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Divulgação/Beti Niemeyer

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A cantora, na estréia de quinta-feira: novo show evita desfile de
grandes sucessos e aposta em canções menos óbvias |
João Máximo
“Tempo tempo tempo tempo” é Maria Bethânia. Tudo mais — direção, cenografia,
figurinos, luzes e, sobretudo, som — conta pouco. É verdade que um grande
show é soma das virtudes desses elementos, mas, no caso do que está em
cartaz no Canecão, Maria Bethânia se basta. O que não é novidade.
Sua entrada em cena é arrebatadora. Canta uma “Modinha” como não se ouvia
desde Elizeth, mesmo considerando Elis, o próprio Tom e outros que se
aventuraram a cantar esta que é uma das mais belas canções seresteiras de
todos os tempos, à altura mesmo de Villa-Lobos, Jaime Ovalle e outros
admiráveis modinheiros. A música de Jobim e a letra de Vinicius casam-se
perfeitamente. E, na voz de Bethânia, recuperam a beleza ferida por vozes
menores.
Vinicius no começo e lembranças no fim
Mas se frusta quem espera que o espetáculo vá ser, como o primoroso disco
que o inspirou, um tributo a Vinicius de Moraes. Em sua primeira parte
Bethânia alterna coisas do poeta com canções que marcaram seus 40 anos de
Rio de Janeiro, agora comemorados. É verdade que, nessas inserções, há
grandes momentos. Bethânia intercala, às suas reverências a Vinicius,
declarações de amor a Chico Buarque (“Quem te viu, quem te vê” e “Olhos nos
olhos”, duas soberbas rendições), e também seu reconhecimento a Roberto
Carlos e sua lembrança dos tempos de “Carcará”. É verdade, também, que sua
releitura do “Monólogo de Orfeu” é inteiramente sua. Quem conhece o
original, tanto o de Haroldo Costa no teatro como o de Vinicius em disco,
imagina um Orfeu arrebatado, para fora, dramático acima de tudo. Bethânia o
faz mais calmo, sem pressa, quase num sussurro. E quando, mais adiante,
canta “A felicidade”, começando pelo seu verso mais bonito (“A felicidade é
como a gota/ De orvalho numa pétala de flor/Brilha tranqüila/Depois de leve
oscila/E cai como uma lágrima de amor”), Vinicius já está devidamente
homenageado. Mas o público espera mais. E só a força de Bethânia levou-o a
acompanhar a cantora pelos caminhos que ela escolheu: Caetano, Roberto
Mendes, Raul Seixas, Benito Di Paula, Gonzaguinha, Jards Macalé, Joyce,
Totonho Villeroy, Suely Costa, Almir Sater e — por que não? — Bach.
Bethânia está no auge de sua carreira. É, provavelmente, a mais completa
intérprete de nossa canção popular. Pelo timbre personalíssimo, por cantar
em vez de choramingar (vício comum a quase todas as herdeiras da bossa nova)
e por substituir seus antigos arroubos dramáticos por uma emoção dosada,
sóbria e adequada. Bethânia tem alma de atriz, mas sempre se recusou a
tentar uma carreira no teatro. “Meu palco é musical”, disse ela em
entrevista de anos atrás. E continua a mesma.
Daí o show do Canecão ser ela, sobretudo ela, pouco contando tudo mais.
Voltemos ao exemplo de “A felicidade”. Foi o primeiro instante em que se
conseguiu, ao menos na estréia, ouvir Bethânia em sua plenitude, porque até
ali os músicos, em especial o grupo de dois ou três percussionistas,
abafavam-lhe a voz, erro, decerto, de quem cuidou do som. São bons os
arranjos, todos ou quase todos do violonista Jaime Alem, mas a ênfase na
sessão rítmica (nos fazendo lembrar aquele crítico para quem bateristas e
percussionistas são artistas que descarregam por mãos e baquetas seu ódio
aos bumbos e pratos) prejudicou em muito o canto de quem se foi ouvir no
Canecão. Mais para o final, o baticum foi atenuado.
