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 Uma paixão, enfim, preservada

03/03/2005

O cineasta Fernando Spencer
 

Produção de Paixão de Cinema, vídeo que homenageia Fernando Spencer, permite a digitalização de quase toda a obra do cineasta

MARCOS TOLEDO

   Preocupado com a preservação de sua obra, há alguns anos Fernando Spencer – apontado como o realizador mais ativo da história do cinema pernambucano – lutava para transcrever todos seus trabalhos em Super 8, 16 mm e 35 mm para o formato de vídeo digital. Após algumas promessas, seu sonho acaba de se realizar por meio da produção do documentário Paixão de Cinema.

   O vídeo, que começa a ser finalizado na próxima semana pelo diretor Marcílio Brandão, da produtora Página 21, conta a vida e trajetória do jornalista que fez do cinema sua paixão. Além de depoimentos de conhecedores da filmografia de Spencer, o documentário contará ainda com trechos de seus trabalhos. Foi aí que surgiu a idéia de digitalizar não apenas fragmentos, mas praticamente toda a obra do autor, num total de 29 filmes.

   “Sempre pensei, tentei (digitalizar). Mas era difícil porque dependia de concurso”, afirma Spencer, de 78 anos. Ele conta que uma parte expressiva de seus trabalhos foram realizados em Super 8, bitola com filme positivo que, em geral, não possui cópias. Realizados nos anos de 1970, os curtas-metragens, com a ação do tempo, perdem as cores e se estraga. “Todo o material negativo (16 mm e 35 mm) também corre o risco porque não tenho ambiente ideal para a preservação.”

   O desejo do cineasta acabou se concretizando por ‘vias tortas’ – como, aliás, não é raro ocorrer na luta de artistas para fazer manter viva a produção de cinema em Pernambuco. Em 2002, quando o principal evento do audiovisual do Estado ainda era chamado Festival de Cinema Nacional do Recife, Marcílio Brandão teve seu curta-metragem Tejucupapo – documentário sobre a vida das mulheres da vila homônima no município de Goiana – como um dos mais aclamados daquela edição, no Cine-teatro dos Guararapes. No ano seguinte, viu-se surpreso ao saber que as mostras competitivas de curtas em 16 mm e animação e documentários em 35 mm do rebatizado Cine PE: Festival do Audiovisual haviam sido segregadas para um horário menos nobre (15h).

   “Na época, escrevi um texto para o site da Página 21 que terminava dando um viva a Fernando Spencer”, lembra Marcílio. O protesto lhe deu, ao mesmo tempo, um insight: “Por que não fazer um filme sobre Spencer?”.

   O justo tributo é somado a uma série de homenagens que o veterano (e ativo) cineasta vem recebendo nos últimos anos. Em 2003, por exemplo, quando começou a articular a digitalização de seus filmes, Spencer foi o homenageado da 2ª Mostra do Filme Livre, no Rio de Janeiro. No ano passado, foi reverenciado no Baile dos Artistas e no 1º Panorama Documentário do Recife, além de ter seus trabalhos reexibidos em mostras especiais (duas delas para ilustrar o documentário de Marcílio).

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Cineasta ficará com 29 de seus filmes em DVD

   Aprovado pelo Funcultura, o documentário Paixão de Cinema, de Marcílio Brandão, foi todo rodado em 2004 e conta com depoimentos de personalidades que acompanham a trajetória de Fernando Spencer além, é claro, de seqüências de alguns de seus 42 trabalhos, 29 dos quais foram digitalizados na íntegra e serão entregues em DVD ao autor após a finalização do vídeo.

   Na busca pelo resgate da obra de Spencer, Marcílio conta que visitou algumas locações de filmes rodados há mais de 25 anos e se surpreendeu com situações, no mínimo, inusitadas. No Alto do Moura, em Caruaru, por exemplo, registrou o reencontro de Spencer com um ceramista, personagem do curta-metragem Adão Foi Feito de Barro (1978). Sem avisar, o cineasta levou fotos que havia prometido do artista caruaruense quando rodou seu filme, nas quais ambos aparecem. Revendo Adão, Marcílio também achou curioso o fato de as reivindicações dos ceramistas do Alto do Moura serem as mesmas de 26 anos atrás, quando mostradas por Spencer.

   Paixão de Cinema revisita ainda locações como o Capibaribe, rio mostrado no curta homônimo, de 1982, e a cinemateca da Fundação Joaquim Nabuco, na unidade de Apipucos, que o homenageado ajudou a criar.

   A seleção da obra de Fernando Spencer, digitalizada nos Estúdios Mega por encomenda da Página 21, foi realizada pelo próprio autor, que deixou de fora apenas trabalhos que considera muito experimentais – como o primeiro de todos, A Busca (1969) – ou outros que ganharam remake, a exemplo de O Teu Cabelo Não Nega, rodado em Super 8 nos anos 70 e cujo material passou a integrar o recente vídeo Os Irmãos Valença.

