Daniela Name
O show alardeado como uma homenagem a Vinicius de Moraes é na verdade a
celebração do tempo: de volta ao palco do Canecão, Maria Bethânia faz um acordo com este “senhor tão bonito”, para
contar, orgulhosa, seus 40 anos de carreira. E a moldura escolhida pela
diretora Bia Lessa e pela cenógrafa Daniela Thomas para o tempo é tão
abstrata quanto ele. O cenário de “Tempo tempo tempo tempo”, para surpresa
dos que esperavam ver a cantora no universo rústico e barroco de
“Brasileirinho”, seu último show, é construído com as linhas retas da
geometria. Não uma geometria aleatória: mexendo-se atrás de Bethânia,
quadrados, retângulos e círculos sugerem semelhanças com pinturas e
esculturas de alguns dos nomes mais importantes da arte contemporânea
mundial.
Há referências que vão de Volpi a Malevitch; de Hélio Oiticica a Jesús Soto;
de Torres-García a Amilcar de Castro. À exceção de Malevitch — um dos
pioneiros do construtivismo russo e espécie de “pai de todos” nesta lista —
os outros artistas fizeram parte de movimentos de vanguarda no Brasil e na
América Latina. Eles acreditavam que a simplicidade geométrica, aliada a
cores básicas e pequenos truques óticos, poderia ajudar a levar a arte para
a rua e para os leigos.
Geometria e ilusão fazem cenário dançar

Também acreditavam que, assim, a arte poderia estimular a imaginação. Tudo
isso começou a acontecer no fim dos anos 50 — mesmo período em que a bossa
nova de Vinicius de Moraes (olha ele aí de novo!) tentava fazer o mesmo
casamento entre a sofisticação e o popular. E o movimento atingiu seu auge
nos anos 60, justamente quando Bethânia pisava no palco pela primeira vez.
Bingo.
— Meu olho é geométrico, sou apaixonada por isso e fui formada vendo as
capas da revista “Senhor” — conta Daniela Thomas. — As capas dos discos de
bossa nova foram muito influenciadas pela proposta artística daquele tempo.
O show começa com um fundo escuro, sem qualquer elemento. Depois do prólogo,
com “Modinha” e “Oração ao tempo”, ela canta “O astronauta”, de Baden Powell
e Vinicius, e “Nossos momentos”, de Caetano Veloso (“Rodando a minha saia/
Eu comando os ventos”...). A flutuação do astronauta e o movimento da saia
rodada começam a ser sugeridos pelo pano negro do fundo. Que deixa de ser
uma imagem-zero para, como um pêndulo, revelar e encobrir retângulos
brancos, que parecem se mexer. Lembra os trabalhos alvinegros de Volpi e,
sobretudo, os “Metaesquemas”, de Hélio Oiticica. Inventor dos “Parangolés”,
espécie de “pintura para vestir”, Oiticica fez com os “Metaesquemas” a
primeira tentativa de libertar a pintura do plano, para que ela dançasse no
espaço. Quem olha a geometria irregular destes trabalhos vê que eles vão se
revelando aos poucos. Exatamente como o cenário de Bethânia.
(©
O Globo)
Cenário ganha corpo com ‘Carcará’

Retângulos e quadrados ainda são frágeis, de tecido, na seqüência de canções
sobre as dores de amor do primeiro ato. Durante o módulo com “Você vai ficar
na saudade”, de Benito de Paula; “Volta por cima”, de Paulo Vanzolini, e
“Pode vir quente que eu estou fervendo”, de Roberto e Erasmo Carlos, o
cenário se ilumina de vermelho e vira um “coração do tamanho de um trem”.
No segundo ato, a geometria ganha corpo e se transforma em luminárias
gigantes. Não por acaso, a mudança ocorre na canção com que Bethânia também
ganhou corpo: “Carcará”, sua estréia no palco.
O vermelho volta para falar da relação da cantora com os ritmos nordestinos
e o rock. Ela canta “Baioque”, baião-rock de Chico Buarque; “Gita”, de Raul
Seixas; e “Berceuse criolle”, de Waly Salomão e Jards Macalé, enquanto as
formas dançam no fundo do palco. O balé escarlate do cenário lembra obras de
Malevitch, como “Pintura suprematista”, e de construtivistas brasileiros
como Milton Dacosta ou Franz Weissmann.
A transição para o próximo momento é feita com “Felicidade”, de Lupicínio
Rodrigues. Enquanto a platéia ouve “Felicidade foi-se embora/ E a saudade no
meu peito ainda mora”, um pequeno quadrado se desloca do bloco de figuras
vermelhas para o outro lado do palco. O quadrado retirado e o vazio deixado
por ele mostram uma das marcas da abstração geométrica. Os artistas chamavam
o vazio deixado pela figura de “vazio ativo” e acreditavam que o espectador
poderia completar visualmente aquela forma através da imaginação, já que
sabia que o lugar dela era ali.
Mais ou menos como a sensação deixada pela saudade na letra de Lupicínio.
Nas artes plásticas, este jogo entre cheio e vazio aparece nas obras de
Willys de Castro e nas esculturas de Amilcar de Castro. Que a diretora Bia
Lessa, aliás, acha que são a cara de Bethânia.
— Ela é como as peças do Amilcar, ferro e delicadeza. Uma rocha sutil — diz
Bia. — Alguns estranharam porque o cenário não é rústico, mas a platéia
adora. Tudo foi pensado a partir da escolha de Vinicius.
Uma “escada” luminosa ganha o palco no fim do show, quando Bethânia pede
passagem a seus mestres e afetos em “Samba da bênção”. A peça lembra obras
em que a geometria é arranjada de forma irregular, para criar ilusão de
movimento, como nas do venezuelano Jesús Soto e do brasileiro Luís
Sacilotto.
“Deixa” é a última canção antes do bis. A esta altura, mesmo quem estranhou
o cenário já se rendeu a Bethânia. Já quem gostou pode até cantar mais
forte: “Deixa, fale quem quiser falar, meu bem”...
(©
O Globo)