeiro lugar, o chamado “Diário dos jangadeiros”, que na verdade se constitui num volume que os navegadores carregaram durante o percurso e que ia sendo preenchido por autoridades locais, padres, outros jangadeiros, escritores, jornalistas, estudantes, sindicalistas, anônimos — e enriquecido com a colagem de recortes de jornais que narravam o episódio. Em outras palavras, registram as vozes e visões em torno da viagem e nos trazem os ecos do Brasil daqueles tempos.

   O segundo conjunto, embora fragmentado e incompleto, é talvez o mais impressionante na medida em que se constitui por outro diário, escrito pelos próprios jangadeiros, mas sobretudo por Manoel Olímpio Meira, apelidado Jacaré, líder do grupo e que narrou, com suas próprias letras, a epopéia que viviam. Estes originais desapareceram, mas foram parcialmente transcritos nas reportagens de Edmar Morel, jornalista dos Diários Associados que acompanhou e escreveu sobre a viagem de seus conterrâneos cearenses, documentação hoje guardada na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Inspiração em Nossa Senhora dos Navegantes

   Nestes testemunhos dos que seriam conhecidos como “heróis da plebe” aparecem visões críticas e autônomas diante daqueles que tentavam manipulá-los, bem como a clareza de que estavam ali lutando contra a miséria e a opressão em que viviam submetidos — embora levassem esta luta com habilidade e criatividade e conseguissem espaço e atenção de grande parte da sociedade, dos meios de comunicação e dos detentores do poder.

   Estes pescadores se diziam inspirados, ou motivados simbolicamente, por Nossa Senhora dos Navegantes e, ao mesmo tempo, por outra saga de jangadeiros cearenses, que em 1884 impediram o desembarque de cativos e assim anteciparam em quatro anos a abolição do trabalho escravo na província, tendo à frente o modesto Francisco do Nascimento, apelidado de Dragão do Mar, cuja jangada também foi recebida em triunfo na capital do Império. Neste entrelaçar de tempos e temas o mesmo Edmar Morel escreveria sobre outro movimento de marinheiros da “ralé”, que batizaria de Revolta da Chibata, causando polêmica. E o filme de Orson Welles se tornaria maldito e perdido por décadas, após a morte trágica, na praia carioca da Barra da Tijuca, de Jacaré. São histórias que às vezes permanecem entocadas nos desvãos da memória e do esquecimento.

Um símbolo mítico na cultura brasileira

   A jornada de 1941, agora transformada em livro, resulta num trabalho editorial historicamente rigoroso, com fac-símiles dos manuscritos, fotos panorâmicas da viagem e reproduções de jornais — tudo transcrito com engenho e arte. Ao repensar as políticas cultural e social da Era Vargas e suas relações com as camadas pobres, através deste episódio específico, a iniciativa da edição abre possibilidades para efetivação de novas políticas sociais e culturais.

   A jangada é um dos símbolos míticos marcantes na cultura brasileira: navega entre apropriações, vitórias e ocultações. Foi reforçada literariamente num romance aventureiro de Julio Verne, descrita etnograficamente por Câmara Cascudo, entoada por Dorival Caymmi, vendida como souvenir turístico e viu-se, sobretudo, forjada e utilizada durante séculos pelas mãos salgadas dos jangadeiros, que souberam fazer dela não apenas ganha-pão, mas instrumento de afirmação simbólica. Ainda que desaparecidos no tempo e no espaço, as falas e gestos dos jangadeiros reaparecem, desfraldando a vela e reafirmando que, mesmo em correntezas e ventos desfavoráveis, é possível buscar novos rumos em verdes mares.

MARCO MOREL é professor de História da Uerj e autor de “Frei Caneca: Entre Marília e a Pátria”

O Globo)

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