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Odisséia no Sertão

Elementos da cultura grega antiga podem ser encontrados na Literatura Popular e no folclore do Nordeste

Por Homero Fonseca

   É abundante a literatura sobre a poesia popular nordestina, em suas duas vertentes – a oral (cantoria de viola) e a escrita (folheto de feira ou de cordel). Diversos autores debruçaram-se sobre suas origens, que estão na Pensínsula Ibérica do século 17: as folhas volantes de Portugal, os pliegos sueltos de Espanha, recuando até a chamada litteràture de colportage, na França. Antecedentes são apontados na Holanda (século 16) e Alemanha (século 15). Estudiosos já demonstraram também a influência árabe, decorrente da ocupação de quase oito séculos de parte de Espanha e Portugal pelos mouros, especialmente nos desafios de viola.

   Uma linha que merece investigação, entretanto, seria a presença de elementos da literatura e da mitologia da Grécia antiga, incluindo as epopéias homéricas, na poética popular nordestina. Para começo de conversa, atente-se para a construção das próprias epopéias, incorporando histórias, lendas, tradições populares. Os poemas de Homero eram transmitidos oralmente desde o século 8 a.C. e a mais antiga edição escrita das duas obras de que se tem notícia é do século 6 a.C., patrocinada pelo tirano Pisístrato. A versão que conhecemos, entretanto, traduzida para vários idiomas, vem dos séculos 3 e 2 a.C. e foi produzida por eruditos de Alexandria, no Egito.

   Ambos os poemas lançam mão de recursos típicos da poesia oral, como as repetições, a rítmica, a musicalidade, traços que vamos encontrar em nossa poética popular. Num certo sentido, são magnífica literatura de cordel. Como assinala Jaime Bruna, tradutor da Odisséia: “Nossos cantores populares, principalmente os cultivadores do gênero desafio, têm à mão a sua coleção de rimas e de versos já prontos, que muito ajudam a improvisação. O mesmo se passava nos poemas homéricos”...

   A propósito dessa simbiose clássico-popular, afirma ainda Ariano Suassuna em A Compadecida e o Romanceiro Nordestino (1970), expondo o processo em que um autor se apropria da criação coletiva para produzir uma obra singular: “Não era assim que procediam Molière, Shakespeare, Homero e Cervantes? Os cantadores procedem do mesmo jeito. Há, mesmo, uma palavra que, entre eles, indica o fato, o verbo versar que significa colocar em verso a história em prosa de outro. Quando Shakespeare escreveu Romeu e Julieta, não fez mais do que versar as crônicas italianas de Luigi da Porto e Bandello”.

   Presença de Homero – Na Literatura Popular Nordestina em verso a presença de Homero e da Grécia antiga pulula em citações, temas, processos. A invocação, inerente às aberturas das epopéias, está presente amiúde em folhetos e cantorias, em que não falta sequer a alusão explícita às entidades inspiradoras: “Ó Musa filha do céu / Vem ofertar um abraço / E mover meus pensamentos / Enquanto eu copio e traço / Um drama de amor e ódio / Neste romance que traço”. (Joaquim Batista de Sena, Napoleão e Elvira – A Triste Sorte de uma Meretriz). Agora, um exemplo na cantoria: “Longe do mar de Netuno / O cocheiro Faetonte / Percorria o horizonte / No seu coche de tribuno / De Anfitrite e de Juno / Tinha ele a proteção. / Apolo tendo na mão / Um livro de poesia / Me ensinou com galhardia / Cantar 10 pés em quadrão”. (Antônio Batista Guedes, violeiro potiguar, sobrinho do famoso Ugolino do Sabugi.)

   Outros aspectos merecem ser abordados. Seria Ulisses o pai de João Grilo, Pedro Malasartes (que no mundo hispano-americano é conhecido por Pedro Urdimales), Cancão de Fogo e toda uma progênie de filhos e netos? Vejam a caracterização do personagem de Homero por alguns tradutores brasileiros: “Herói engenhoso”, “solerte”, “astuciosa pessoa”, “astucioso e dissimulado” “vagamundo”, que “com sua esperteza”, a que “não faltam manhas”, “tramava todos os enganos e ardis”. (Jaime Bruna, Cultrix.); “Varão astucioso”, “errante”, “engenhoso”, “manhoso”, “astuto”. (Manuel Odorico Mendes, Edusp.); “Herói astucioso”, “astuto”, “guerreiro solerte”, “engenhoso Odisseu”, “de grande inventiva”. (Carlos Alberto Nunes, Ediouro.)

   Abstraindo o componente épico do herói (componente encontrável em outras obras de cordel, como em Juvenal e o Dragão, do grande Leandro Gomes de Barros, além disso imersa num universo mágico), aquelas características descreveriam perfeitamente João Grilo (e seus companheiros), como protótipo do herói esperto, o “quengo fino” do linguajar sertanejo, que vence toda sorte de competição pelos ardis da inteligência.

   Até um dos personagens mais memorizados da saga de Ulisses (o ciclope do Canto 9) tem uma versão no folclore cearense e amazônico, o Gorjala, assim definido por Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1954): “É um gigante preto e feio, que habita as serras penhascosas. Sua ferocidade lembra a de Polifemo, de Homero, do qual é um descendente criado na imaginação sertaneja. Quando encontra um indivíduo qualquer, mete-o debaixo do braço e vai comendo-o às dentadas”.

   Licença poética em Tróia – Também da Ilíada encontramos referências explícitas, tanto na cantoria quanto nos folhetos, inclusive com verdadeiras apropriações da história, transcriada para o linguajar e a mentalidade do público. O poeta Caetano Cosme da Silva, pernambucano radicado por muitos anos em Campina Grande, versou as peripécias da guerra, no folheto Helena, a Deusa de Tróia, alterando o final da história:

   “Páris pegou Minelau (sic) / Com dois quentes e um fervendo / E deu-lhe um golpe certeiro / Com um furor estupendo / Sufocado em véo (sic) de sangue / Minelau caiu morrendo. // Ninguém contava os defuntos / Que haviam nessa hora / E os gregos que restavam / Num navio foram embora / Páris ficou com Helena / Tão linda quanto a aurora”.

   Já um poeta jovem e urbano, Antônio Klévisson Viana, de Fortaleza, escreveu recentemente História de Helena de Tróia e o Cavalo Misterioso, em que se mantém, grosso modo, fiel ao enredo original, inventando apenas que Helena foi encontrada numa masmorra troiana e voltou com Menelau, com quem teve muitos filhos.

   Não está aí um tema interessante para uma bela pesquisa acadêmica? Afinal, o rapaz inteligente (Odisseu) e o monstro devorador de homens (Polifemo) parecem ter sido transcriados em personagens como o João Grilo, dos nossos folhetos, ou o Gorjala, do folclore cearense. Luís da Câmara Cascudo produziu um curioso estudo etnográfico relacionando superstições, usos, comportamentos e expressões do interior do Nordeste a nada mais nada menos do que a Divina Comédia (Dante Alighieri e a Tradição Popular no Brasil, 1963). Em boa hora, nossos estudiosos poderiam aprofundar essas relações sobre as quais apresentamos essas pistas. Mãos à obra, senhores.

Homero Fonseca é jornalista, escritor e Editor da Revista Continente

Continente Multicultural - Edição 49)

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