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Para lembrar o coco de Amaro Branco

O coco também é representado através da dança
Áudio
» Correndo Fazendo Vento - Mestre Dédo
» Nossa Senhora - Ferrugem
» O Homem é Rei do Império - Ana Lúcia
 

Coquistas remanescentes da manifestação popular que ocorre há mais de um século em Olinda têm suas músicas gravadas em CD

MARCOS TOLEDO

   O Grande Recife é uma região que goza de um privilégio diferente de outras metrópoles: em menos de um hora, a pessoa pode ir de canto a canto. Tudo é perto. Mesmo assim, às vezes, os próprios moradores se surpreendem ao descobrir localidades que nunca viram antes. Um bom exemplo disso pode ser a comunidade do Amaro Branco. Incrustada na descida da Sé (Sítio Histórico de Olinda) que dá para as proximidades da Hospital Tricentenário, mantém uma tradição de mestres de coco que já dura mais de um século. Tradição que, só agora, deve romper os limites de seu reduto original com o lançamento do álbum Coco do Amaro Branco, em fase de finalização.

   Em Amaro Branco, coquistas como Ana Lúcia, 60 anos, Ferrugem, 54, e Mestre Dédo, 59, que integram a coletânea, mantêm a tradição de mestres do passado como Dona Jovelina, Maria Belém, Severino Nunes, Zé Aruá e Dona Neuza. Herança que os mestres atuais pretendem repassar para alguns poucos jovens que se interessam em manter vivo esse tipo de manifestação.

   O disco, projeto dos produtores culturais Pedro Rampazzo e Isa Melo aprovado pelo Fundo de Cultura do Estado (Funcultura), depende agora apenas de ser masterizado e prensado para poder chegar às mãos do público. Mas, pelo material já apresentado, apenas mixado, já dá para perceber que se trata de um trabalho fiel à originalidade da música do local.

   Pronto, o disco será uma das poucas oportunidades de ouvir o coco de Amaro Branco, visto que, ao vivo, só é possível conferir a manifestação uma vez por ano. Transferida de maio para junho, o Acorda Povo tem início no Dia de Santo Antônio (13) e vai até a véspera do Dia de São Pedro (28). “A gente reza 13 dias e, no fim, faz o coco”, explica a organizadora Ana Lúcia, que, bastante envolvida com a cultura popular do bairro, ainda mantém, há 39 anos, um pastoril religioso com as crianças da vizinhança.

   Iniciada nas rodas-de-coco de Amaro Branco ainda aos três anos de idade, Ana Lúcia começou a cantar “com responsabilidade” – como ela mesma diz – aos 17 anos, discípula de Dona Jovelina. Perguntada por que as festas se limitam a uma única edição anual, ela atribui ao fato de os mestres estarem morrendo e à comercialização e descaracterização do ritmo. “Coco antigamente era tradição porque era de graça. Era o candeeiro aceso e a gente dançando até o sol raiar”, conta.

   O ápice da festa, de acordo com a coquista, ocorria quando os fiéis da comunidade saíam em procissão carregando um andor até um rio no bairro de Casa Caiada onde é representado o batismo de Jesus Cristo no Rio Jordão. Cada participante tinha que dar três mergulhos. Depois, antes de retornar, comia e bebia à vontade.

   “Eu nunca pensei que o coco fosse ter tanto valor”, confessa Ana Lúcia, que possui sete filhos, dez netos (duas gêmeas já iniciadas no ritmo) e três bisnetos. “Mas tem gente subindo no coco e não sabe nem para onde vai”, critica. Para ela, os mestres autênticos morrem ‘de esmola’ enquanto os demais ficam ricos.

   Marceneiro, carpinteiro e marcador, e pai de quatro filhos e três netos, Ferrugem aponta ainda como um problema interno entre os coquistas a grande rivalidade. “Se um cara me desafiar, eu vou testar”, afirma, dizendo que não leva desaforo para casa. Caçula dos mestres remanescentes, além de cantar e compor, como Ana Lúcia, o coquista também toca pandeiro e é reconhecido pela facilidade de improvisar sobre os motes.

JC Online)


Intérpretes superam dificuldades sociais

   Dos sete aos 17 anos de idade, Ferrugem foi discípulo de Mestre Farias, Valdemar e Zé Pretinho. Já adolescente, começou a cantar “com responsabilidade”, como diz a colega Ana Lúcia, sendo posto à prova com oito intérpretes mais experientes.

   Após quase 40 anos, Ferrugem deixou Amaro Branco para morar no bairro dos Coelhos, no Recife, apenas para cuidar de uma casa herdada dos tios. Mas está sempre de volta à comunidade olindense quando o assunto é o coco. Nem a paralisia nas pernas, causada ao contrair o vírus HTLV1, em abril de 1980, o impede de participar das rodas.

   Bastante animado, durante a entrevista Ferrugem não parava de instigar Ana Lúcia a mostrar o repertório, acompanhados de Margarida Sambão, que canta há vinte anos com a amiga veterana. Ele, antes de tocar, benzia-se, ela, mesma rouca – “Cantei muito domingo”, explica –, fazia questão de diferenciar os estilos do ritmo: “Meu coco é de rebate, que enche e todo mundo rebate (responde)”, explica. “O de embolada é bom, porque descansa o pessoal. Mas pouca gente sabe.” E tome coco.

   O terceiro nome a compor o álbum Coco do Amaro Branco seria Pombo Roxo. Porém, na véspera do início dos ensaios para a gravação, o mestre adoeceu sem previsão de alta. Para substitui-lo, a produção correu atrás de Mestre Dédo, desde o início do projeto descartado por ser difícil de encontrar.

