Produção de Paixão de Cinema, vídeo que homenageia Fernando Spencer,
permite a digitalização de quase toda a obra do cineasta
MARCOS TOLEDO
Preocupado com a preservação de sua obra, há alguns anos Fernando
Spencer – apontado como o realizador mais ativo da história do cinema
pernambucano – lutava para transcrever todos seus trabalhos em Super 8, 16
mm e 35 mm para o formato de vídeo digital. Após algumas promessas, seu
sonho acaba de se realizar por meio da produção do documentário Paixão
de Cinema.
O vídeo, que começa a ser finalizado na próxima semana pelo diretor
Marcílio Brandão, da produtora Página 21, conta a vida e trajetória do
jornalista que fez do cinema sua paixão. Além de depoimentos de
conhecedores da filmografia de Spencer, o documentário contará ainda com
trechos de seus trabalhos. Foi aí que surgiu a idéia de digitalizar não
apenas fragmentos, mas praticamente toda a obra do autor, num total de 29
filmes.
“Sempre pensei, tentei (digitalizar). Mas era difícil porque dependia
de concurso”, afirma Spencer, de 78 anos. Ele conta que uma parte
expressiva de seus trabalhos foram realizados em Super 8, bitola com filme
positivo que, em geral, não possui cópias. Realizados nos anos de 1970, os
curtas-metragens, com a ação do tempo, perdem as cores e se estraga. “Todo
o material negativo (16 mm e 35 mm) também corre o risco porque não tenho
ambiente ideal para a preservação.”
O desejo do cineasta acabou se concretizando por ‘vias tortas’ – como,
aliás, não é raro ocorrer na luta de artistas para fazer manter viva a
produção de cinema em Pernambuco. Em 2002, quando o principal evento do
audiovisual do Estado ainda era chamado Festival de Cinema Nacional do
Recife, Marcílio Brandão teve seu curta-metragem Tejucupapo –
documentário sobre a vida das mulheres da vila homônima no município de
Goiana – como um dos mais aclamados daquela edição, no Cine-teatro dos
Guararapes. No ano seguinte, viu-se surpreso ao saber que as mostras
competitivas de curtas em 16 mm e animação e documentários em 35 mm do
rebatizado Cine PE: Festival do Audiovisual haviam sido segregadas para um
horário menos nobre (15h).
“Na época, escrevi um texto para o site da Página 21 que terminava
dando um viva a Fernando Spencer”, lembra Marcílio. O protesto lhe deu, ao
mesmo tempo, um insight: “Por que não fazer um filme sobre Spencer?”.
O justo tributo é somado a uma série de homenagens que o veterano (e
ativo) cineasta vem recebendo nos últimos anos. Em 2003, por exemplo,
quando começou a articular a digitalização de seus filmes, Spencer foi o
homenageado da 2ª Mostra do Filme Livre, no Rio de Janeiro. No ano
passado, foi reverenciado no Baile dos Artistas e no 1º Panorama
Documentário do Recife, além de ter seus trabalhos reexibidos em mostras
especiais (duas delas para ilustrar o documentário de Marcílio).
(© JC Online)
Cineasta ficará
com 29 de seus filmes em DVD
Aprovado pelo Funcultura, o documentário Paixão de Cinema, de
Marcílio Brandão, foi todo rodado em 2004 e conta com depoimentos de
personalidades que acompanham a trajetória de Fernando Spencer além, é
claro, de seqüências de alguns de seus 42 trabalhos, 29 dos quais foram
digitalizados na íntegra e serão entregues em DVD ao autor após a
finalização do vídeo.
Na busca pelo resgate da obra de Spencer, Marcílio conta que visitou
algumas locações de filmes rodados há mais de 25 anos e se surpreendeu com
situações, no mínimo, inusitadas. No Alto do Moura, em Caruaru, por
exemplo, registrou o reencontro de Spencer com um ceramista, personagem do
curta-metragem Adão Foi Feito de Barro (1978). Sem avisar, o
cineasta levou fotos que havia prometido do artista caruaruense quando
rodou seu filme, nas quais ambos aparecem. Revendo Adão, Marcílio
também achou curioso o fato de as reivindicações dos ceramistas do Alto do
Moura serem as mesmas de 26 anos atrás, quando mostradas por Spencer.
Paixão de Cinema revisita ainda locações como o Capibaribe, rio
mostrado no curta homônimo, de 1982, e a cinemateca da Fundação Joaquim
Nabuco, na unidade de Apipucos, que o homenageado ajudou a criar.
A seleção da obra de Fernando Spencer, digitalizada nos Estúdios Mega
por encomenda da Página 21, foi realizada pelo próprio autor, que deixou
de fora apenas trabalhos que considera muito experimentais – como o
primeiro de todos, A Busca (1969) – ou outros que ganharam remake,
a exemplo de O Teu Cabelo Não Nega, rodado em Super 8 nos anos 70 e
cujo material passou a integrar o recente vídeo Os Irmãos Valença.
