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 Em nome do real

24/03/2005

Cena de "Edificio Master", de Eduardo Coutinho
 

O documentarista Eduardo Coutinho fala do seu novo projeto, “O fim e o princípio", e revela seus métodos de filmagem; "Edifício Master" chega ao DVD

Por Fernando Masini

   Apesar de iniciar a carreira no cinema escrevendo roteiros e dirigindo filmes de ficção, Eduardo Coutinho tornou-se notório pela forma como consegue arrancar confissões ao registrar a realidade. É impressionante como a maioria dos entrevistados por ele mostra-se à vontade diante das câmeras. Anunciam sem relutância aparente as mais íntimas revelações. E chegam a emocionar pela espontaneidade do relato, caso do personagem que canta Frank Sinatra em "O Edifício Master", que será lançado neste mês em DVD pela Videofilmes. O seu grande trunfo, segundo o próprio Coutinho, é tratar cada entrevista como se fosse o primeiro encontro, jamais participar da pesquisa prévia. "É óbvio que o cara não vai repetir a mesma história para a mesma pessoa", diz.

   Artimanhas acumuladas durante uma vasta carreira dedicada ao cinema. Desde pequeno, em São Paulo, assistia a tudo o que pintava pela frente. Cursou direito até o segundo ano, quando abandonou a faculdade. Em 1959, embarcou para um congresso da juventude comunista em Moscou. Foi parar na França, onde estudou no Idhec (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos), a mesma escola onde se formou Alain Resnais.

   Em 1962, foi morar no Rio de Janeiro e participou como gerente de produção da filmagem de "Cinco vezes favela", projeto patrocinado pelo Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE), que retratou, em cinco episódios, o cotidiano em favelas cariocas. Infiltrado na comitiva que percorreu os grandes centros universitários do país -iniciativa conhecida como UNE Volante-, Coutinho deparou-se com a história de um líder camponês assassinado em Sapé, na Paraíba.

   Esse foi o mote para ele iniciar "Cabra marcado para morrer", que deveria ser o seu primeiro longa-metragem. Com pouco mais de uma hora de negativos em 35 mm, o filme foi abortado em decorrência do golpe de 64. O projeto só seria retomado décadas depois. O filme chegou às telas pela primeira vez em 84, na Cinemateca Brasileira.

   Nesse entretempo, Coutinho permaneceu três anos no “Caderno B” do “Jornal do Brasil”, e trabalhou, a partir de 1975, como redator, editor e diretor do “Globo Repórter”.

   Ao ser retomado na década de 80, o projeto de "Cabra marcado para morrer" seguiu novo rumo: passou a contar a peregrinação de Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês morto, em busca dos filhos, ao mesmo tempo em que registrava a procura do diretor pelos atores não-profissionais que haviam participado da filmagem dos anos 60.

   O filme teve recepção calorosa da crítica e do público. No Festival de Havana, abocanhou o prêmio de melhor documentário. Coutinho deixou o “Globo Repórter” em 1984 e concentrou-se em projetos pessoais para vídeo e cinema. Entre eles, vale destacar "Boca de Lixo" (1992), vídeo filmado no lixão de São Gonçalo, e "Santo Forte" (1999), longa em película rodado na favela carioca Vila Parque da Cidade e cujo tema é a religiosidade dos moradores.

   Fiel ao lema de trabalhar sempre numa "prisão espacial", Coutinho resolveu alugar um apartamento num prédio de Copacabana, onde moram aproximadamente 500 pessoas, e fazer dessa convivência um filme. Realizou em 2002 "Edifício Master" e conseguiu a proeza de levar 85 mil pessoas às salas de cinema para assistir a um documentário.