   Aposentado do jornalismo, mesmo tendo sofrido um infarto há um ano e meio Spencer continua com a empolgação de um iniciante. Seus próximos projetos são o de reunir no livro O Viajante da Fantasia sessenta de suas reportagens publicadas entre 1958 e 1998, e realizar os curtas Nossos Ursos Camaradas, sobre o tradicional personagem carnavalesco pernambucano, Almery: A Estrela, biografia da famosa atriz do Ciclo do Recife, e a ficção O Dia em que Lampião Enfrentou John Wayne.

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Lista de curtas no Cine PE totaliza 32

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» Confira a lista completa com os selecionados
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Dos 104 filmes inscritos no Cine PE Festival do Audiovisual, que acontece em abril, no Recife, 32 são curtas-metragens e oito deles são pernambucanos

   Após o anúncio, na semana passada, da lista de vídeos digitais pernambucanos que competirão na nona edição do Cine PE Festival do Audiovisual, sai agora os títulos que irão disputar o troféu Calunga na Mostra Competitiva de Curtas-Metragens (16mm e 35mm). Dos 104 filmes inscritos, 32 curtas – 25 pela bitola 35mm e 7 em 16mm – foram selecionados para compor a grade de programação nobre e serem exibidos de 13 a 19 de abril, a partir das 18h30, no Teatro Guararapes, no Centro de Convenções de Pernambuco, logo depois da Mostra de Vídeos Digitais Pernambucanos (veja lista ao lado).

   Entre os títulos concorrentes, oito são pernambucanos: Entre Paredes, com direção de Eric Laurence, Exito d’Rua, de Cecília Araújo, Fuloresta do Samba, de Marcelo Pinheiro, O Mundo é uma Cabeça, de Cláudio Barroso e Bidu Queiroz, Véio, de Adelina Pontual, Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, e Da Janela do Meu Quarto, do mineiro Cao Guimarães, produzido e inscrito pela pernambucana REC Produtores. Todos os filmes locais concorrem sob a bitola 35mm, exceto o curta O Homem da Mata, dirigido por Antônio Luiz Carrilho, o único em 16mm. Os demais curtas são originários do Rio de Janeiro, com sete filmes, São Paulo, com quatro, Paraíba, Minas Gerais, Paraná, Ceará e o Distrito Federal, com dois concorrentes, por Estado, e Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Bahia, com um filme, cada, no páreo.

   Os curtas em 16mm – cinco ficção, um animação e um documentário - concorrerão a cinco prêmios oficiais: Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Fotografia e Montagem. Já as películas em 35mm (13 ficção, nove documentário e três em animação) vencedoras serão agraciadas com 12 prêmios: Melhor Filme de Ficção, Animação, Documentário, Diretor, Roteiro, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Trilha Sonora, Direção de Arte, Ator e Atriz. A comissão que selecionou os curtas é formada pelo jornalista, professor e crítico de cinema, Alexandre Figueirôa, o professor e jornalista Sérgio Soares e o publicitário Gustavo Verçosa.

   Já a comissão que vai julgar as películas concorrentes tem como participantes o jornalista carioca Carlos Augusto Dauzacker, diretor da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica para a América Latina e do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, o cineasta paulista César Cavalcante, o curta-metragista brasiliense Ítalo Cajueiro (O Lobisomem e O Coronel e A Moça que Dançou Depois de Morta), e a atriz paraibana Soia Lira (Abril Despedaçado, Central do Brasil, O Quinze).

   A escolha dos longas-metragens resultará de convite direto da produtora do evento. A diretora do Cine PE, Sandra Bertini, antecipa que “deverá haver entre 20 e 25 títulos para escolha, o que vai garantir uma safra de filmes quase toda inédita para a próxima edição”. O resultado da seleção dos longas será divulgado no início do próximo mês. A íntegra do regulamento das mostras-competitivas do Cine PE 2005 pode ser acessada no site do evento (www.cine-pe.com.br). Como é praxe do festival, os ingressos serão vendidos antecipadamente, já a partir do dia 15 deste mês, e nos dias do evento, nas bilheterias do Cecon, a partir das 17h. Os preços serão os mesmos da edição passada: R$ 6,00 (inteira) e R$ 3,00 (meia).

   Segundo a diretora do Cine PE, deverão ser exibidos por noite, durante a semana do festival, oito filmes, sendo três vídeos, quatro curtas e um longa-metragem, com 20 minutos da grade destinados apenas para os vídeos digitais. A previsão de término das exibições das mostras-competitivas é de meia-noite. A programação do final de semana (sexta/15, sábado/16 e domingo/17) deverá ganhar mais um longa e, portanto, entrar pela madrugada. O tema da edição deste ano será “Música e Cinema. Magia e Paixão”, evidenciando duas das mais fortes vocações culturais da capital pernambucana.

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Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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