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Mário de Andrade |
João Pimentel
Ao refazer com sua equipe parte do
trajeto percorrido, em 1938, pela histórica Missão de Pesquisas Folclóricas,
enviada por Mário de Andrade ao Nordeste, o músico e professor de
etnomusicologia da Universidade Federal de Pernambuco Carlos Sandroni não
quis apenar repetir a viagem. Mais do que isso, que já seria uma experiência
bem interessante, ele preferiu traçar um paralelo com o que foi observado e
registrado pela missão de 67 anos atrás. Além das transformações culturais,
Sandroni se encantou pelo material humano encontrado em regiões como
Arcoverde e Tacaratu, em Pernambuco, e Areia e Aparecida, na Paraíba.
Orçamento previu verba para pesquisadores locais
O trabalho realizado em 2003 e 2004,
lançado agora no CD duplo “Responde a roda outra vez” (patrocinado pela
Petrobras, com apoio da Fundação Vitae), também tem um diferencial
fundamental com relação ao anterior. No orçamento inicial do projeto já
estava incluída uma verba para pesquisadores inseridos em instituições
locais para que, de alguma forma, haja um intercâmbio contínuo com estas
populações.
— Não que não houvesse essa
preocupação na missão. Mas, naquela época, Rio e São Paulo ainda criavam
suas primeiras universidades. No Nordeste não havia muitos cursos. Quanto
mais as facilidades de hoje. Apesar de parecer precário, eles foram com o
que de melhor havia para registrar as manifestações que encontraram.
Sandroni e um grupo de pesquisadores
se embrenharam no interior em busca de música e se por um lado encontraram
manifestações praticamente intactas, por outro descobriram que muita coisa
se perdeu com o tempo:
— É curioso que as coisas ligadas aos
ofícios foram as que mais se perderam. Há registros de cantos de
carregadores de piano, de 1938, que na época só existiam por conta da
tradição oral, e que ninguém se lembra mais — conta. — O progresso fez com
que as profissões mudassem. Os cantos das fábricas de farinha, por exemplo,
foram rareando conforme surgiram os barulhos das máquinas.
As próprias regiões se modificaram. A
distância entre Recife e Tacaratu, por exemplo, percorrida por trem e
caminhão pela equipe de Mário de Andrade, hoje é percorrida em estrada
asfaltada e, por conta da construção da Barragem de Itaparica, ao subir a
serra vê-se um mar pelo retrovisor.
A cidadezinha, por sinal, é o grande
xodó de Sandroni, que reencontrou ali uma sobrevivente. Dona Senhorinha
Freire, informante número 490 da primeira missão, aos 86 anos, canta os
mesmos versos de “Oh, roseira” que interpretou aos 20 anos.
Pouca gente sabia da primeira missão no trajeto
Para realizar o trabalho, além de
ouvir boa parte das gravações da primeira viagem, Carlos Sandroni contou com
a ajuda de quatro pesquisadores, Marcos e Maria Ignez Ayala, na Paraíba, e
Gustavo Villas e Cristina Barbosa, em Pernambuco. Eles fizeram um trabalho
de levantamento de fontes nos locais, o que funcionou como uma produção
fundamental para a realização da pesquisa.
Para se ter uma idéia das
dificuldades, em Tacaratu ninguém sabia sequer que por lá havia passado um
grupo que tinha gravado, filmado e fotografado seus habitantes. Por sorte,
ao perguntarem por um tal Raimundo Cunha, conheceram o seu filho, Domingos,
que se emocionou e dançou ao ouvir a voz do pai:
— Foi uma coincidência. Não
esperávamos encontrar ninguém. Ele não tinha a menor idéia da gravação.
(© O Globo) |