   Apesar de ser bastante cético quanto ao êxito de certos documentários e achar o cinema documentário um gênero marginal que não terá grandes mudanças no futuro, Eduardo Coutinho, aos 72 anos, não pensa em mudar de profissão. Na conversa que tivemos em seu apartamento, no Jardim Botânico, o principal documentarista brasileiro, disse que prefere o presente a ficar remoendo o passado, mas aceitou falar sobre tudo que lhe foi perguntado. Contou sobre sua infância em São Paulo (“Fui um cinéfilo absurdo”). Criticou o Festival de Gramado (“É uma instituição cultural, não deve se pautar pelo mercado”). Comentou o fenômeno Michael Moore e definiu a essência de seu documentarismo: “Eu enchi o saco de escutar as mentiras dos partidos, igrejas, ideólogos. Uma coisa que existe já é importante pelo simples fato de existir”.

Qual a sensação de estar sendo entrevistado em vez de comandar uma entrevista?

Eduardo Coutinho: Pra mim não é muito confortável. A vantagem pelo menos é que não temos a imagem. Ao contrário do que as pessoas dizem, no documentário, a oralidade é o corpo que fala, então imagem e som estão juntos. A imagem é essencial porque pode desmentir a fala: a expressão do rosto, dos olhos, da boca, dos ombros.


Sua história com o cinema começa em São Paulo, onde você nasceu?

Coutinho: Comecei a ir ao cinema aos sete, oito anos. Era viciado em cinema, um cinéfilo absurdo. Na verdade, assistia a muito cinema americano, o que tinha disponível na época. Só depois de 1945 começou a chegar o neo-realismo italiano e o cinema francês. Vi também filmes argentinos e mexicanos.


Na época, você já se interessava por documentários?

Coutinho: Não. Antes de começar a dirigir documentários eu nunca pensei em fazê-los.


Qual foi a sua formação?

Coutinho: Eu entrei para o curso de direito em São Paulo, mas abandonei no segundo ano. Desinteressei-me pela faculdade e, durante um tempo, apenas respondia às chamadas e colava nas provas para não ser reprovado. Não cheguei a me formar. Daí, em 1954, eu trabalhei como jornalista na revista “Visão”. Três anos depois, fui a um congresso da juventude comunista em Moscou. Na França, acabei ganhando uma bolsa para estudar cinema no Idhec (Institut des Hautes Études Cinématographiques), uma das únicas escolas da época. Fiquei três anos e meio na França e voltei ao Brasil no fim de 1960. Aí, sim, comecei a fazer cinema e me mudei para o Rio de Janeiro.


Você chegou a fazer parte do projeto UNE Volante?

Coutinho: Eu estava participando da produção do filme "Cinco vezes favela". Eram quatro episódios. Quando estava sendo feito o último, dirigido pelo Leon Hirszman, abandonei de comum acordo para fazer a viagem junto com o projeto UNE Volante. A gente pretendia documentar essa jornada, mas não resultou em nada devido às condições de filmagem. O cinegrafista ficou doente e teve de retornar para casa.


Além do interesse sociocultural, havia também um forte direcionamento político, não?

Coutinho: Muito mais político que cultural. Na verdade, tinha todo um contexto histórico. Imagina o começo dos anos 60: as reformas estudantis, as reformas de base do Jango (João Goulart). Nessa época, quem dirigia a UNE era uma coligação de comunistas e católicos de esquerda. O CPC tinha uma predominância, na direção, do Partido Comunista. A diferença é que no CPC você fazia algo no campo cultural. Então, para mim, foi um aprendizado. Eu vinha de uma educação de família bastante conservadora.

Na verdade, eu só entrei para o Partido Comunista em novembro de 1963 porque, no trabalho de filmagem de "Cabra marcado para morrer", acabei fazendo discursos nas Ligas Camponesas em nome da UNE... Uma coisa absurda! Foi uma situação um tanto desconfortável para mim. Veio então o golpe, em março de 64. No ano seguinte, afastei-me do partido para nunca mais voltar. Aliás, para nunca mais me envolver em nenhuma outra organização política.


E como foi seu ingresso no “Globo Repórter”?

Coutinho: "Cabra marcado para morrer" foi interrompido. No período de 1964 a 1970, eu passei a fazer filmes de ficção e escrever alguns roteiros para cinema até o momento em que me encheu o saco por vários motivos: meu filho tinha nascido, eu não tinha como sobreviver e não estava satisfeito com o cinema que eu fazia. Eu trabalhei, então, no “Jornal do Brasil” durante três anos. Em agosto de 1975, fui chamado pela TV Globo para trabalhar no “Jornal Nacional”. Não me interessou porque eles iam pagar muito mal. Apareceu uma vaga no “Globo Repórter” que pagava melhor e eu aceitei.

