A diretora Monique Gardenberg encena, no Rio, dois espetáculos
teatrais escritos por cineastas
Rachel Almeida
A cineasta, diretora e empresária baiana Monique Gardenberg, 46 anos,
conhece bem a rodovia Presidente Dutra, que liga o Rio de Janeiro a São
Paulo. Conseqüência de quem divide a vida entre as duas cidades e
confessa morrer de medo de avião. No momento, a residência da vez é o
apartamento no Jardim Botânico, onde ela se prepara para a temporada
carioca - e praticamente simultânea - dos dois (e únicos) espetáculos
teatrais que dirigiu ao longo de uma carreira marcada por atividades
plurais. A partir de amanhã, o épico do canadense Robert Lepage Os
sete afluentes do Rio Ota, que marcou seu début como diretora
de teatro, em 2002, volta ao cartaz no Rio, agora no Teatro do Leblon,
com elenco novo e grandes modificações. Cinco dias depois, ela confere,
no Centro Cultural Correios, a estréia de Baque, peça do
americano Neil LaBute que, depois de passar por palcos dos Estados
Unidos e da Europa, ganha sua primeira versão brasileira pelas mãos de
Monique.
- É engraçado porque os dois espetáculos foram
escritos por cineastas. Acho que acabo me conectando com esses
trabalhos, de alguma forma, pelo fato de também ser uma cineasta. Mas há
diferenças. Enquanto o Lepage é sucinto, mesmo levando horas para contar
uma saga, Neil LaBute é verborrágico. No entanto, os dois escrevem
textos extremamente poéticos e têm uma cabeça cinematográfica. As duas
peças poderiam render filmes - comenta a diretora dos longa-metragens
Jenipapo (1996) e Benjamim (2004), baseado em livro de Chico
Buarque, que revelou o talento de Cléo Pires.
Na primeira temporada carioca, em 2002, a peça Os
sete afluentes do Rio Ota se dividia em duas partes, apresentadas em
dias ou horários alternados. Na época, antes do Festival de Curitiba e
da estréia paulista, a diretora decidiu juntar a saga, que faz uma
reflexão sobre a última metade do século 20, em sete capítulos. Também
reformulou inteiramente o último capítulo, considerado confuso.
O resultado é um espetáculo de cinco horas que
envolve teatro, dança, canto lírico, canto popular, mágica, butoh e
teatro de sombras. No elenco atual, estão Caco Ciocler, Maria Luiza
Mendonça, Simone Spoladore, Beth Goulart e da cantora Katia B, entre
outros. Eles tiveram de aprender a falar francês, alemão, japonês e
ídiche, todos idiomas presentes na montagem, que conta com legendas.
Para a nova temporada no Rio, foram feitas outras modificações e
incluídas novas cenas.
- O Rio Ota acabou virando uma criação
coletiva do elenco comigo e com a Michele Matalon, que faz a co-direção.
Fomos incorporando coisas que não existiam na versão original, como a
cena em que os atores dançam ao som do Glenn Miller e a projeção de um
desenho japonês. Agora, com a entrada de Katia B para o papel da
cantora, houve uma outra mudança. Como ela demonstrou vontade de cantar
um pouco mais, incluí uma música que foi composta dentro do campo de
concentração de Terezín (na antiga Tchecoslováquia). Ela e, depois, todo
o elenco cantam em ídiche - diz Monique, que há dois anos iniciou a
batalha por patrocínio para trazer a peça de volta ao Rio.
Enquanto Rio Ota se desenrola na segunda
metade do século passado, a outra empreitada de Monique na direção
teatral se concentra em conflitos contemporâneos. Dividida em três
monólogos - Efigênia em Orem, Um bando de santos e
Medéia redux - de 35 minutos cada -, Baque reúne os atores
Deborah Evelyn, Emilio de Mello e Carlos Evelyn em situações
aparentemente normais, até que um fato inesperado surpreende o público e
muda o rumo da história.
Com uma lógica matemática, LaBute, diretor de Na
companhia de homens e Enfermeira Betty, brinca com o tempo,
omitindo e depois resgatando cenas da narrativa.
- LaBute costuma falar que, nas obras dele, o mal
foge um pouco do controle. Nestes três textos, o que ele faz é
apresentar três situações de grande familiaridade com as nossas vidas e,
de uma hora para outra, promover uma virada que o espectador sente quase
como uma traição. Ele manipula o espectador o tempo inteiro para que se
identifique com a história e, de repente, nos choca - avalia.
Mesmo atarefada e circulando mais pelas coxias do que
pelos sets de filmagem, Monique planeja um novo longa-metragem, ainda em
processo de desenvolvimento de roteiro. Na verdade, é a retomada de um
projeto iniciado em 1997, em parceria com a Fox americana, que acabou
cancelado depois que a irmã ficou doente - Sylvia Gardenber, que morreu
em 1998, vítima de câncer no pulmão. O trabalho é uma adaptação da tese
de doutorado da historiadora australiana Sophie Gelski, The couriers
(As mensageiras), sobre meninas judias que, durante a Segunda
Guerra Mundial, se faziam passar por arianas para ajudar os habitantes
do Gueto de Varsóvia.
- Eram meninas entre 14 e 23 anos que não aparentavam
ser judias, segundo os critérios estabelecidos pelos nazistas. Por isso,
foram treinadas para diferentes missões. No fim, armaram o gueto para o
levante de Varsóvia, transportando granada e dinamite na calcinha, por
exemplo - conta Monique que sonha em selecionar um elenco multiétnico,
reunindo atrizes brasileiras, argentinas e européias.
Mesmo com tantos projetos em andamento, Monique
garante que tem tempo livre para ler, gastar calorias nas aulas de
spinning ou ir ao cinema e ao teatro com o marido, o economista
Raymond Rebetez, que mora em São Paulo. Pelo menos enquanto não começam
os preparativos para o Tim Festival que, este ano, será realizado no
Rio. Sim, porque Monique, com sua empresa Dueto Produções, também é
responsável por um dos mais importantes eventos de jazz e música pop do
país.
(©
JB Online)