Aos 61 anos, o músico diz que nunca
gostou tanto de fazer shows e mostra sua plenitude no palco
Alice Granato, do Rio
O caminho para chegar à casa do compositor Edu Lobo revela alguns
traços de sua personalidade. Um lugar reservado, cercado de verde. Ao
mesmo tempo singelo e de rara sofisticação. Sua música é pura tradução
desse universo. Em plena temporada de shows, ele acaba de retornar ao Rio
de Janeiro, no Mistura Fina, recém-chegado de Portugal, onde fez um
espetáculo para mil pessoas e foi aplaudido por mais de dez minutos no
final. Animou-se com o sucesso e deve voltar à Europa para novas
apresentações. Paralelamente, Edu participou ativamente do relançamento de
O Grande Circo Místico, uma de suas mais importantes parcerias com
Chico Buarque. Recuperado de um aneurisma cerebral que teve no fim do ano
passado, ele mantém a forma correndo na esteira e se orgulha de sua
geração. ''Hoje, pessoas de 60 anos saem de casa, fazem exercício, se
cuidam. E música também faz bem à saúde'', vibra.
Aos 61 anos, o músico diz que nunca teve tanto
prazer em fazer shows e mostra sua plenitude no palco com
apresentações no Brasil e no exterior
ÉPOCA: Como está sendo sua volta aos palcos?
Edu Lobo: Hoje em dia para mim é muito bom fazer show, eu
gosto. Tenho agora um repertório que me interessa mostrar, de
todas as épocas, eu me sinto bem, por isso estou fazendo. Quando
estou no palco, aproveito. Estou pleno.
ÉPOCA: Nesta temporada de shows você está
demonstrando grande prazer de estar no palco, não?
Edu Lobo: O palco já foi uma coisa que eu não gostava, que
incomodava, atrapalhava a vida, a coisa de compor. Hoje em dia é
bem natural.
ÉPOCA: Você fez shows em São Paulo, no Rio
(que volta agora) e também na Europa, como tem sido?
Edu Lobo: Ótimo! Passei por Recife, Porto Alegre, vários
lugares. Palcos diferentes, tamanhos diferentes. Acabei de chegar
de Lisboa, fiz um show em um lugar enorme, um teatro do Centro
Cultural Belém, foi muito bonito lá, bonito de verdade. O teatro
tem 1200 lugares, é lindo, supernovo, superbacana. Foi muito bom
fazer. Hoje em dia faço show com prazer, me divirto. Sinto prazer,
é engraçado.
ÉPOCA: No final do seu show em Portugal você
foi aplaudido por mais de dez minutos no teatro. Como foi isso?
Edu Lobo: Gosto muito de teatro. Acho um lugar maravilhoso
para fazer show. Porque as pessoas vão lá para isso. Não posso nem
falar do silêncio, porque o público tem sido tão respeitoso com
este espetáculo. Não tive problema nenhum. As pessoas tomam
uísque, mas se você reparar no show não tem barulho de gelo, o que
é uma coisa muito boa para quem está ali em cima. Porque às vezes
atrapalha, dispersa, você ouve alguém sussurrando, se
desconcentra, mas o público tem sido maravilhoso. Se as pessoas te
respeitam, ficam quietas, você pode mostrar o que quer, da melhor
maneira. Mas tem sido bom em qualquer lugar.
ÉPOCA: Você aumentou o show para esta nova
temporada, não?
Edu Lobo: Sim, de dezesseis músicas cresceu para dezenove,
fora o bônus... Eu gosto muito quando alguém reclama que o show
está curto. Pior seria se falassem que está longo. A sensação de
coisa pequena eu nunca esqueci, quando vi o Poderoso Chefão I, daí
quando tem o dois você vai correndo assistir. Filme chato depois
de meia hora você acha que já passaram sete...
ÉPOCA: Você costuma ficar nervoso antes dos
shows?
Edu Lobo: Fico o suficiente para começar a fazer. Não ficar
nada nervoso não é bom. Uma adrenalina faz bem. Quando entro no
palco começa a melhorar. O único jeito de resolver o problema é
entrando. A reação do público determina tudo. Perceber que estão
acompanhando, pedindo coisas, isso é muito bom.
ÉPOCA: Você parece gostar muito de estar em
casa...
Edu Lobo: Na minha vida, eu sempre priorizei a composição, sou
um compositor. Quando tenho projetos seguidos, grudados, por
questão de falta de tempo mesmo, eu não faço nada no palco, não é
que não seja importante. Mas existem prioridades quando você faz
muitas coisas. Quando aparecem uns trabalhos grandes, de
encomenda, vou ficando em casa mesmo, compondo.Eu não sei muito
misturar essas coisas, quando estou em casa estou em casa. Faço
força para permanecer compondo, é o que eu mais gosto de fazer, e
acho também que é o melhor que posso entregar para as pessoas.
ÉPOCA: Você vai assistir shows de amigos?
Edu Lobo: Saio de casa muito raramente. Apenas para jantar,
encontrar amigos, sou mais caseiro. Não sou muito de festa.
ÉPOCA: Que tipo de música você ouve?
Edu Lobo: Ouço tudo que chega às minhas mãos, que vou
descobrindo nas lojas. Muito jazz, música brasileira, clássico.
ÉPOCA: Você sempre fala que admira os
inventores de música, os compositores que criam uma marca. Há uma
nova safra desses músicos?