Se eu tivesse ido para o “Jornal Nacional”, minha vida teria mudado, eu não teria feito documentários, eu teria sido demitido logo porque não agüentaria a pressão de trabalhar nas condições em que o jornal é feito. Então, o “Globo Repórter” foi um nicho que eu encontrei por sorte, mais por obra do acaso. Isso me permitiu não só sobreviver economicamente, como ter contato com todos os processos de produção.

Durante seis anos no programa, eu dirigia, montava, fazia textos e inclusive escolhia a trilha musical. Eu aprendi muita coisa na prática, aprendi com o que ia para o ar e o que também não ia, o antes e o depois da filmagem. Todas as viagens ao Nordeste que fiz pelo “Globo Repórter” foram um aprendizado para eu retomar "Cabra marcado para morrer".


De onde vem seu interesse pelos anônimos, por pessoas comuns?

Coutinho: Eu prefiro falar em pessoas ordinárias; elas não são pessoas anônimas. Quem é anônimo? Ninguém é inteiramente anônimo. O problema é que a palavra ordinária no Brasil tem uma conotação pejorativa. Mas, não sei, é difícil explicar racionalmente esse interesse. Acho que era uma forma instintiva de tentar encontrar e produzir uma verdade que não estava lá antes de ser filmada. Descobri-la filmando. Eu enchi o saco de escutar as mentiras dos partidos, igrejas, ideólogos. Uma coisa que existe já é importante pelo simples fato de existir. Toda ideologia era antigamente nossa idéia sobre o que existe.

Já na época em que eu filmava o "Cabra", eu tinha uma visão muito cética quanto a propostas utópicas. A única coisa que eu tento fazer em cinema, pela qual o meu cinema existe, é tirar a viseira mais que os outros. E aí são duas viseiras. A viseira política ou religiosa, que atrapalha o cara de enxergar o mundo que existe, fazendo com que ele trabalhe com a idéia de realidade que supõe que ainda vá existir. E, além destas, a viseira artística, que é quando o cara põe suas obsessões como tema fundamental do filme.

A minha retirada da ficção para o documentário foi uma forma de me livrar de meus preconceitos, de minhas utopias, e dialogar com o outro no mesmo nível, movido pela curiosidade ou pelo afeto. É como uma disposição extraordinária de estar vazio.


Seus filmes parecem não ter exatamente um tema definido. Até que ponto você delimita o assunto a ser tratado? Você busca convencer o público de alguma idéia?

Coutinho: O que realmente me interessa é o dispositivo, pode-se chamar também de método. Eu fui descobrindo, pouco a pouco, que o dispositivo mais essencial para mim é a prisão espacial. Trata-se de metonímia, eu não quero falar de determinado país, ou religião, idéias gerais eu jogo fora. Eu aprendi que a prisão espacial é fundamental para mim. Eu falo sobre um edifício em Copacabana, não sobre Copacabana e a classe média, não sobre a religião no Brasil. Só no caso de "Peões", eu tive de lidar com uma coisa mais complicada, porque não havia delimitação espacial.


Você não trabalha com roteiro?

Coutinho: Não. Eu levo em conta o prazo de filmagem, a equipe contratada -que é cara- e antes eu tenho a pesquisa. A primeira coisa que me diferencia de outros diretores que fazem documentário é que eu jamais participo da pesquisa prévia. Por razões óbvias. O entrevistado nunca vai me contar pela segunda vez a mesma coisa. Então, quando ele vai falar comigo ele acha que está contando o fato pela primeira vez. A primeira providência é manter essa virgindade da relação. O sujeito vai falar como se fosse a primeira vez não só para mim, mas também para o público e para ele mesmo. Eu acredito que os relatos mais fortes são aqueles que o cara nunca disse antes nem vai dizer depois. Tem de parecer algo que não se repete.


