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 Maria em linhas retas

13/03/2005

Maria Bethânia e o cenário de inspiração geométrica
 

Daniela Name

   O show alardeado como uma homenagem a Vinicius de Moraes é na verdade a celebração do tempo: de volta ao palco do Canecão, Maria Bethânia faz um acordo com este “senhor tão bonito”, para contar, orgulhosa, seus 40 anos de carreira. E a moldura escolhida pela diretora Bia Lessa e pela cenógrafa Daniela Thomas para o tempo é tão abstrata quanto ele. O cenário de “Tempo tempo tempo tempo”, para surpresa dos que esperavam ver a cantora no universo rústico e barroco de “Brasileirinho”, seu último show, é construído com as linhas retas da geometria. Não uma geometria aleatória: mexendo-se atrás de Bethânia, quadrados, retângulos e círculos sugerem semelhanças com pinturas e esculturas de alguns dos nomes mais importantes da arte contemporânea mundial.

   Há referências que vão de Volpi a Malevitch; de Hélio Oiticica a Jesús Soto; de Torres-García a Amilcar de Castro. À exceção de Malevitch — um dos pioneiros do construtivismo russo e espécie de “pai de todos” nesta lista — os outros artistas fizeram parte de movimentos de vanguarda no Brasil e na América Latina. Eles acreditavam que a simplicidade geométrica, aliada a cores básicas e pequenos truques óticos, poderia ajudar a levar a arte para a rua e para os leigos.

Geometria e ilusão fazem cenário dançar



   Também acreditavam que, assim, a arte poderia estimular a imaginação. Tudo isso começou a acontecer no fim dos anos 50 — mesmo período em que a bossa nova de Vinicius de Moraes (olha ele aí de novo!) tentava fazer o mesmo casamento entre a sofisticação e o popular. E o movimento atingiu seu auge nos anos 60, justamente quando Bethânia pisava no palco pela primeira vez. Bingo.

   — Meu olho é geométrico, sou apaixonada por isso e fui formada vendo as capas da revista “Senhor” — conta Daniela Thomas. — As capas dos discos de bossa nova foram muito influenciadas pela proposta artística daquele tempo.

   O show começa com um fundo escuro, sem qualquer elemento. Depois do prólogo, com “Modinha” e “Oração ao tempo”, ela canta “O astronauta”, de Baden Powell e Vinicius, e “Nossos momentos”, de Caetano Veloso (“Rodando a minha saia/ Eu comando os ventos”...). A flutuação do astronauta e o movimento da saia rodada começam a ser sugeridos pelo pano negro do fundo. Que deixa de ser uma imagem-zero para, como um pêndulo, revelar e encobrir retângulos brancos, que parecem se mexer. Lembra os trabalhos alvinegros de Volpi e, sobretudo, os “Metaesquemas”, de Hélio Oiticica. Inventor dos “Parangolés”, espécie de “pintura para vestir”, Oiticica fez com os “Metaesquemas” a primeira tentativa de libertar a pintura do plano, para que ela dançasse no espaço. Quem olha a geometria irregular destes trabalhos vê que eles vão se revelando aos poucos. Exatamente como o cenário de Bethânia.

(© O Globo)


Cenário ganha corpo com ‘Carcará’



   Retângulos e quadrados ainda são frágeis, de tecido, na seqüência de canções sobre as dores de amor do primeiro ato. Durante o módulo com “Você vai ficar na saudade”, de Benito de Paula; “Volta por cima”, de Paulo Vanzolini, e “Pode vir quente que eu estou fervendo”, de Roberto e Erasmo Carlos, o cenário se ilumina de vermelho e vira um “coração do tamanho de um trem”.

   No segundo ato, a geometria ganha corpo e se transforma em luminárias gigantes. Não por acaso, a mudança ocorre na canção com que Bethânia também ganhou corpo: “Carcará”, sua estréia no palco.

   O vermelho volta para falar da relação da cantora com os ritmos nordestinos e o rock. Ela canta “Baioque”, baião-rock de Chico Buarque; “Gita”, de Raul Seixas; e “Berceuse criolle”, de Waly Salomão e Jards Macalé, enquanto as formas dançam no fundo do palco. O balé escarlate do cenário lembra obras de Malevitch, como “Pintura suprematista”, e de construtivistas brasileiros como Milton Dacosta ou Franz Weissmann.

   A transição para o próximo momento é feita com “Felicidade”, de Lupicínio Rodrigues. Enquanto a platéia ouve “Felicidade foi-se embora/ E a saudade no meu peito ainda mora”, um pequeno quadrado se desloca do bloco de figuras vermelhas para o outro lado do palco. O quadrado retirado e o vazio deixado por ele mostram uma das marcas da abstração geométrica. Os artistas chamavam o vazio deixado pela figura de “vazio ativo” e acreditavam que o espectador poderia completar visualmente aquela forma através da imaginação, já que sabia que o lugar dela era ali.

   Mais ou menos como a sensação deixada pela saudade na letra de Lupicínio. Nas artes plásticas, este jogo entre cheio e vazio aparece nas obras de Willys de Castro e nas esculturas de Amilcar de Castro. Que a diretora Bia Lessa, aliás, acha que são a cara de Bethânia.

   — Ela é como as peças do Amilcar, ferro e delicadeza. Uma rocha sutil — diz Bia. — Alguns estranharam porque o cenário não é rústico, mas a platéia adora. Tudo foi pensado a partir da escolha de Vinicius.

   Uma “escada” luminosa ganha o palco no fim do show, quando Bethânia pede passagem a seus mestres e afetos em “Samba da bênção”. A peça lembra obras em que a geometria é arranjada de forma irregular, para criar ilusão de movimento, como nas do venezuelano Jesús Soto e do brasileiro Luís Sacilotto.

   “Deixa” é a última canção antes do bis. A esta altura, mesmo quem estranhou o cenário já se rendeu a Bethânia. Já quem gostou pode até cantar mais forte: “Deixa, fale quem quiser falar, meu bem”...

(© O Globo)

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