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13/03/2005
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Na foto, alguns dos mais
importantes cineastas de Pernambuco
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Jaime
Biaggio
Segundo Cláudio Assis, diretor de
“Amarelo manga” e, em breve, de “Baixio das bestas”, só existe uma
explicação para a inédita efervescência que vive o cinema pernambucano.—
Pernambuco não tem salsinha. Nossas mães nos enchem de coentro desde
cedo e fica todo mundo doido — brinca ele. Doideira? Bom, então arrisque
você uma explicação. Porque a previsão é de sete novos longas-metragens
ao fim de 2005 (entre finalizados e rodados), além de cerca de 20
curtas, para um estado que ainda não tem faculdade de cinema e onde só
existe uma câmera 35mm.
Só com muito coentro. Bem, e
“Baile perfumado” também ajudou. O longa-metragem de 1997, de cuja
produção os oito diretores reunidos para a foto ao lado participaram de
uma forma ou de outra (Paulo Caldas e Lírio Ferreira o dirigiram,
Marcelo Pinheiro o produziu etc), fincou no mapa do cinema nacional dos
anos 90 a bandeira de Pernambuco, estado que, com todos os perrengues,
tem tradição na atividade (o ciclo do super-8, nos anos 70/80; o ciclo
do cinema mudo, nos anos 20). Não que tenha facilitado tanto as coisas
em termos práticos, mas gerou respeito.
— O cinema de Pernambuco teve
receptividade no resto do país sem um olhar condescendente, “bonzinho” —
diagnostica Hilton Lacerda, co-roteirista de “Baixio das bestas” e de
“Árido movie”, novo filme de ficção de Lírio Ferreira, que estará pronto
em junho, e co-diretor, com Lírio, do documentário “Cartola”, atualmente
em montagem e o primeiro filme de integrantes dessa turma cuja temática
se distancia de Pernambuco.
— Acabou a política do
“coitadinho”. O diálogo agora é de igual para igual — festeja Paulo
Caldas, que rodará seu “Deserto feliz” em Recife e no sertão
pernambucano, entre agosto e setembro.
Movimento, sim; “regional”, não
Em 1997 muito se falou país afora
de um cinema-mangue-bit, linkado com o movimento musical
impulsionado por Chico Science (tema do documentário “O mundo é uma
cabeça”, de Bidu Queiroz e Claudio Barroso, e, de alguma forma, também
de “Fuloresta do samba”, de Marcelo Pinheiro, sobre o novo trabalho de
Siba, ex-líder da banda Mestre Ambrósio, dois dos dez curtas
pernambucanos que estréiam nacionalmente em abril no Cine PE). Nem por
isso a coisa caminhou a passos largos. Em 2005, contudo, há uma política
federal de distribuição de recursos para o cinema além-Rio/São Paulo, e
isso já está fazendo diferença.
Em termos práticos, há “Árido
movie”, “Cinema, aspirinas e urubus”, de Marcelo Gomes, e o documentário
“Orange de Itamaracá”, de Franklin Júnior, Márcio Câmara e Osmar
Barbalho, ficando prontos este ano, e “Baixio das bestas”, “Deserto
feliz” e “O rochedo e a estrela”, este de Kátia Mesel, com filmagens
previstas para o segundo semestre. Em termos teóricos, há um compromisso
governamental que nasce na esfera federal e desce para a estadual. E em
que, pela primeira vez, os cineastas botam fé de verdade.
— Eles têm boa vontade e estão
abertos ao diálogo — aponta Cláudio Assis, falando do governo estadual.
— Cinco anos atrás, não apoiavam nada que não fosse folclórico. Deram R$
2.700 em três parcelas para “Amarelo manga”. Hoje, eles próprios
reconhecem que isso foi um erro.
O cinema que se faz hoje em
Pernambuco nem é folclórico nem é tudo a mesma coisa. Por isso, embora
dê para usar a palavra “movimento” (todos são amigos, uns colaboram nos
filmes dos outros), eles desconfiam um pouco dela. Temem que gere uma
simplificação a partir do termo “regional”.
— Uma vez, num debate,
perguntaram-me se eu fazia um cinema regional. Eu me senti uma tapioca —
brinca Marcelo Gomes. — É apenas que se estabeleceu um desenho de
produção adequado à realidade de Pernambuco.
— Criou-se uma escola de cinema
informal, com uns trabalhando nos filmes dos outros — complementa Paulo
Caldas. — O resultado é que, de 2000 para cá, já dá para se filmar em
Pernambuco sem ter a necessidade de “importar” profissionais de outros
estados.
Três anos antes de “Baile
perfumado”, segundo Lírio Ferreira, já havia um prenúncio do efeito que
aquele filme teria, nos curtas “That’s a lero-lero”, dele e de Amin
Stepple, “Maracatu, maracatu”, de Marcelo Gomes, e “Cachaça”, de Adelina
Pontual, todos de 1994. Representaram uma experiência comum, o
desenvolvimento de um olhar cinematográfico e... quem sabe algo mais?
— Taí , são estes os
elementos do cinema pernambucano: lero-lero, maracatu e cachaça — brinca
Lírio Ferreira. — E o coentro.
Coentro, eles que dizem. Mas de
lero-lero e cachaça (chope, para ser exato) a turma gosta. A entrevista
acaba. O papo dos oito, numa noite de quarta-feira no Baixo Gávea, não.
Permanecem lá, bebendo, conversando e comemorando a rara reunião de
tantos deles e os filmes que vêm por aí.
(©
O Globo) |
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