Como o cara que se emociona ao cantar Frank Sinatra, em "Edifício Master"?

Coutinho: Pois é. É o ato de filmagem. Na pesquisa, ele não cantou, apenas contou a história dele. Esta cena foi filmada três vezes. Na primeira, foi filmado quase sem som porque ele improvisou. A segunda foi tudo organizado: "luz, vamos filmar". E, na terceira tentativa, ele mesmo começou a cantar sozinho. Mas, enfim, o assunto ou tema passa a ser irrelevante, o que realmente conta é o ato de filmar.


Como surgiu a idéia do filme "Peões"?

Coutinho: A idéia inicial foi do João Moreira Salles, que gostaria de fazer a cobertura da campanha eleitoral dos dois candidatos que disputariam o segundo turno para presidente. Acontece que a gente ainda não sabia quem iria disputar com o Lula. Como eu tenho certo horror a ter de negociar com figuras públicas, eu sugeri ao João como hipótese que se substituísse pela campanha do Lula e pela greve dos metalúrgicos de 79 e 80. Muito longe na minha cabeça já tinha passado a idéia de fazer um filme sobre aquela massa de São Bernardo que não estava no palanque.

A motivação vinha também da curiosidade de olhar para fotografias de multidões e querer saber se cada pessoa ali estava viva ou havia morrido. Quem eram essas pessoas? Isso sempre me interessou. Daí essa proposta foi levada ao Lula, no início de agosto. Sabiamente ele disse o seguinte: "Ganhe ou perca, a minha campanha é histórica. E eu só sou o que sou porque houve as greves".


Mas foi um aval do Lula?

Coutinho: Não, apenas uma opinião.


Como você encontrou as personagens de "Peões"?

Coutinho: A gente fez três semanas de pesquisa no ABC (região metropolitana de São Paulo) e conversamos oficialmente com o sindicato. Depois filmei durante um mês. Eu tive um pouco de medo porque não havia o limite espacial, trata-se de uma região imensa. E era uma diáspora de 100 mil pessoas. Que fim levaram? Como encontrá-los? Fui obrigado a situar cada um no momento histórico. Foi bastante complicado. É importante ressaltar que o filme não é sobre o Lula, mas sobre as greves nas quais houve uma liderança.


Impressiona bastante, no filme, o silêncio constrangedor que ocorre quando o último personagem termina de falar e inverte os papéis, fazendo uma pergunta ao entrevistador. Por que você optou por não cortar este trecho?

Coutinho: É o ato de filmagem. Esse silêncio constrangedor, às vezes necessário, acontece ou não. No caso dele, eu não forcei nada. A gente estava conversando e, de repente, quando ele fala do passado, que tem saudades dos companheiros, ele repete o que já tinha dito mas não sabia definir o que seja peão. Aí ele entra no buraco. No buraco de uma vida intransmissível. E pela primeira vez eu consegui me calar e deixar o cara sofrer diante da câmera, porque eu sabia que o sofrimento dele era momentâneo.

Existe um fluxo de palavras, quando há silêncio esse fluxo acaba se interrompendo. Então, quando o cara está no fundo do poço e você não pergunta, pára o troca-troca. Trinta e dois segundos de silêncio basicamente. Depois disso, ele sai da situação com genialidade, porque me coloca em questão. Pergunta: "Você já foi peão?" e acaba o filme. E ele está dizendo isso para o público também, já que quem vai assistir a um documentário não foi peão nunca. Mas é fundamental você assumir a diferença, eu sou um não-peão fazendo filme sobre peões.


Não te incomoda o fato de seu público ser restrito a uma classe de intelectuais e estudantes?

Coutinho: Você está num sistema -não vou dizer um gênero- que foi, é e será marginal. O documentário foi marginal em cem anos de cinema, é marginal e será marginal. Não é um lugar de sonhos. O documentário já tem, de cara, o caráter experimental. O grande público não vai ver.