De resto, um grande show. Talvez tenha músicas de mais (vinte e tantas) e
certamente tem Vinicius de menos. Mas Bethânia pode. Que outra cantora deste
país de cantoras consegue subir ao palco para fazer o que quer, cantar o que
quer, prometer Vinicius e nos dar poetas menores, comemorar com sua baianice
os 40 anos de carioquice, não dar a mínima para luzes e sons e ainda assim
fazer, como faz, um grande show?
(©
O Globo)
Bethânia celebra o passado sem saudosismo no show
'Tempo tempo tempo tempo'
Leonardo Lichote - Globo Online
RIO - Após ter cantado "Pássara", da qual esqueceu parte da letra, Bethânia
se desculpou com a platéia:
- São 40 anos , é uma estréia e tanto.
A força das quatro décadas de carreira que Bethânia comemora no show "Tempo
tempo tempo tempo" - que estreou nesta quinta-feira no Canecão, com direção
de Bia Lessa, e fica em cartaz por três semanas - atravessou todo o
espetáculo. Não apenas no nervosismo denunciado em momentos como "Pássara"
ou no repertório que cobria toda sua trajetória. Os tais 40 anos se
afirmavam sobretudo na autoridade leve com a qual Bethânia se impõe no
palco, sem carregar em tons dramáticos -
o canto que sai entre o sorriso , mesmo em canções mais densas.
Uma leveza talvez inspirada na poesia de Vinicius de Moraes ,
homenageado pela cantora no
recém-lançado CD "Que falta você me faz" e, por isso, nome mais lembrado
no show.
A leveza de Bethânia está também na forma como celebra sua trajetória. Não
há, em nenhum momento, resquício de saudosismo, um lamento por algo que
ficou no passado e não se repetirá. Talvez saudade, se saudade for entendida
como um carinho pela que se viveu, livre de amargura. Ela olha para a sua
trajetória, com a sabedoria das
palavras de "Oração ao tempo" , canção do irmão Caetano Veloso que
contém o verso que batiza o show.
O fato de apresentar canções inéditas - entre elas um samba de Totonho
Villeroy em homenagem a Vinicius, com citações a "Rosa de Hiroshima", "Tarde
em Itapoã" e "A felicidade", entre outras - mostra que Bethânia, mesmo
olhando para trás, não deixa de fincar os pés no presente e olhar para o
futuro. Na verdade, essas categorias temporais parecem não fazer sentido
para a cantora - no palco, ela prova que celebrar o passado pode ser apenas
uma forma de viver o presente.
Não há saudosismo também nos arranjos, que imprimem modernidade e
regionalismo refinado (herança de um movimento que atingiu seu ápice em
"Brasileirinho" , disco e show anterior da cantora) às serestas, sambas
(na maioria das vezes com acento baiano), baiões. "Carcará", por exemplo,
aponta muito mais para a renovação de um Lenine que para a roupagem
tradicional de um Gonzaga. Os músicos - Jaime Alem (arranjos, regência,
violão), João Castilho (violão, guitarra), João Carlos Coutinho (piano),
Rômulo Gomes (baixo), Marcio Mallard (violoncelo), Marcelo Costa e Reginaldo
Vargas (piano) - acertam da erudição de Bach até os momentos mais rock, como
"Pode vir quente que eu estou fervendo" .
A cenografia de Daniela Thomas e Marcia Moon, baseado em grandes formas
geométricas, estáticas ou em movimento, são uma solução perfeita para
contrastar como o barroco do elogiadíssimo "Brasileirinho". A lua sertaneja,
a jangada no mar, o sol urbano, são sugeridos em meio às retas, como se
vistos por Mondrian. Num dos momentos mais belos do show, um painel lembra
personagens como Dona Canô e Mãe Menininha.
