Cussy de Almeida retoma caminho iniciado nos anos 60 e com o grupo de
câmara dá roupagem erudita à música urbana de Pernambuco
JOSÉ TELES
Dois concertos no Teatro Santa Isabel e um no
domingo, no Parque da Jaqueira, a partir das 17h, completam o ciclo de
lançamento do CD Raízes Brasileiras, com o Grupo Orange, regido
pelo maestro Cussy de Almeida. Com o disco, ele retoma um projeto,
iniciado nos anos 60, de diminuir a distância entre o popular e o erudito,
criando uma música clássica a partir de gêneros populares.
“No meu período com a Orquestra Armorial, talvez por influência de
Ariano Suassuna, ocupei-me só da música rural, desprezando a música negra,
indígena, que agora trago para este disco, que considero o meu trabalho
mais completo”, comenta Cussy de Almeida.
Sem falsa modéstia, ele atribui a si o pioneirismo em trazer a música
nordestina para palcos elitistas, como o da Sala Cecília Meireles, no Rio
de Janeiro: “Eu era conhecido naquela época, como violinista. Regi um
concerto na Cecília Meireles, com uma orquestra que executava As Quatro
Estações (de Vivaldi) sem partituras, de cor. No final o público
aplaudiu de pé. Sentindo que a platéia estava dominada, passei a tocar
música do Nordeste, foi a primeira vez que aconteceu isso. Villa-Lobos
realizou trabalho semelhante com gêneros do Sudeste, lundus, modinhas, mas
desconhecia a música nordestina, que era vista com preconceito, algo
menor, inclusive Luiz Gonzaga”, diz Cussy de Almeida.
A experiência elucubrada com os maestros Clóvis Pereira e Guerra Peixe,
e com Capiba foi a base para o repertório da Orquestra Armorial que,
assinala Cussy, começou antes mesmo do movimento estético que lhe deu o
nome: “Pedi a Suassuna uma sugestão para batizar a orquestra, já que
simplesmente ‘Orquestra de Câmara’ não iria diferenciá-la das outras.
Armorial, portanto, foi só um rótulo para designá-la”. A música que tanto
a Armorial quanto o Grupo Orange tocam Cussy de Almeida prefere chamar de
“música nordestina”.
Áudio |
|
|
|
|
O CD reúne tanto a música rural quanto a urbana. Foram regravados peças
do repertório da Orquestra Armorial, entre elas De rabeca em cantoria
(anteriormente denominada, por Guerra Peixe, Mourão) e Cipó
branco de Macaparana. No mais são maracatu, ciranda, modinha,
caboclinho, coco, e duas composições fisgadas do repertório da música
popular: Adivinhações (Nelson Ferreira/ Luís Queiroga) e Assum
preto (Humberto Teixeira/Luiz Gonzaga). Esta última, adaptada para o
terreno erudito, realça a estreiteza dos que estabelecem limites rígidos
entre o clássico e o popular: “Quando você tira o ritmo do baião, ele vira
música de câmera”, aponta Cussy de Almeida, que vê insuspeitas semelhanças
entre o baião e A Primavera, de As Quatro Estações: “A
célula rítmica da música de Vivaldi, em boa parte dos seus concertos é a
mesma do baião do Nordeste brasileiro”.
Se esteticamente é uma continuidade do que fazia a Orquestra Armorial,
a música do Grupo Orange esbanja uma qualidade técnica só possível com a
tecnologia atual. A pureza de timbres do CD foi alcançada na sala Águas
Finas, em Aldeia, pertencente ao empresário Mário Gouveia, onde o grupo
gravou as músicas deste CD ao vivo.
Show de lançamento do CD Raízes Brasileiras, com o Grupo Orange,
regido pelo maestro Cussy de Almeida, domingo, às 17h, no Parque da Jaqueira, entrada
franca.
(©
JC Online)
Violão brasileiro
ganha o seu mais completo levantamento
Quando o guitarrista, dos Rolling Stones, Keith Richards esteve no Brasil
pela primeira vez, no final dos anos 60, ficou impressionado com a
quantidade de violonistas que viu. Para ele, quase todos os brasileiros
tocavam violão, e muito bem. Ufanismos à parte, a maioria não vai além do
estágio de “arranhar” o instrumento. Mesmo assim, poucas terras dão-se ao
luxo de ostentar uma escola de violonistas de tão alto nível. Que o diga
Myriam Taubkin, que esteve a frente da equipe que produziu Violões do
Brasil, a mais completa panorâmica do gênero já realizada.