Mesmo os filmes de ficção de baixo orçamento conseguem no máximo um público de 100 mil ou 150 mil, que é praticamente o público de "cinema de arte". Essa é a realidade do mercado. A pessoa que não é "educada" vai assistir a um filme meu ou outro documentário e diz: "Ah, isso eu vejo na televisão, é uma reportagem". E sai da sala em cinco minutos. O público atual quer sonhar e, se possível, sonhar americano. É um dilema do real.


No Festival de Gramado, você disse que não concordava com o tipo de premiação adotado. Por quê?

Coutinho: Existem duas coisas distintas: o mercado e a instância cultural. Os museus, os festivais, as universidades fazem parte da instância cultural, aquela que simbolicamente te dá prêmios. Você não ganha dinheiro, mas recebe honrarias. Gramado, portanto, é uma instituição cultural, ela não deve se pautar pelo mercado.

Quando se cria uma categoria de ficção e outra de documentário, o que eu já acho discutível, e você passa ficção às nove da noite e documentário às quatro da tarde sem pagar entrada, você está desqualificando o documentário. E, na premiação, os filmes de ficção recebem prêmios de melhor montagem, melhor fotografia, enquanto para documentários existe apenas o prêmio de "melhor documentário".

Isso alimenta a idéia de que o documentário é uma fruta que se pega na árvore, como se não fosse construído, produzido por trabalho humano. E o cara do som? O cara da luz? Então, desconhecer isso é uma sacanagem.


Por também ter passado pelo jornalismo, você acredita na objetividade e imparcialidade como referências ao seu trabalho atual?

Coutinho: Essa é uma discussão inacabável, que para mim não interessa. No campo do jornalismo, a imparcialidade tem-se resumido a ouvir o outro lado. Então, você vê nos jornais sempre um espaço dedicado a dar voz aos dois lados, o que não resolve nada, pois uma história pode ter cinco ou mais lados. Em geral, eu acho o jornalismo na televisão brasileira mal feito. Mas meu campo é outro, o do documentário.


Qual a diferença?

Coutinho: Olha, de imediato, pode-se dizer que o documentário dura e o jornalismo não dura. E uma das razões pela qual ele dura é que não está preso a essas noções de imparcialidade e objetividade para se atingir o real. O documentário tem como tema exatamente a impossibilidade de se chegar ao real.


Como você encara o cinema de Michael Moore? E os documentários do Frederick Wiseman?

Coutinho: Os filmes de Michael Moore acabam tento um papel político de informação e militância. Na verdade, ele é um populista de esquerda. Se chamar o Michael Moore de artista, ele vai ficar puto. Mas é um caminho. É outra visão do mundo de documentário. O que acontece é que ele lida eventualmente com pessoas e as trata como peças de uma engrenagem. Agora o que eu acho pior no último filme dele é aquela personagem que ele constrói como ideal: branca, conservadora, casada com um negro, multicultural. Acho aquilo uma chantagem sentimental.

O Wiseman é outra coisa. Os filmes dele só passam na televisão, há 30 anos ele faz o mesmo filme, o que é interessante. Tanto ele como o Michael Moore se beneficiam de um traço americano muito forte, que é o fato das instituições terem de prestar contas.

É um lado bom que sobrou do capitalismo americano. Mas eles também são produtos de um certo ativismo social, no sentido de que o que interessa para ambos são os fins, e não os meios.


Você tem algum projeto novo em andamento?

Coutinho: Já filmamos um novo projeto no ano passado e agora estamos no processo de montagem. Segui três princípios para este novo filme. Primeiro, optei por fazê-lo sem pesquisa prévia, em segundo lugar, fugir do espaço urbano e, por fim, trabalhar sem tema e sem locação predefinidos. Por afeição, escolhi a Paraíba. Depois, definimos uma área no sertão, onde tinha um hotel perto para começar, e acabamos encontrando uma comunidade formada por 86 famílias. Tive a ajuda de uma pessoa do local como espécie de guia antropológico. Conversei só com pessoas mais velhas. Foi uma experiência extraordinária, espero que eu consiga passar para o público isso.


Já definiu o nome do filme?

Coutinho: Por enquanto vai se chamar "O fim e o princípio".

Fernando Masini

(© Trópico)

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