Notícias
Tempo de Alceu é cinematográfico

Alceu Valença
Áudio
» Vampira
» Samba do Tempo
» Embolada do Tempo

Emboladas, sambas, xotes e frevos. Este é o universo de Alceu Valença contido no repertório de um disco que nasceu de um roteiro de um filme

JOSÉ TELES

   Um disco inspirado num filme que ainda não foi rodado e que tem o tempo como leit motiv. Alceu Valença está de volta com o primeiro CD de inéditas em cinco anos. Na Embolada do Tempo (Indie Records) é um trabalho conceitual surgido a partir de um roteiro escrito por ele para um filme que pretende rodar, ainda este ano, com o paraibano Walter Carvalho: “É a história de um artista cantor que escreve um livro e não lança com medo da pirataria. Ele parte numa excursão, tem um show marcado na cidade dele, lá os componentes da trupe que acompanha o artista encontram um circo, no qual estão encenando o livro que ele escreveu. E aí vem toda uma trama dentro da trama”, antecipa Alceu, em conversa na ampla sala da sua casa, na Rua São Bento em Olinda. Cordel Virtual é o título escolhido: “Porque ele vai do cordel até a linguagem da internet. O Cordel em si vai de 1936 até 1968, e a outra história é atual, contemporânea”, complementa. O filme será rodado em Pernambuco, e já está, segundo Alceu Valença, com 20% dos recursos captados – o custo previsto é de R$ 6 milhões.

   É um musical com os diversos estilos, ritmos e gêneros cantados pelos brasileiros de 1936, do maxixe à embolada eletrônica. Enquanto discorre, inquieto e entusiasmado sobre a história, que resume como “uma ode à cultura brasileira”, Alceu diz que está constantemente pensando o Brasil e discutindo o que chama de paradigma anglo-saxão, o vício cultural de se copiar a cultura importada: “Por que Pernambuco não é o país da embolada, e tem que ser o país do hip-hop? Estou colocando como política cultural, nada contra a existência disto, mas é porque se acha que fica mais parecido com gente quando a gente está parecido com eles”.

   A longa catilinária contra a absorção de valores importados e não reprocessados acaba tornando-se um exemplo da relatividade do tempo. Só aí é que Alceu Valença começa a entrar na gênese de A Embolada do Tempo, o CD: “Há anos que eu vinha pensando num conceito, que depois vi que não era meu. O conceito do tempo 3, vendo uma entrevista com o Mestre de Apipucos, Gilberto Freyre, ele fala em tempo tríplice. A gente não pode viver em apenas um tempo. Vive o tempo de agora, mas tem o referencial passado. Você é o produto do seu passado, mais o presente, e você projeta um salto no futuro. Este conceito serve para a arte, para a música e a própria vida”, filosofa.

   Dentro desta conceituação, Alceu conta que começou a escrever o roteiro, e A Embolada do Tempo é uma das músicas pinçadas dele, que faz parte da abertura do filme: “Já que o tempo não tem lugar fixo e eu queria fazer um disco de inéditas, então qualquer música de qualquer tempo é válida”, explica.

   Ele revela que vasculhou o seu baú virtual, com cerca de 300 canções (registra em papel apenas as letras, as melodias guarda na memória), e veio de lá com um punhado delas.

   A mais antiga chama-se Noite Vazia: “É de 1970, feita antes de Geraldo Azevedo. A gente gravou um disco em 1972 e essa acabou não entrando. Quando comecei a pensar neste disco novo lembrei dela e tirei da gaveta. Já Ai de Ti Copacabana foi feita há seis anos, homenageia Rubem Braga – que tem uma crônica com este título – João de Barro e Dorival Caymmi. Foi inspirada numa reunião de que participei para uma matéria para o Jornal do Brasil, estavam também Tom Jobim e outros artistas. Fomos a uma sessão de fotos numa colônia de pescadores perto do forte de Copacabana, então senti falta de Rubem Braga. Ele me livrou de muito esporro do meu pai. Quando eu chegava tarde em casa, ia logo recitado de cor uma crônica de Rubem e escapava do carão. A música homenageia também Caymmi e Braguinha, por causa de Pastorinhas, que eu adoro.”

   O samba do disco, Samba do tempo, é outra pinçada do roteiro: “O samba está perto do coco, como diz Jackson do Pandeiro, mas eu tinha problema em fazer samba. Aí um dia fiz um samba e cantei a primeira vez com Seu Jorge”.

   A reverência ao Rio, cidade que o abrigou desde 1970, tem como contraponto Dona de 7 Colinas, mais uma celebração a sua outra cidade de coração, Olinda, canção emendada com Vampira, um frevo rasgado, de J. Michiles, única do repertório não assinada por Alceu Valença.

JC Online)


Os anos passam, mas as melodias continuam belas

   Em Na Embolada do Tempo os ponteiros giram entre a fase do Alceu Valença inventor do forró-rock ao artífice das canções líricas de 7 Desejos. Não por acaso Paulo Rafael e Guto Graça Mello, que colaboram nessa arquitetura, estão na produção deste disco. Não fossem os timbres eletrônicos na faixa-título, aberta com uma um riff de berimbau programado por Márcio Lomiranda, Na Embolada do Tempo poderia estar num dos discos clássicos do Alceu Valença dos anos 70, quando era mais palpável a sua influência de coquistas e cantadores de viola. Já no xote Depois do amor (também do roteiro de Cordel Virtual) faz-se uma viagem proustiana no tempo, refazendo-se de propósito o megassucesso Como dois animais.

   Nas 12 faixas do CD, Alceu Valença ratifica-se como construtor de belas melodias que grudam no ouvido, dentro de uma tradição nordestina/mourisca (o melhor exemplo é Romance da moreninha, cantiga de gesta, parceria com o ator Emanoel Cavalcanti), da qual se desvia em Samba do tempo, um samba de quadra interpretado em compasso de (quase) bossa nova, e no fecho do disco, o frevo-canção Vampira, tão contagiante quanto Diabo louro, não por acaso também de J. Michiles.

JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2005

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia