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 Dos sets para as coxias

13/03/2005

Leonardo Rozário

No seu apartamentono Jardim Botânico, Monique garante que tem tempo livre para ler, gastar calorias nas aulas de spinning ou ir ao cinema e ao teatro
 

A diretora Monique Gardenberg encena, no Rio, dois espetáculos teatrais escritos por cineastas

Rachel Almeida

   A cineasta, diretora e empresária baiana Monique Gardenberg, 46 anos, conhece bem a rodovia Presidente Dutra, que liga o Rio de Janeiro a São Paulo. Conseqüência de quem divide a vida entre as duas cidades e confessa morrer de medo de avião. No momento, a residência da vez é o apartamento no Jardim Botânico, onde ela se prepara para a temporada carioca - e praticamente simultânea - dos dois (e únicos) espetáculos teatrais que dirigiu ao longo de uma carreira marcada por atividades plurais. A partir de amanhã, o épico do canadense Robert Lepage Os sete afluentes do Rio Ota, que marcou seu début como diretora de teatro, em 2002, volta ao cartaz no Rio, agora no Teatro do Leblon, com elenco novo e grandes modificações. Cinco dias depois, ela confere, no Centro Cultural Correios, a estréia de Baque, peça do americano Neil LaBute que, depois de passar por palcos dos Estados Unidos e da Europa, ganha sua primeira versão brasileira pelas mãos de Monique.

   - É engraçado porque os dois espetáculos foram escritos por cineastas. Acho que acabo me conectando com esses trabalhos, de alguma forma, pelo fato de também ser uma cineasta. Mas há diferenças. Enquanto o Lepage é sucinto, mesmo levando horas para contar uma saga, Neil LaBute é verborrágico. No entanto, os dois escrevem textos extremamente poéticos e têm uma cabeça cinematográfica. As duas peças poderiam render filmes - comenta a diretora dos longa-metragens Jenipapo (1996) e Benjamim (2004), baseado em livro de Chico Buarque, que revelou o talento de Cléo Pires.

   Na primeira temporada carioca, em 2002, a peça Os sete afluentes do Rio Ota se dividia em duas partes, apresentadas em dias ou horários alternados. Na época, antes do Festival de Curitiba e da estréia paulista, a diretora decidiu juntar a saga, que faz uma reflexão sobre a última metade do século 20, em sete capítulos. Também reformulou inteiramente o último capítulo, considerado confuso.

   O resultado é um espetáculo de cinco horas que envolve teatro, dança, canto lírico, canto popular, mágica, butoh e teatro de sombras. No elenco atual, estão Caco Ciocler, Maria Luiza Mendonça, Simone Spoladore, Beth Goulart e da cantora Katia B, entre outros. Eles tiveram de aprender a falar francês, alemão, japonês e ídiche, todos idiomas presentes na montagem, que conta com legendas. Para a nova temporada no Rio, foram feitas outras modificações e incluídas novas cenas.

   - O Rio Ota acabou virando uma criação coletiva do elenco comigo e com a Michele Matalon, que faz a co-direção. Fomos incorporando coisas que não existiam na versão original, como a cena em que os atores dançam ao som do Glenn Miller e a projeção de um desenho japonês. Agora, com a entrada de Katia B para o papel da cantora, houve uma outra mudança. Como ela demonstrou vontade de cantar um pouco mais, incluí uma música que foi composta dentro do campo de concentração de Terezín (na antiga Tchecoslováquia). Ela e, depois, todo o elenco cantam em ídiche - diz Monique, que há dois anos iniciou a batalha por patrocínio para trazer a peça de volta ao Rio.

   Enquanto Rio Ota se desenrola na segunda metade do século passado, a outra empreitada de Monique na direção teatral se concentra em conflitos contemporâneos. Dividida em três monólogos - Efigênia em Orem, Um bando de santos e Medéia redux - de 35 minutos cada -, Baque reúne os atores Deborah Evelyn, Emilio de Mello e Carlos Evelyn em situações aparentemente normais, até que um fato inesperado surpreende o público e muda o rumo da história.

   Com uma lógica matemática, LaBute, diretor de Na companhia de homens e Enfermeira Betty, brinca com o tempo, omitindo e depois resgatando cenas da narrativa.

   - LaBute costuma falar que, nas obras dele, o mal foge um pouco do controle. Nestes três textos, o que ele faz é apresentar três situações de grande familiaridade com as nossas vidas e, de uma hora para outra, promover uma virada que o espectador sente quase como uma traição. Ele manipula o espectador o tempo inteiro para que se identifique com a história e, de repente, nos choca - avalia.

   Mesmo atarefada e circulando mais pelas coxias do que pelos sets de filmagem, Monique planeja um novo longa-metragem, ainda em processo de desenvolvimento de roteiro. Na verdade, é a retomada de um projeto iniciado em 1997, em parceria com a Fox americana, que acabou cancelado depois que a irmã ficou doente - Sylvia Gardenber, que morreu em 1998, vítima de câncer no pulmão. O trabalho é uma adaptação da tese de doutorado da historiadora australiana Sophie Gelski, The couriers (As mensageiras), sobre meninas judias que, durante a Segunda Guerra Mundial, se faziam passar por arianas para ajudar os habitantes do Gueto de Varsóvia.

   - Eram meninas entre 14 e 23 anos que não aparentavam ser judias, segundo os critérios estabelecidos pelos nazistas. Por isso, foram treinadas para diferentes missões. No fim, armaram o gueto para o levante de Varsóvia, transportando granada e dinamite na calcinha, por exemplo - conta Monique que sonha em selecionar um elenco multiétnico, reunindo atrizes brasileiras, argentinas e européias.

   Mesmo com tantos projetos em andamento, Monique garante que tem tempo livre para ler, gastar calorias nas aulas de spinning ou ir ao cinema e ao teatro com o marido, o economista Raymond Rebetez, que mora em São Paulo. Pelo menos enquanto não começam os preparativos para o Tim Festival que, este ano, será realizado no Rio. Sim, porque Monique, com sua empresa Dueto Produções, também é responsável por um dos mais importantes eventos de jazz e música pop do país.

(© JB Online)

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