Edu Lobo: Eu tenho problemas com essa coisa de citação, porque
toda vez que cito, acabo esquecendo alguém. Mas com certeza há
muitos inventores de música popular brasileira em todas as épocas,
desde de gerações de mais de 30 anos do que eu, passando pela
minha, indo para as novas gerações. Essas pessoas são as que me
interessam mais: as que inventam, que tem um som, uma
personalidade e uma assinatura. Você ouve uma música do Gershwin e
sabe que é dele. Do Tom a mesma coisa. Tem essas marcas que são
muito profundas e muito interessantes mesmo. Acho que foi isso que
eu procurei a vida inteira para mim. Pessoas que criam, que
inventam. Gente que você olha a música e diz: essa música só pode
ser deste compositor. E isso não tem nada a ver com talento
comercial. É um tipo de composição que perdura, que fica para
sempre. São pessoas raras na música. De maneira geral, não é só
popular não, música clássica, jazz. Em todos os gêneros têm os
seus inventores.
ÉPOCA: Você já declarou que gosta de
trabalhar sob pressão, é isso mesmo?
Edu Lobo: Se não tiver a data para entregar, a gente não
entrega. Mas quando dão o prazo, ele nunca é curto. Não existe
prazo curto. Quando você se interessa, passa viver o dia inteiro
pensando nisso.
ÉPOCA: O que te inspira?
Edu Lobo: Vejo essa questão de forma menos mística, menos
misteriosa. Aquela coisa de estar dirigindo e, de repente, vir uma
melodia na cabeça, isso nunca aconteceu comigo. Deve ser uma
maravilha, sei que existe, não existe para mim. Minha inspiração é
me concentrar, procurar pensar em alguma coisa.
ÉPOCA: Você tem novas composições no momento?
Edu Lobo: Não, tenho coisas que sobraram que estão sem
letra...Cantando a música se percebe para que parceiro pode ir a
letra. A música é que manda, ela que diz.
ÉPOCA: Tem algum novo parceiro em vista?
Edu Lobo: No momento, não. Os parceiros que tenho trabalhado
são mais ou menos os mesmos. Não é impossível surgir um parceiro
novo, mas não tenho nenhuma idéia disso.
ÉPOCA: É mais difícil para os músicos de
agora fazer sucesso do que foi para a sua geração?
Edu Lobo: Bem mais difícil. A conversa entre artistas e a
gravadora hoje em dia é mais complicada do que, por exemplo, nos
anos 60. Entrar numa gravadora era uma coisa quase que natural, as
pessoas já tinham ouvido falar de você, das suas músicas, não
precisava fazer um plano de marketing para ver quantos discos que
iam vender. Não era feito produto. Quando eu comecei vi todo mundo
chegando, de vários lugares.Pessoas muito boas eram imediatamente
contratadas. Hoje em dia não é mais assim. Você pode ser muito bom
e não ter uma gravadora atrás de você. Acontece muito, quase todas
as vezes. É preciso alguém que descubra um ponto comercial. Tem
vários selos fazendo isso na medida do possível. Os selos cuidam
muito mais dos discos do que as grandes gravadoras, isso eu tenho
percebido.
ÉPOCA: A sua geração de músicos está bem,
todos brilhando, saudáveis, não acha?
Edu Lobo: Mais ou menos, né? (risos). Quando eu tinha 20 anos
e alguém ia fazer 40 me dava uma certa pena. Coitado está fazendo
40 anos... Cinqüenta era já meio punk, sessenta, então, já foi.
Essa relação está diferente, ainda bem... As coisas mudaram, as
pessoas mudaram de comportamento em relação a muitas coisas.
Pessoas de sessenta anos saem de casa, vão correr na esteira,
fazem exercício, cuidam da saúde. Acho que é por isso. E música
também faz bem à saúde.
ÉPOCA: Que esporte você faz?
Edu Lobo: Corro na esteira, numa academia com ar condicionado.
Apesar de ser chato, eu prefiro porque não lesiona o joelho, dá
para controlar a velocidade, a pulsação. Faço isso de quatro a
cinco vezes por semana, me faz bem.
ÉPOCA: O que te dá prazer hoje na vida?
Edu Lobo: Além de ouvir música? Adoro cinema (prefiro ver em
casa do que nas salas), gosto muito de jantar fora e viajar. Fora
do Brasil é muito bom, mas por aqui também.
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Lançamento
O Grande Circo Místico
Autores
Edu Lobo e Chico Buarque
Gravadora
Dubas Music
Preço
R$ 30 |
(©
O Globo)
Obra-prima teatral
O Grande Circo Místico é um modelo de exceIência do
musical brasileiro
LUÍS ANTÔNIO GIRON

A reedição da trilha do musical O Grande Circo Místico traz quatro faixas
instrumentais inéditas no LP original, de 1983. Foram acrescentadas em 2002,
numa edição limitada. A peça conta com músicas de Edu Lobo e letras de Chico
Buarque. Algumas das melhores canções atribuídas apenas a Chico têm o toque
musical de Edu. O exemplo é ''Beatriz'', lançada na voz de Milton
Nascimento.
O CD, remasterizado em esmerada edição, traz a inédita execução
de ''Beatriz'', com Tom Jobim ao piano. As 16 faixas compõem um painel
inquieto do estado das artes nos anos 80. As canções interpretadas por Gal
Costa, Zizi Possi, Jane Duboc e Tim Maia vêm emolduradas por prelúdios
instrumentais mostrados pela primeira vez. O destaque é a hilária ''Dança
dos Banqueiros'', para percussão e cordas, que lembra o modernista Igor
Stravinski.
A partitura mostra que Edu integra uma linhagem rara na música
popular, a do maestro-arranjador capaz de compor canções definitivas. O
álbum é essencial para quem gosta da grande arte do Brasil.
(©
O Globo)