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Um dos idealizadores do movimento, o poeta, letrista e crítico Torquato Neto tem sua obra completa editada nos dois volumes de Torquatália JOÃO MARCOS COELHO Talismã secreto do tropicalismo, mais endeusado que realmente conhecido, Torquato Neto emerge agora, 32 anos após sua morte, em retrato de corpo inteiro, sem meias-verdades (ou mentiras?), nos dois volumes de sua obra completa. São 776 páginas. Sua história é curta, intensa, criativa e de trágico final, parecida com a de outro poeta, Mário Faustino, piauiense como ele e também morto prematuramente, num acidente de avião. Nascido em Teresina, em 1944, Torquato foi mandado para Salvador aos 16 anos. Aos 21, já morando no Rio de Janeiro, estreou como letrista de Gilberto Gil em ''Louvação'' e em seguida fez letra para a belíssima ''Pra Dizer Adeus'', de Edu Lobo. Em 1967, casou-se com a namorada Ana Maria (com quem teria um filho) e ajudou a instaurar o tropicalismo. A sensibilidade de Torquato entrou em ebulição com Glauber, Caetano, Gil, Capinam, culminando no disco-manifesto Tropicália. Torquato, um dos artífices do movimento, dividia-se entre o sucesso e os dramas pessoais. Depois de quatro internações por alcoolismo, encontrou o paraíso na amizade e nas viagens que fez com o artista plástico Hélio Oiticica, no eixo Londres-Paris, em 1969. De volta ao Rio, internou-se voluntariamente num sanatório por dois meses. O sufoco interno culminou na manhã de 10 de novembro de 1972, dia seguinte ao seu aniversário de 28 anos, quando suicidou-se abrindo o gás (leia o bilhete de despedida). Foi pensando na morte do amigo que Caetano Veloso escreveu a bela e triste ''Cajuína'', incluída no disco Cinema Transcendental.
Torquatália é o título épico dos dois volumes organizados pelo jornalista Paulo Roberto Pires. Oferece, no primeiro tomo, Do Lado de Dentro, poemas inéditos da adolescência, manifestos tropicalistas, um cancioneiro (incluindo algumas parcerias póstumas) e escritos sobre cinema. Mas o ponto alto é a correspondência com Oiticica. Em pouco mais de 80 páginas, Torquato, o mais bem munido culturalmente dentre os tropicalistas, roía a dor-de-cotovelo de não estar na Europa, de ter de chafurdar neste país onde a ditadura militar o levava a escrever ''Ai, meu Deus, a cultura brasileira, como é chata, murrinha, oficial''. Curtira demais as andanças pelo exterior, não se adaptava mais à geléia geral nativa. ''Vá a Nova York ou a qualquer lugar onde se vejam as coisas; invista em informação, viaje, veja, fique sabendo. Consulte seu agente de viagem. É o jeito.'' O segundo volume reproduz no
título Geléia Geral o nome famoso de sua coluna para o jornal
Última Hora, publicada entre 1971 e 1972. Traz também, pela primeira vez
em livro, sua coluna de música popular no Jornal dos Sports, editada
nos anos de 1967 e 1968. Parteiro da tropicália, Torquato descreve o
movimento como ''assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode
dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau
gosto'', em trecho de Tropicalismo para Principiantes. Agudo,
decreta, no roteiro do malogrado programa de televisão Vida, Paixão e
Banana do Tropicalismo, que o manifesto ''é uma fase crítica que se
esgota quando cumpre o seu papel''. Criador e criatura exauriam-se.
Frases pinçadas de suas derradeiras colunas mostram o rumo que o poeta tomava: ''Vivo tranqüilamente as horas do fim'' e ''Apocalipse, só se for agora'', escrevia. Aos leitores, reservava um escrachado ''Alô, idiotas'', ou chamava-os de ''bobões''. Ironizava: ''Não acredite em nada do que eu digo''. E alertava: ''Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (...). Quem não se arrisca não pode berrar''. No alcoolismo, o texto aparentemente descuidado na verdade escondia enorme esmero, em tudo Torquato se parece com Lima Barreto, que, internado no manicômio, despediu-se assim em O Cemitério dos Vivos: ''Ah! A Literatura me mata ou me dá o que eu peço dela''. Torquato foi mais direto. Escreveu: ''Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão''.
(© Revista ÉPOCA) |
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