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Um paradoxo pernambucano

Pereira da Costa
 
Infográfico
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O historiador Pereira da Costa deu a vida pela pesquisa e, sem ajuda de uma equipe, deixou uma obra prodigiosa que agora é relançada

JOSÉ TELES

   “Pereira da Costa é uma desses paradoxos de Pernambuco. Foi um homem de poucas posses, que deu a vida pela pesquisa, a ponto de pedir desculpas aos familiares por não ter dedicado mais tempo a eles. Sem uma equipe, sozinho, deixou uma obra prodigiosa. O paradoxo é que o Folk-Lore Pernambucano, por exemplo, foi publicado pela primeira vez no Rio, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1908, mas só teve uma edição autônoma em 1974. Enquanto os Anais Pernambucanos só começaram a ser publicados no governo Agamenon Magalhães, muitos anos depois da morte do autor”. O comentário é de Mário Hélio, crítico literário e diretor da Editora Massangana.

   Ele foi o coordenador do oportuno relançamento de parte da obra de F. A. Pereira da Costa. Sob a égide da Companhia Editora de Pernambuco voltarão às livrarias, em março: Folk-Lore Pernambucano Subsídios para a História da Poesia Popular em Pernambuco, os Anais Pernambucanos (dez volumes), o Dicionário Biográfico de Pernambucanos Célebres e o Vocabulário Pernambucano, todos fora de catálogo (e vendidos a preço de ouro nos sebos). O Folk-Lore sai em papel (750 páginas, incluindo índice remissivo), os demais em CD-ROM, uma espécie de bônus, encartado na contracapa do livro.

   Pereira da Costa foi o mais importante historiador pernambucano, não apenas pela sua caudalosa produção, como também pela variedade de assuntos que abordou. O folclorista Câmara Cascudo (cuja obra também vem sendo oportunamente reeditada), considerava o Folk-Lore Pernambucano o melhor trabalho que havia lido no gênero. Os Anais Pernambucanos são, sem sombra de dúvida, a mais importante obra do gênero já escrita no Brasil. Ocupa-se da história de Pernambuco e, por extensão, do País, do descobrimento até a metade do século 19. Curioso e minucioso, o autor envereda também pela geografia, pela história da vida privada (há um capítulo, por exemplo, sobre o piano em Pernambuco). As biografias embora importantes são de leitura menos atraente ao leigo, enquanto o Vocabulário Pernambucano é outra obra seminal.

   QUEM FOI – Nascido em 16 de dezembro de 1851, no Recife, Pereira da Costa, era de família humilde. Aos 16 anos já trabalhava como caixeiro de uma livraria, onde se apegou à leitura, a ponto de ser constantemente recriminado pelo proprietário. Aos 20 anos entrou para o serviço público, no qual ocupou diversos cargos, aposentando-se como secretário da Câmara dos Deputados. Perto de completar 40 anos, formou-se em direito, já havia então sido eleito deputado estadual (manteve-se como parlamentar durante 22 anos).

   O emprego permitiu-lhe que se dedicasse à pesquisa de forma quase obsessiva, mesmo que não tivesse tanto êxito editorial. Os Anais Pernambucanos, por exemplo, ele tentou até o final vê-los publicados. Uma edição da obra foi aprovada na Câmara dos Deputados em 1919, e só confirmada em 1922: “Chegaram a enviar os originais para uma gráfica que o governo mantinha na casa de detenção. Mas a impressão ficou tão ruim, que Pereira da Costa preferiu não publicar”, conta Mário Hélio. Mal comparando, Pereira da Costa teve destino parecido ao do poeta paraibano Augusto dos Anjos, só foi reconhecido postumamente. Um urubu também parecia ter pousado em sua sorte.

   Com mais de 70 anos, Pereira da Costa recebeu o único prêmio material por sua extensa obra, conforme assinala Mário Hélio no prefácio do Folk-Lore Pernambucano: 15 contos de réis, concedidos pelo governo do Estado. Um prêmio que apressou sua morte. Com o dinheiro, ele comprou um sobrado em Afogados. Na manhã de 18 de novembro de 1923, o escritor desequilibrou-se ao descer as escadas de casa, caiu e desmaiou. Hospitalizado, ele morreu três dias depois.

JC Online)

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