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SCHNEIDER CARPEGGIANI
Da primeira vez que se candidatou à Academia
Pernambucana de Letras, Raimundo Carrero perdeu para Rostand Paraíso. A
derrota causou uma reação do tipo ‘nunca mais’. Ano passado, no entanto,
ele pensou melhor e sem concorrência recebeu votação esmagadora desta vez:
apenas um voto em branco. Hoje à noite, ele veste o fardão da imortalidade
local e dá início às comemorações de seus 30 anos de literatura. Antes,
porém, conversou com o JC e revelou por que o amor não tem bons
sentimentos. Leia a seguir os principais momentos da entrevista. RAIMUNDO CARRERO – O que deve ser natural na vida das pessoas: contradição. No momento em que fiquei zangado e magoado, minha reação foi natural. Mas como não sou um homem linear – graças a Deus -, fiz avaliações. Naquela eleição não avaliei os riscos, achava que a minha obra era suficiente. Primeiro fui eleito para a Academia de Artes e Letras, por indicação do meu amigo Moisés da Paixão, que me ensinou música em Salgueiro. Depois fui também convencido a me candidatar à APL, por meu amigo Mário Márcio de Almeida Santos. Mário soube ser estrategista. Pouco a pouco fui recebendo apoios fundamentais. Não sofri nenhuma resistência, não tive um único voto em branco.
JC – Quais são as primeiras lembranças da sua primeira eleição para a Academia? RC – Minha ingenuidade. Fui até o fim por insistência, por determinação. E por fidelidade ao grupo que me lançou. Eu não iria ao grupo para dizer: Desculpem-me, eu vou cair fora. Isso nunca vai acontecer comigo. Quando estou escrevendo as primeiras versões de um romance, mesmo sabendo que está errado, vou até o fim. Para aprender com os erros, para descobrir e revelar os meus defeitos. Escritor sem defeitos não é escritor. JC – Nos últimos anos, seu nome tem recebido cada vez mais notoriedade. Você acha que o público se adequou a Carrero, ou Carrero conseguiu chegar mais próximo do público? RC – A minha trajetória pode explicar isso muito bem. Desde que comecei a publicar considerei que o leitor era prioritário. E os pernambucanos sempre me deram uma resposta incrível. Além disso, desde a década de 80 meus livros começaram a ser adotados. Tenho debates com os alunos, não falto a um só. Atendo com carinho. Os meninos cresceram, se transformaram em grandes leitores. Recentemente, o Ceará comprou quase uma edição inteira de Sombra Severa. A Secretaria de Cultura do Paraná comprou uma edição inteira de Somos Pedras Que Se Consomem para distribuir nas escolas. O mesmo aconteceu com a Secretaria de Cultura de São Paulo. As Sombrias Ruínas da Alma ganhou o Jabuti, o maior prêmio da literatura brasileira. Tudo isso mostra que o leitor e o crítico estão sempre próximos do que produzo.
JC – Quais você acha que são as principais características da sua literatura quE mais chamam a atenção do público leitor? RC - As histórias e as frases. Todas as pessoas que conversam comigo dizem de cara: você tem frases muito fortes, parece que está esmurrando a gente, mesmo quando é leve. As histórias são sempre simples, embora cheias de tensão. E as pessoas estão certas, escrevo como frases que me impressionam e me surpreendem. Se não for assim, é melhor parar. Se um escritor não pode se surpreender com suas próprias frases, com suas próprias histórias, como vai surpreender o leitor? O leitor precisa ficar hipnotizado. Trabalho isso com muito cuidado, sou um escritor artesanal que pode trabalhar um livro durante muitos anos. Em geral faço três ou quatro versões de um só romance. Procuro o lugar certo para atingir o personagem, para deixá-lo sempre em nocaute. Escolho nomes, frases, parágrafos. Meu editor, Samuel Leon, da Iluminuras, me diz sempre: você é o rei do título.
JC – Vocês recebe muito material de novos escritores? Quais os erros e os acertos que você observa nessa nova turma? RC – Conheço alguns. Agora mesmo fiz uma oficina no Itaú Cultural, em São Paulo, e descobri bons textos. É verdade que conversamos pouco, mas há uma geração aí entre vinte e trinta anos que escreve com qualidade. E entre trinta e quarenta que atinge um ótimo estágio. A maior qualidade é a ousadia nos temas. E um único erro: a idade. Ficcionista quanto mais maduro melhor.
JC – Seu último projeto foi uma coletânea de contos dos alunos das suas oficinas literárias. Como é ensinar alguém a escrever sem interferir diretamente no estilo da pessoa? RC – Meu método na oficina é fazer com que o escritor descubra a sua voz narrativa, e tenho o maior respeito por ela. De forma que não posso dizer: está errado. É preciso prudência. Não se pode dizer a um iniciante – em qualquer idade – que ele está errado. Nunca, jamais, em tempo alguma. Vamos conversar. Debater. Apresento algumas sugestões e vou logo dizendo: são sugestões, faça o favor de não acompanhar o meu texto. O texto, depois, é lido na classe. Não existe texto ruim, às vezes está mal distribuído.
JC - Você está para publicar um novo romance, O Amor Não Tem Bons Sentimentos. O título é provocador, de onde você tirou essa idéia de que o amor não tem bons sentimentos? RC – Há dois anos comecei a ficar muito preocupado com as relações familiares no Brasil. Algo terrível. Filho matando pai, pai matando filho, estupros, agressões. Fiquei preocupado. Mas ingênuo: como é que as pessoas da mesma família estão se matando dentro de casa, meu Deus? Talvez porque sou filho de uma família muito equilibrada, me bateu um aperreio, não podia acreditar. Filho, então, meu Deus, é uma coisa tão bonita, tão afetuosa. Aí conheci um senhor que tinha problemas com o filho. Dias depois soube que o filho matou ele a facadas. Passou algum tempo, e me disseram que o filho se suicidara. Os jornais publicavam coisas horríveis, monstruosidades. Então decidi escrever o livro como um libelo contra a estupidez humana. Não sei viver assim, não, camarada, fico triste. Dói demais. (© JC Online) |
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