Aposentado do jornalismo, mesmo tendo sofrido um infarto há um ano e
meio Spencer continua com a empolgação de um iniciante. Seus próximos
projetos são o de reunir no livro O Viajante da Fantasia sessenta
de suas reportagens publicadas entre 1958 e 1998, e realizar os curtas
Nossos Ursos Camaradas, sobre o tradicional personagem carnavalesco
pernambucano, Almery: A Estrela, biografia da famosa atriz do Ciclo
do Recife, e a ficção O Dia em que Lampião Enfrentou John Wayne.
(© JC Online)
Lista de curtas no
Cine PE totaliza 32
Dos 104 filmes inscritos no Cine PE Festival do Audiovisual, que
acontece em abril, no Recife, 32 são curtas-metragens e oito deles são
pernambucanos Após o anúncio, na semana passada, da lista de vídeos digitais
pernambucanos que competirão na nona edição do Cine PE Festival do
Audiovisual, sai agora os títulos que irão disputar o troféu Calunga na
Mostra Competitiva de Curtas-Metragens (16mm e 35mm). Dos 104 filmes
inscritos, 32 curtas – 25 pela bitola 35mm e 7 em 16mm – foram
selecionados para compor a grade de programação nobre e serem exibidos de
13 a 19 de abril, a partir das 18h30, no Teatro Guararapes, no Centro de
Convenções de Pernambuco, logo depois da Mostra de Vídeos Digitais
Pernambucanos (veja lista ao lado).
Entre os títulos concorrentes, oito são pernambucanos: Entre Paredes,
com direção de Eric Laurence, Exito d’Rua, de Cecília Araújo,
Fuloresta do Samba, de Marcelo Pinheiro, O Mundo é uma Cabeça,
de Cláudio Barroso e Bidu Queiroz, Véio, de Adelina Pontual,
Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, e Da Janela do Meu Quarto,
do mineiro Cao Guimarães, produzido e inscrito pela pernambucana REC
Produtores. Todos os filmes locais concorrem sob a bitola 35mm, exceto o
curta O Homem da Mata, dirigido por Antônio Luiz Carrilho, o único
em 16mm. Os demais curtas são originários do Rio de Janeiro, com sete
filmes, São Paulo, com quatro, Paraíba, Minas Gerais, Paraná, Ceará e o
Distrito Federal, com dois concorrentes, por Estado, e Rio Grande do Sul,
Espírito Santo e Bahia, com um filme, cada, no páreo.
Os curtas em 16mm – cinco ficção, um animação e um documentário -
concorrerão a cinco prêmios oficiais: Melhor Filme, Diretor, Roteiro,
Fotografia e Montagem. Já as películas em 35mm (13 ficção, nove
documentário e três em animação) vencedoras serão agraciadas com 12
prêmios: Melhor Filme de Ficção, Animação, Documentário, Diretor, Roteiro,
Fotografia, Montagem, Edição de Som, Trilha Sonora, Direção de Arte, Ator
e Atriz. A comissão que selecionou os curtas é formada pelo jornalista,
professor e crítico de cinema, Alexandre Figueirôa, o professor e
jornalista Sérgio Soares e o publicitário Gustavo Verçosa.
Já a comissão que vai julgar as películas concorrentes tem como
participantes o jornalista carioca Carlos Augusto Dauzacker, diretor da
Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica para a América Latina
e do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, o cineasta paulista
César Cavalcante, o curta-metragista brasiliense Ítalo Cajueiro (O
Lobisomem e O Coronel e A Moça que Dançou Depois de Morta), e a
atriz paraibana Soia Lira (Abril Despedaçado, Central do Brasil,
O Quinze).
A escolha dos longas-metragens resultará de convite direto da produtora
do evento. A diretora do Cine PE, Sandra Bertini, antecipa que “deverá
haver entre 20 e 25 títulos para escolha, o que vai garantir uma safra de
filmes quase toda inédita para a próxima edição”. O resultado da seleção
dos longas será divulgado no início do próximo mês. A íntegra do
regulamento das mostras-competitivas do Cine PE 2005 pode ser acessada no
site do evento (www.cine-pe.com.br). Como é praxe do festival, os
ingressos serão vendidos antecipadamente, já a partir do dia 15 deste mês,
e nos dias do evento, nas bilheterias do Cecon, a partir das 17h. Os
preços serão os mesmos da edição passada: R$ 6,00 (inteira) e R$ 3,00
(meia).
Segundo a diretora do Cine PE, deverão ser exibidos por noite, durante
a semana do festival, oito filmes, sendo três vídeos, quatro curtas e um
longa-metragem, com 20 minutos da grade destinados apenas para os vídeos
digitais. A previsão de término das exibições das mostras-competitivas é
de meia-noite. A programação do final de semana (sexta/15, sábado/16 e
domingo/17) deverá ganhar mais um longa e, portanto, entrar pela
madrugada. O tema da edição deste ano será “Música e Cinema. Magia e
Paixão”, evidenciando duas das mais fortes vocações culturais da capital
pernambucana.
(© JC Online)