Unindo Chico Buarque (
"Quem te viu quem te vê" , "Olhos nos olhos") a Raul Seixas ("Gita"),
passando por Paulo Vanzolini (
"Volta por cima" ) e Lupicínio Rodrigues (
"Felicidade" ), Vinicius é mesmo a linha mestra do show. Ele é lembrado
em canções e em textos declamados por Bethânia, como "Soneto da fidelidade"
e "Monólogo de Orfeu". Antes de encerrar a noite e se despedir com sua já
tradicional interpretação de
"O que é o que é" , Maria Bethânia aproveitou o
"Samba da benção" do poetinha para prestar tributos da forma mais bela,
pedindo a benção a nomes como Edith do Prato, Caetano, Noel, Gonzaguinha e,
por fim, à platéia:
- A benção, porque eu estou apenas começando.
Que Deus a abençoe.
(Veja
trechos do show)
(©
O Globo)
Sem a suavidade do novo CD, Bethânia encanta só com a voz
LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO
Tendo como um de seus pilares o
belíssimo CD "Que Falta Você me Faz", em que ela interpreta canções de
Vinicius de Moraes, esperava-se que "Tempo, Tempo, Tempo, Tempo", o novo
show de Maria Bethânia, herdasse a suavidade do disco. Mas isto só aconteceu
em parte.
O espetáculo que estreou anteontem
num Canecão superlotado -com a presença de "famosos" como Caetano Veloso,
Cacá Diegues, Patrícia Pillar e Carolina Dieckmann- teve um início
comovente, com Bethânia misturando Vinicius a músicas de Chico Buarque
("Pássara", "Quem te Viu, Quem te Vê", "Olhos nos Olhos") e Caetano ("Oração
ao Tempo"), cantando serena diante de um cenário preto-e-branco.
Mas no final da primeira parte e
em um bom pedaço da segunda, apareceu a Bethânia grandiloqüente, da "voz
autoritária, gritada, forte" -como ela falou de si mesma em entrevista
recente à Folha-, dos arranjos excessivos e andamentos acelerados. Os
módulos abstratos do cenário de Daniela Thomas começaram a se mexer
intensamente, e o show ficou órfão da delicadeza inicial.
Em sendo uma comemoração de seus
40 anos de carreira, é preciso ressaltar a coerência de Bethânia:
reafirmando sua integridade artística, ela cantou o repertório que quis, sem
ficar engessada à data redonda ou ao último disco, e do modo que quis,
subindo o tom em vários momentos.
Das 15 faixas de "Que Falta Você
me Faz", nove subiram ao palco. Foram os melhores momentos do show. Em
"Modinha", "O Astronauta", "O Mais-que-Perfeito", "Samba da Bênção" e
recitando o "Monólogo do Orfeu", Bethânia encantou sem precisar de muito
mais do que sua voz e emoção. "Formosa" e "Como Dizia o Poeta", canções que
não entraram no CD, também brilharam no show.
Aberta com a bela e inevitável
"Carcará" (João do Vale), a segunda parte foi a responsável pela
irregularidade do resultado geral.
Sem abrir muito espaço entre uma
canção e outra, Bethânia combinou rock ("Gita", de Raul Seixas e Paulo
Coelho), moda de viola ("Usina de Prata", de Rosinha de Valença, e outras),
sons do Recôncavo Baiano ("Foguete", de Roque Ferreira e J. Velloso) e até
Vinicius, não se acanhando em pôr cinco inéditas no rol.
A versão pungente de "Esse Cara",
de Caetano, com Bethânia cantando sentada num dos dois púlpitos instalados
no palco pela diretora Bia Lessa, foi um bálsamo no meio de tanta
diversidade. Cenas como essa, de paz e terna tristeza, valeram o show.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Quando: até 13/3 (sex. e sáb, às 22h; dom, às 20h30); estréia em SP
em 31/3
Onde: Canecão (r. Venceslau Brás, 215, Botafogo, 0/xx/21/ 2105-2000)
Quanto: entre R$ 50 e R$ 100
(©
Folha de S. Paulo)
Bethânia no meio do caminho
Contida, cantora revê 40 anos de carreira e celebra Vinicius em show que
custa a decolar
Marco Antonio Barbosa
''Quarenta anos são uma estréia e tanto'', diz Maria Bethânia, sorrindo,
depois de tropeçar - de leve, de leve - na letra de Pássara (Chico
Buarque/ Francis Hime), sétimo número apresentado pela cantora na estréia
do show Tempo tempo tempo tempo, na quinta-feira. O incidente ajuda
a quebrar o gelo e aproxima a diva do público do Canecão, que, de tão
reverente, hesitava até em aplaudir.
