Cantora de samba-jazz que deixou o país no início
dos anos 70 é a atração principal de projeto no Sesc Pompéia
CARLOS CALADO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Ela nunca mais se esqueceu daquela noite. No início dos anos 70, ao sair da
boate em que tocava para amamentar o filho, foi abordada por uma viatura da
polícia. Mostrar a carteira de músico profissional não adiantou.
O policial rasgou o documento, a xingou de prostituta e a obrigou a entrar
no camburão. "Foi um trauma muito grande, eu tinha 22 anos. Depois daquilo,
não podia mais ficar aqui", recorda a cantora e pianista Tânia Maria, que
não faz shows no Brasil desde 1974, quando iniciou na França uma brilhante
carreira internacional.
Esse hiato de três décadas será rompido nos próximos dias 11 e 13. Tânia
Maria é a atração principal do evento "Mulheres do Brazil", no Sesc Pompéia,
em São Paulo. "Considero-me uma exilada voluntária, mas a emoção que estou
sentindo por poder tocar de novo no meu país é muito grande", disse ela à
Folha por telefone, de Paris, onde voltou a morar em 1996, depois de viver
15 anos nos EUA.
Maranhense de São Luís, Tânia cresceu em Volta Redonda, no interior do Rio
de Janeiro. Ainda cursava o conservatório, aos 12 anos, quando foi vencedora
do programa de calouros de Ary Barroso, na Rádio Nacional.
Um ano depois já liderava seu conjunto, tocando em bailes, numa época em que
mulheres instrumentistas eram raras. "Eu vivia cercada por homens. Muitas
vezes entrava num lugar, e o baterista começava a tocar uma valsinha para me
gozar", relembra.
Antes de deixar o Brasil, ela gravou dois discos que só deram uma pálida
idéia do estilo emotivo e suingado que veio a desenvolver mais tarde.
O disco "Apresentamos Tânia Maria" (1969) exibia seus vínculos com a bossa
nova e o samba-jazz. "Olha Quem Chega" (1971) já refletia o ambiente da MPB
naquele momento, aberta a fusões com a música pop e o jazz. "Sendo filha da
bossa, o jazz sempre esteve muito perto de mim. Essas foram influências que
me permitiram construir o que eu faço hoje", resume a cantora.
Ditadura
Mas a repressão política do regime militar, assim como as dificuldades para
desenvolver a carreira no país, levaram Tânia a tentar a sorte na Europa.
"Vi colegas de meu pai, que era metalúrgico, desaparecerem, assim como
amigos meus que eram contra aquela situação. Fui admoestada até por pessoas
do meio musical, por cantar músicas que falavam do nosso sufoco. Quando saí
do Brasil, sabia que não ia voltar, ao menos enquanto durasse aquela
situação", relembra Tânia. "Até hoje tenho medo de milico."
Ao assinar contrato com a gravadora norte-americana Concord, no início dos
anos 80, Tânia já se mostrava madura e confiante. Além das composições
próprias que apresentou nos álbuns "Piquant" (1981) e "Taurus" (1982), a
exuberância de seus vocais e a alta energia de seus improvisos ao piano
conquistaram até o influente crítico de jazz Leonard Feather.
"Consegui alugar uma casa lá nos Estados Unidos, só mostrando o que ele
escreveu na capa do meu disco", diverte-se.
A essa altura, Tânia já vinha causando impacto em clubes e festivais de jazz
dos EUA. A indicação de "Come with Me" (1983) para o Prêmio Grammy de melhor
performance de jazz estabeleceu seu nome entre as principais cantoras desse
gênero.
Segregação
Duas décadas mais tarde, vivendo de novo na França, hoje a cantora se mostra
bem crítica frente ao mercado que a transformou em estrela.
"O jazz está sendo segregado nos Estados Unidos. Os clubes que ainda existem
lá são caríssimos, e isso afasta as pessoas. Até hoje a Europa foi, e acho
que será sempre, a maior fã do jazz. Está todo mundo tocando aqui, onde
posso me exprimir mais na minha língua", diz Tânia, que praticamente deixou
de cantar em inglês, nos últimos anos. "Para o ouvido do europeu, a nossa
língua soa mais sensual."
A cantora completa: "Estou passando por uma fase que não é de banzo, não é
saudosa. Em minha cabeça ainda existe um Brasil lindo, e isso me faz compor
dentro dessa atmosfera".
O reencontro com a platéia brasileira e a aparição de Tânia no recém-lançado
DVD de Ed Motta seriam indícios de que ela pretende voltar a viver no país?
"Meu coração continua brasileiro, mas a minha cabeça já não é mais. Não
penso em morar no Brasil, mas não deixo de voltar todos os anos. Sem essa
vitamina eu não vivo."
(©
Folha de S. Paulo)
Evento reúne nomes que exportam MPB
ESPECIAL PARA A FOLHA
Cantora brasileira de renome no exterior, mas pouco conhecida aqui, Tânia
Maria não é a única que vive uma situação irônica como essa. Outros casos
estão no elenco do projeto "Mulheres do Brazil", que o Sesc Pompéia exibe na
próxima semana.
Instrumentistas talentosas, a violonista paulista Badi Assad e a pianista
carioca Paula Faour (atrações do dia 12) ainda não conquistaram aqui metade
do reconhecimento que desfrutam lá fora. Assad tem freqüentado palcos de
respeito na Europa e nos EUA; o promissor CD de estréia de Faour saiu no
Japão antes de ser editado no Brasil.
No dia 9 apresentam-se duas cariocas consagradas, que há décadas mantêm
carreiras no exterior. Estrela da bossa nova, Leny Andrade até viveu nos EUA
e já participou de inúmeros festivais de jazz. Já a ótima compositora Joyce
tem lançado discos e feito shows na Europa e no Japão.
Atração do dia 10, a experiente paulista Fernanda Porto só foi "descoberta"
aqui depois que sua fusão de samba e drum'n'bass agitou pistas britânicas. O
caso de Elza Soares não é menos curioso: eleita cantora do milênio pela BBC
de Londres, a dama do samba carioca já enfrentou períodos de ostracismo.
Ironias de um país que nem sempre sabe reconhecer seus valores.
(CC)