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Elite nega talento do povo brasileiro

Agassiz Almeida
 

Escritor paraibano Agassiz Almeida lança no Recife seu ensaio sobre a ideologia elitista e o intelectualismo cultural que predominam no Pais

   O ex-deputado federal e escritor Agassiz Almeida percorreu os cinco séculos da história do Brasil para defender a idéia que a cultura brasileira sempre trabalhou a favor da elite, e não do povo. Sua teoria é defendida em A República das Elites - Ensaio sobre Ideologia das Elites e do Intelectualismo. Esse raivoso calhamaço de mais de 500 páginas, com selo da Editora Bertrand Brasil, tem noite de autógrafos hoje, às 19h, no auditório da Livraria Cultura, do Paço Alfândega.

   A partir de pesquisas em torno de pensadores como Marx e Marcuse, Agassiz defende a idéia que a participação da intelectualidade nos movimentos revolucionários ocorridos no Brasil foi de pouquíssima ou mesmo de nenhuma relevância.

   “Quando despertei para a concepção de trazer à lume a construção de uma obra que definisse o papel das elites do País desde a sua origem lusitana, impregnei-me destes sentimentos e interroguei-me: como um povo tão forte, tão enérgico, tão determinado, que no processo de colonização, navegou por longas travessias oceânicas, e aqui nos trópicos, região atmosférica adversa da européia, pôs os pés há 500 anos, enfrentando uma mata exuberante, animais selvagens, índios bravios, erigiu este país?”, afirma o autor paraibano, que tem em sua bibliografia títulos como A Nação e o Impeachment, O País dos Banqueiros e 500 Anos do Povo Brasileiro.

   Agassiz avalia que, ao contrário do que aconteceu em outros países, a literatura brasileira nunca manifestou qualquer repúdio aos donos de terra escravocratas e aos militares torturadores - “Para estudar esse processo, muito pesquisei. Estive na Torre do Tombo em Lisboa. Foi dali que partiu a nossa inspiração. O lusitano - é preciso que se ressalte - num momento fugaz e inolvidável da História, conduziu o destino da humanidade.”

   Para Agassiz, a elite nega o talento do povo brasileiro. No seu ensaio, o autor aponta obras em que o povo, e não os seus governantes, virou alvo de forte gozação literária. Entre elas, clássicos como Macunaíma e Jeca Tatu. “Voltaire, que é um grande mestre da arte da sátira, já dizia que não há arma mais pérfida do que o grotesco, notadamente contra um povo, relegando os seus feitos históricos ao desprezo e à galhofa em praça pública”, afirmou.

   “Em toda grande literatura, são os dominados que sofrem com as críticas dos intelectuais. No Brasil, ocorre o inverso desse processo. É isso que eu tento provar no meu livro. Um dia, quando serenarem as paixões, apontaremos que o Brasil militarizado, virulento e torturador que venceu os sonhadores do Araguaia na década de 70 do século 20, tombou derrotado no chão da História”, completou.

JC Online)


Bandeira, Drummond, Lobato e Mário de Andrade são os alvos

   No seu ensaio A República das Elites, Agassiz Almeida mira e acerta em algumas das grandes figuras intelectuais do Brasil, como Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. “Eu mexo em nomes ‘imexíveis’, em gente que ninguém fala. E o leitor gosta disso, ele gosta de ser esclarecido”, acredita.

   Sobre Lobato, ele escreveu: “Voluntarioso, ambicioso e sem escrúpulos, na avidez do enriquecimento, o americanófilo Monteiro Lobato iria personificar o homem como pioneiro na tarefa demolidora de ridicularizar e satirizar o povo brasileiro. Ao mesmo tempo, tinha a credenciá-lo várias obras de exaltada apologia à civilização norte-americana. Ele teatralizava um ardoroso nacionalista.”

   Sobre Drummond, Agassiz aponta plágio em vários dos poemas do autor. “Ninguém diz que aquela coisa de ‘no meio do caminho havia uma pedra’ é um plágio de Dante, está lá igual no começo da Divina Comédia. E o Agora, José, olha esse poema é um desrespeito. Ninguém diz que Macunaíma faz um retrato grotesco do povo brasileiro. E o Manuel Bandeira foi o mais cretino de todos”, declarou.

   Para Agassiz, a Semana de Arte Moderna foi uma resposta da elite brasileira, assustada com os ecos da Revolução Russa de 1917. “Todo movimento artístico tem fundo ideológico por trás”, aponta.

   “No Brasil, o intelectualismo gerou canções de ninar como Irene no Céu, indiferente ao enorme soluço dos condenados da vida e das ditaduras. São nesses momentos que se constroem as verdadeiras criações artísticas. Das navegações dos lusitanos nasceu Os Lusíadas. Da Revolução Francesa, O Vermelho e o Negro e Os Miseráveis. Do mundo interrogante da metafísica entre Hegel e Kant, desatou-se Fausto”, listou Agassiz, que no final do seu livro realizou um ensaio de como os escritores estrangeiros falaram dos seus países e de seus compatriotas.

JC Online)

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