O formato que Bethânia escolheu para o show,
entremeando as canções quase sem pausa, pode ter causado essa estranheza
inicial. Não se sabia a hora certa de bater palmas. A reverência só acaba
de vez em Quem te viu, quem te vê (Chico Buarque), quando a platéia
afinal canta junto. O coro da audiência não se repetiu muitas vezes.
Talvez pela decisão da cantora de não se entregar a um desfile de sucessos
no repertório.
O tom sóbrio do álbum em homenagem a Vinicius de Moraes
não foi estritamente seguido no show. Enquanto as canções do CD (como O
astronauta, A felicidade e Nature boy) ficaram bem parecidas
com as versões de estúdio, Bethânia aproveitou sua proverbial vitalidade
no palco para injetar energia ao repertório. Isso sobressai na batida de
samba do Recôncavo de Iluminada (Roberto Mendes/Jorge Portugal), no
sambão de Nos combates dessa vida (clássico de Dona Ivone Lara) e
no arranjo pesado para Volta por cima (Paulo Vanzolini). E, mais do
que tudo, na grande surpresa do repertório, Pode vir quente que eu
estou fervendo (Roberto & Erasmo), rockão que acaba contaminando a
trinca Carcará, Baioque e Gita, que abre o segundo
ato do espetáculo. Outra novidade foi o resgate de Você vai ficar na
saudade, sambão do inimitável Benito di Paula.
A lembrança de que, afinal, tratava-se de um show
retrospectivo só vem mesmo após o Samba da bênção, quando Bethânia
agradece a Vinicius e aos compositores que a receberam, há 40 anos. ''A
bênção, porque estou só começando'', avisa na prece. A vibração da
platéia, que aumenta paulatinamente ao longo do espetáculo, cresce ao
final, com Deixa (Vinicius/Baden Powell) e só chega a transbordar
mesmo no retorno da cantora, após o fim oficial do show. ''Não tive
tempo de ensaiar um bis, então vai o de sempre mesmo'', fala Bethânia
introduzindo O que é o que é, de Gonzaguinha.
Apesar de algumas falhas técnicas (como o violão que
abandonou Jaime Alem, durante Usina de prata), a performance do
septeto que acompanha a cantora esteve correta. Bethânia está cantando
bem, mesmo que pareça contida e suave demais em alguns momentos, sem
decolar, como é de seu costume. A iluminação de Maneco Quinderé encontra
soluções simples mas felizes, como a recriação de um céu estrelado para a
canção Nature boy.
A cenografia, de Daniela Thomas e Marcia Moon, foi mais
irregular. Os painéis monocromáticos que dominavam o fundo do palco
conferiram movimento agradável à encenação. O que não ocorreu com uma
série de enormes blocos geométricos coloridos, que subiam e desciam e
desviavam a atenção que a intérprete merecia.
Tematicamente, o show fica no meio do caminho. O
repertório não faz uma varredura completa dos 40 anos de carreira da
cantora - faltam vários sucessos e as surpresas ocupam mais espaço que as
escolhas previsíveis. E o espetáculo tampouco chega a ser dominado pela
homenagem a Vinicius, como o CD. O tributo está lá, claro: há 12 canções
do Poetinha no roteiro. Mas, conforme a própria cantora declarou, ela
canta Vinicius a vida inteira. Então é mais do mesmo de Bethânia. O que,
em tempos bicudos como os que a MPB anda vivendo, sé um bom consolo.
Tempo, tempo tempo, tempo. Show de Maria Bethânia.
Canecão, Avenida Venceslau Brás, 215, Botafogo (2105-2000). 6ª e sáb., às
22h; dom., às 20h30. R$ 100 (setor A e frisa central), R$ 90 (setor B e
balcão nobre), R$ 80 (setor C e mezanino) e R$ 50 (poltronas). Idade
mínima: 16 anos. Cap.: 3.100 pessoas. Até 13 de março.
(©
JB Online)
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