Viabilizado pela Lei Rouanet, o projeto consiste de livro, DVD e CD
(duplo), abrangendo mestres do passado, virtuosos do presente, depoimentos
exclusivos, ensaios, e um guia com nomes e contatos de cerca de mais de
400 violonistas e 70 luthiers em atividade. Na introdução, o empresário
Rodolfo Galvani Jr., idealizador do projeto e ele próprio um profundo
conhecedor do instrumento, faz uma citação especial a José Lansac, gênio
esquecido, raramente regravado, mas que é tido o maior de sua época (anos
30) pelo paulista Ronoel Simões, dono do mais importante acervo do violão
do País.
Projetos assim servem para que a história da música brasileira tenha
cada vez menos José Ransac. Pela já citada profusão de violonistas,
ficaram de fora incontestáveis talentos como João Bosco, Geraldo Azevedo,
Lenine. O pesquisador Morris Picciotto, participante do projeto,
esclarece: “Escolhemos artistas cujo foco é o violão. Se fôssemos colocar
todo mundo, teríamos que fazer vários livros”. Mesmo assim há alguns
lapsos, pelo pouco espaço conceiddo a Egberto Gismonti e Henrique Annes, e
pela ausência do bodocoense Ednaldo Queirós. Este último autor da pequena
obra-prima Dança Cigana (gravado em Nova Iorque, em 1990, com
produção de Arto Lindsay e Naná Vasconcelos). Pecadilhos que não maculam
uma obra quase irrepreensível.
O livro começa com uma história sucinta do violão, dedica um longo
capítulo aos grandes mestres, resgatando a memória de Satyro Bilhar,
realçando o talento de Quincas Laranjeiras, João Pernambuco, Antônio
Rebello, Américo Jacomino (o Canhoto), Garoto, Meira, Laurindo Almeida,
Canhoto da Paraíba, Baden Powell, Raphael Rabello, Rosinha de Valença,
enfim, todos os que realmente mereceram o epíteto de “grande mestre”.
Mais adiante, violonistas comentam outros violonistas, com destaque
para Luís Nassif analisando Agustin Barrios (um influente violonista
paraguaio). Outro capítulo é feito de depoimentos organizados por Myriam
Taubkin e Maria Luíza Kfouri, e por fim a relação de violonistas e
luthiers. O livro tem ainda um ensaio fotográfico de Angélica del Nery,
com retratos informais dos artistas e lutherias, onde fotografou
“esqueletos” de violões, cujas reproduções abrem cada um dos capítulos.
O CD, produzido pelo violonista e arranjador Luiz Roberto Oliveira,
traz duas faixas de cada um dos participantes, com idades que vão dos 24
aos 83 anos. Alguns dos melhores violonistas em atividade interpretando
composições próprias ou de artistas do passado, músicas que pairam acima
do tempo ou modismos. Nomes famosos, outros conhecidos apenas dos
iniciados: Alessandro Penezzi, Carlos Barbosa-Lima, o Duo Assad (Sérgio e
Odair Assad), Antônio Madureira, Marcos Pereira, Quarteto Maogani, Guinga,
Zé Menezes, entre outros.
O DVD tem duas horas de duração. A primeira com virtuosos do violão
dissecando a técnica de outros virtuosos (Turíbio Santos faz uma sintética
e original análise da técnica de João Gilberto). Um dos melhores trechos,
uma entrevista com Sérgio Abreu, do lendário Duo Abreu, influentíssimo
entre violonistas, mas ilustre desconhecido no Brasil. Formado pelos
irmãos Sérgio e Eduardo Abreu, o duo desfez-se no auge, com carreira
estabelecida nos EUA e Europa. Sérgio, que se tornou luthier, explica as
razões de ter abandonado os concertos, e diz-se com os dedos enferrujados.
O contrário do cearense Zé Menezes, de uma agilidade assombrosa aos 83
anos. “É uma material de referência para um público mais especializado,
ligado ao universo do violão”, diz o diretor do vídeo, Sérgio Roizenblit,
que se valeu de muita close nas mãos dos intrumentistas para lhes
ressaltar a técnica (JT).
Violões do Brasil, livro, CD duplo, e DVD, preço: R$ 130
(©
JC Online)