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Coquistas remanescentes da manifestação popular que ocorre há mais de
um século em Olinda têm suas músicas gravadas em CD O Grande Recife é uma região que goza de um privilégio diferente de outras metrópoles: em menos de um hora, a pessoa pode ir de canto a canto. Tudo é perto. Mesmo assim, às vezes, os próprios moradores se surpreendem ao descobrir localidades que nunca viram antes. Um bom exemplo disso pode ser a comunidade do Amaro Branco. Incrustada na descida da Sé (Sítio Histórico de Olinda) que dá para as proximidades da Hospital Tricentenário, mantém uma tradição de mestres de coco que já dura mais de um século. Tradição que, só agora, deve romper os limites de seu reduto original com o lançamento do álbum Coco do Amaro Branco, em fase de finalização. Em Amaro Branco, coquistas como Ana Lúcia, 60 anos, Ferrugem, 54, e Mestre Dédo, 59, que integram a coletânea, mantêm a tradição de mestres do passado como Dona Jovelina, Maria Belém, Severino Nunes, Zé Aruá e Dona Neuza. Herança que os mestres atuais pretendem repassar para alguns poucos jovens que se interessam em manter vivo esse tipo de manifestação. O disco, projeto dos produtores culturais Pedro Rampazzo e Isa Melo aprovado pelo Fundo de Cultura do Estado (Funcultura), depende agora apenas de ser masterizado e prensado para poder chegar às mãos do público. Mas, pelo material já apresentado, apenas mixado, já dá para perceber que se trata de um trabalho fiel à originalidade da música do local. Pronto, o disco será uma das poucas oportunidades de ouvir o coco de Amaro Branco, visto que, ao vivo, só é possível conferir a manifestação uma vez por ano. Transferida de maio para junho, o Acorda Povo tem início no Dia de Santo Antônio (13) e vai até a véspera do Dia de São Pedro (28). “A gente reza 13 dias e, no fim, faz o coco”, explica a organizadora Ana Lúcia, que, bastante envolvida com a cultura popular do bairro, ainda mantém, há 39 anos, um pastoril religioso com as crianças da vizinhança. Iniciada nas rodas-de-coco de Amaro Branco ainda aos três anos de idade, Ana Lúcia começou a cantar “com responsabilidade” – como ela mesma diz – aos 17 anos, discípula de Dona Jovelina. Perguntada por que as festas se limitam a uma única edição anual, ela atribui ao fato de os mestres estarem morrendo e à comercialização e descaracterização do ritmo. “Coco antigamente era tradição porque era de graça. Era o candeeiro aceso e a gente dançando até o sol raiar”, conta. O ápice da festa, de acordo com a coquista, ocorria quando os fiéis da comunidade saíam em procissão carregando um andor até um rio no bairro de Casa Caiada onde é representado o batismo de Jesus Cristo no Rio Jordão. Cada participante tinha que dar três mergulhos. Depois, antes de retornar, comia e bebia à vontade. “Eu nunca pensei que o coco fosse ter tanto valor”, confessa Ana Lúcia, que possui sete filhos, dez netos (duas gêmeas já iniciadas no ritmo) e três bisnetos. “Mas tem gente subindo no coco e não sabe nem para onde vai”, critica. Para ela, os mestres autênticos morrem ‘de esmola’ enquanto os demais ficam ricos. Marceneiro, carpinteiro e marcador, e pai de quatro filhos e três netos, Ferrugem aponta ainda como um problema interno entre os coquistas a grande rivalidade. “Se um cara me desafiar, eu vou testar”, afirma, dizendo que não leva desaforo para casa. Caçula dos mestres remanescentes, além de cantar e compor, como Ana Lúcia, o coquista também toca pandeiro e é reconhecido pela facilidade de improvisar sobre os motes. (© JC Online) Intérpretes superam dificuldades sociais Dos sete aos 17 anos de idade, Ferrugem foi discípulo de Mestre Farias, Valdemar e Zé Pretinho. Já adolescente, começou a cantar “com responsabilidade”, como diz a colega Ana Lúcia, sendo posto à prova com oito intérpretes mais experientes.Após quase 40 anos, Ferrugem deixou Amaro Branco para morar no bairro dos Coelhos, no Recife, apenas para cuidar de uma casa herdada dos tios. Mas está sempre de volta à comunidade olindense quando o assunto é o coco. Nem a paralisia nas pernas, causada ao contrair o vírus HTLV1, em abril de 1980, o impede de participar das rodas. Bastante animado, durante a entrevista Ferrugem não parava de instigar Ana Lúcia a mostrar o repertório, acompanhados de Margarida Sambão, que canta há vinte anos com a amiga veterana. Ele, antes de tocar, benzia-se, ela, mesma rouca – “Cantei muito domingo”, explica –, fazia questão de diferenciar os estilos do ritmo: “Meu coco é de rebate, que enche e todo mundo rebate (responde)”, explica. “O de embolada é bom, porque descansa o pessoal. Mas pouca gente sabe.” E tome coco. O terceiro nome a compor o álbum Coco do Amaro Branco seria Pombo Roxo. Porém, na véspera do início dos ensaios para a gravação, o mestre adoeceu sem previsão de alta. Para substitui-lo, a produção correu atrás de Mestre Dédo, desde o início do projeto descartado por ser difícil de encontrar. Também percussionista (de tambor) e considerado o melhor batedor de coco do bairro, Dédo é pescador em tempo integral. Em um mês, ele passa cerca de vinte dias no mar. Quando vem à terra, é só para comemorar o sucesso da pescaria, algumas vezes cantando coco. Num desses retornos de Mestre Dédo à terra firme, a produção o convenceu a ensaiar e gravar suas canções. Tanto para Ferrugem quanto para Mestre Dédo, foi montado um coro formado por Isa Melo, Sílvia Geórgia, Lígia Verner e Paloma Granjeiro. Ana Lúcia canta acompanhada de Margarida Sambão, Vera Cristina e das filhas Totoca e Donda. Além das vozes, o trio principal conta com o apoio da percussão de Viola (tambor, caixa, congas, djembê e tamanco), Luciano Mamão (pandeiro), Bacalhau (pandeiro, triângulo e tamanco), Isa Melo (ganzá), e Pedro Rampazzo (ganzá, caxixi e tamanco). “A gente quis registrar o que tem de mais expressivo hoje”, explica o também produtor Rampazzo. “Dos antigos, não ficou nada”, lamenta. Ao todo, são 12 canções, cinco com Ana Lúcia, cinco com Ferrugem e duas com Mestre Dédo. O disco conta ainda com uma faixa multimídia que registra a produção da obra. Gravado no estúdio Fábrica, o CD está sendo masterizado no Classic Master, em São Paulo, e deve ser lançado em abril ou maio próximos, provavelmente com um show na praça central de Amaro Branco. Serão prensadas mil cópias, seiscentas delas, segundo a produção, entregue aos mestres. (© JC Online) O coco centenário
18/09/04 (© Tribuna do Norte) |
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