   Também percussionista (de tambor) e considerado o melhor batedor de coco do bairro, Dédo é pescador em tempo integral. Em um mês, ele passa cerca de vinte dias no mar. Quando vem à terra, é só para comemorar o sucesso da pescaria, algumas vezes cantando coco. Num desses retornos de Mestre Dédo à terra firme, a produção o convenceu a ensaiar e gravar suas canções.

   Tanto para Ferrugem quanto para Mestre Dédo, foi montado um coro formado por Isa Melo, Sílvia Geórgia, Lígia Verner e Paloma Granjeiro. Ana Lúcia canta acompanhada de Margarida Sambão, Vera Cristina e das filhas Totoca e Donda. Além das vozes, o trio principal conta com o apoio da percussão de Viola (tambor, caixa, congas, djembê e tamanco), Luciano Mamão (pandeiro), Bacalhau (pandeiro, triângulo e tamanco), Isa Melo (ganzá), e Pedro Rampazzo (ganzá, caxixi e tamanco).

   “A gente quis registrar o que tem de mais expressivo hoje”, explica o também produtor Rampazzo. “Dos antigos, não ficou nada”, lamenta. Ao todo, são 12 canções, cinco com Ana Lúcia, cinco com Ferrugem e duas com Mestre Dédo. O disco conta ainda com uma faixa multimídia que registra a produção da obra.

   Gravado no estúdio Fábrica, o CD está sendo masterizado no Classic Master, em São Paulo, e deve ser lançado em abril ou maio próximos, provavelmente com um show na praça central de Amaro Branco. Serão prensadas mil cópias, seiscentas delas, segundo a produção, entregue aos mestres.

JC Online)


O coco centenário
Divulgação
À ESPERA - Verba para reforma da casa do coquista ainda não foi liberada pela Fundação José Augusto

18/09/04

Yuno Silva - Repórter

   Assim como Elvis Presley está para o rock’n roll, Chico Antônio está para o coco de embolada. Tal comparação pode até parecer desnecessária, mas serve para se ter uma noção de como Chico Antônio é importante para a formação da cultura musical brasileira. Nesta segunda-feira, 20 de setembro, comemora-se o centenário de nascimento do maior ícone desse gênero tipicamente nordestino. Embolador, cantador e coquista, ou coqueiro (?) como dizem alguns, Chico Antônio começou sua jornada em 1904, na cidade de Pedro Velho, interior do RN, e aos 12 anos, contrariando a vontade do pai que não via muito futuro na cantoria do filho, tomou gosto pela coisa e seguiu trilhando o caminho das emboladas. Morreu em 1993, aos 89 anos. Nesta segunda-feira, não há nenhuma programação dedicada ao artista popular.

Reforma parada

   “Hoje em dia quase não temos mais emboladores no RN”, afirma Dácio Galvão, Coordenador do Centro de Documentação Eloy de Souza, vinculado a Fundação José Augusto. Dácio está à frente de um projeto que prevê a criação de um memorial na casa que pertenceu ao coquista em Pedro Velho. “O lugar já foi tombado pela FJA, mas ainda precisamos construir uma nova casa para o filho de Chico Antônio que ainda mora por lá. Antes disso não podemos começar a restauração e implantação do memorial”, disse. Segundo Dácio, a verba de 35 mil reais para construir a nova casa está só aguardando a determinação da Fundação. No memorial estarão expostos móveis, objetos pessoais, livros que Mário cita o cantador e o filme de Eduardo Escorel.

   Para lembrar Chico Antônio, Dácio adiantou que a próxima edição do Projeto Cantorias & Cantorias, a ser realizada no Solar João Galvão dia 7/10, irá contar com a presença da dupla Chico e Naza do Pandeiro, de 19 e 16 anos respectivamente. “Até dezembro, a programação do Projeto irá contemplar o estilo imortalizado por Chico Antônio”, afirmou. Vale registrar que a entrada é gratuita.

Moderno

   Descoberto em 1929, pelo pesquisador, poeta e escritor Mário de Andrade, as emboladas de Chico Antônio encantaram o modernista que transformou o encontro em livro - “O turista aprendiz”. Pouco depois, o potiguar seguiu para o Rio de Janeiro em busca de um coco ao sol, que dizer, de um lugar ao sol. Sem muitos recursos e pouco adaptado, retornou a Pedro Velho e voltou a trabalhar na roça e a cantar cocos nos finais de semana.

   Conhecido e conceituado na região Nordeste, Chico Antônio foi esquecido pelo restante do País ao longo de quase 5 décadas, até ser ‘redescoberto em 1979 pelo pesquisador e folclorista potiguar Deífilo Gurgel. O folclorista encontrou o personagem de Mário de Andrade a partir de depoimentos que relatavam a existência de um lendário cantador que cortava o interior nordestino com suas emboladas. Três anos depois, grava seu primeiro disco, registrando nove composições, todas de sua autoria e do pareciro Paulírio.

   Entre esses registros, estava a música “Usina (tango no mango)”, regravada em 1995 pelos pernambucanos do finado grupo Mestre Ambrósio. Outro pernambucano que também lembrou do embolador e Chico e prestou sua homenagem foi o versátil Antônio Nóbrega, que dedicou seu primeiro disco “Na pancada do ganzá” a memória de Chico Antônio e Mário de Andrade. Depois disso lançou o CD “No balanço do ganzá” (1999), pela Funarte.

   A vida de Chico também virou filme. No documentário “Chico Antônio, o Herói com Caráter”, de Eduardo Escorel, produzido em 1983, as imagens revelam um homem forte e decidido. Uma das passagens mostra Chico entregando a Mário um ganzá que acompanhava suas músicas.

Tribuna do Norte)

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