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Filme de estréia do diretor pernambucano Heitor Dhalia capricha na
parte técnica, mas não consegue mergulhar no universo de Dostoiévski Onde estará a verdade num filme? No olhar de um personagem, nas situações humanas apresentadas? Estaria na intenção do diretor e todo o trabalho árduo ao lado da equipe, independente do resultado ser “bom” ou “ruim”? Está na verdade das ruas e da cidade? Nina (Brasil, 2004), primeiro longa do pernambucano Heitor Dhalia (radicado em São Paulo há mais de dez anos), pode resultar numa interessante mostra para análise da verdade e do artifício, uma vez que inspira-se em Crime e Castigo, do russo Fiodor Dostoiévski, clássico da literatura universal que tem como palco as profundezas da alma humana. Estranhamente, Nina parece procurar alguma verdade na superficialidade da sua direção de arte, no esmero inútil de um filme dark sobre o sombrio. Saindo de uma sessão de Nina, o espectador que não tenha gostado poderá questionar o porquê de cobrir com artifícios e bossas uma obra calcada nas verdades do ser humano. Pra quê tanto enfeite e afetação? Colocar a culpa numa bagagem publicitária do diretor seria um clichê da crítica tão grave quanto os clichês de imagem, atmosfera e estilo que compõem esse filme. A produção informa que Nina não seria uma adaptação, mas uma releitura da obra de Dostoiévski. Seja o que for, a mera inclusão do nome “Dostoiévski” eleva instantanemente o grau de expectativa em relação a qualquer que seja a obra que ousa associar-se aos escritos do russo cuja literatura suga o leitor para uma teia impensável de filosofia e psicologia. É autor singular e sua estatura não ajuda o filme em muita coisa. Nina, no entanto, é um filme tecnicamente impecável, especialmente se considerarmos tratar-se de uma produção de baixo orçamento. O visual tela larga (fotografia de José Roberto Eliezer) é arrojado dentro de uma proposta de cinema paulistano com vontade de ser Berlim, tratando o tom sombrio do todo com um sem fim de sombras. O som é sensacionalmente supermixado e dá ao espectador a impressão de estar dentro do intestino grosso de alguém. Vez ou outra, animações estilo mangá japonês seqüestram a tela para nos dar alguns dos momentos mais violentos da narrativa, idéia que Dhalia e Quentin Tarantino tiveram simultaneamente, pois tanto Kill Bill como Nina existem como projetos há alguns anos. Diferente de Kill Bill, as sequências do mangá em Nina desfilam fora de controle na tela, o espectador enche os olhos e fica com a cabeça vazia. Estabelecida a destreza técnica, sensação geral é a de que o filme resulta não de uma releitura de Crime e Castigo, mas de um alongamento da sinopse de duas linhas do livro original. No lugar do personagem masculino original Raskolnikov, temos Nina (Guta Strasser, entregue ao papel), uma garçonete e clubber paulistana que aluga o quarto de Dona Eulália (Myriam Muniz, que faleceu em dezembro), uma velha que esconde atrás da forte presença de tela de Muniz a construção simplória de uma perfeita vilã-Disney. Dona Eulália é má e irritante, e a principal gota d´água na vida sem saída da personagem principal, presa no que mais aparenta ser a vitrine de uma butique especializada em moda gótica, seu quarto. Cenas inteiras parecem existir para compor um portifólio de capacidades técnicas de todos os envolvidos, com especial ênfase num elenco de porte sem senso de direção ou função (Selton Mello, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Renata Sorrah), atores chamados para dar peso artístico ao filme, mas que apenas reforçam a histeria da decoração. Para tirar qualquer dúvida, há um enigmático momento em que Ramos e Nachtergaele dividem o enquadramento com uma escada de pintor. Um crime e um castigo. (© JC Online) |
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