Em raro show no Rio, Siba revive o maracatu rural ao lado de Barachinha
João Bernardo Caldeira
Pernambuco, quem diria, por vezes está mais perto da Europa do que do
Rio de Janeiro. Desde que Siba lançou seu primeiro disco solo,
Fuloresta do samba, em 2002, ele jamais pisou em solo carioca. Em
compensação, fez turnê por França, Holanda e Bélgica, para onde volta em
junho, provando que da tradição mais arcaica é possível arrancar
aplausos universais. Principal cantor e rabequeiro do grupo Mestre
Ambrósio, paralisado há cerca de um ano, ele se apresentou
no
Centro Cultural Banco do Brasil, dentro do evento Na
Ponta do Verso, ao lado do mestre de maracatu Barachinha. Juntos, eles
gravaram o disco No baque solto somente (2003), uma aposta ainda
mais radical nas raízes da cultura nordestina.
- Barachinha tem apenas 37 anos, mas é um dos
principais mestres de maracatu de baque solto em atividade. Fizemos esse
disco para o público da Zona da Mata, que vive maracatu o ano inteiro e
possui uma ligação visceral com esse tipo de música. Mas, se tem uma
coisa que sempre pautou meu trabalho, foi a crença na universalidade.
Ele pode alcançar diversos lugares e pessoas - afirma Siba.
As faixas de No baque solto somente, todas
inéditas, são assinadas pela dupla, que responde também pelos vocais. A
banda do CD e do show foi batizada de Fuloresta, praticamente os mesmos
integrantes de Fuloresta do samba, o que dá aos dois trabalhos
uma sonoridade com sabor do campo, gostosa e redonda de se ouvir.
Nascido em Recife, Siba não toca rabeca no disco com Barachinha e
explica a singularidade do maracatu interiorano:
- Maracatu de baque virado só existe no Recife, e não
tem tradição de investir na poesia rimada. Já o maracatu de baque solto,
da Zona da Mata, tem o foco na rima e no improviso. No Recife, cantam
músicas antigas, enquanto o público do baque solto não aceita coisa
velha. É o mesmo nome, mas a única semelhança é que ambos são cortejos
de carnaval.
Quem escuta Fuloresta do samba poderia supor
que se trata de um disco tradicionalista. O cantor explica, no entanto,
que não é bem assim:
- Parece tradicional, mas utiliza um conceito de
produção entendido como moderno, porque mesmo sem usar elementos do rock
e do pop foi consagrado pelo pop. Soa como se tivesse sido gravado na
rua, traz o ambiente sonoro do engenho, mas não foi gravado na rua. Isso
facilita a vida de uma pessoa que tem dificuldade com a linguagem
tradicional. Já No baque solto somente é mais baseado na palavra
rimada e no improviso.
Nos shows que Siba faz no exterior, ele prefere
utilizar o repertório de Fuloresta do samba, porque o
conhecimento da língua portuguesa é fundamental para a compreensão da
poesia do maracatu de baque solto. A próxima turnê já está marcada para
junho, quando Siba e a Fuloresta participarão da programação do Ano do
Brasil na França. Os shows do ano passado renderam bons frutos: em
agosto um CD encartado na revista inglesa Folk Roots trazia a
faixa Bonina, do disco Fuloresta do samba.
No próximo mês, será exibido um documentário no
festival Cine PE, em Recife, que mostra as raízes da banda da Zona da
Mata, da cidade de Nazaré, e sua passagem pela Europa. Enquanto o Mestre
Ambrósio não volta das férias, o que pode acontecer no fim do ano, Siba
mantém sua idéia de reciclar influências:
- Sempre fui ligado à rima e à métrica tradicionais
do Nordeste, e o Mestre Ambrósio foi conseqüência disso. Quando me senti
maduro, criei a Fuloresta. Existe um senso comum que vê essa música como
coisa de um passado que a gente luta para preservar. Mas é uma linguagem
que comporta a inovação constante, não se baseia na repetição. Olhamos
para trás para conhecer nossa história, mas estamos de olho na
possibilidade de um novo futuro.
(©
JB Online)
A voz ímpar do
mestre Xangai

Violeiro e cantador de voz
singular, de uma divisão ímpar e de um repertório que não se atém aos
mestres Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, mas navega por nomes menos
conhecidos mas não menos brilhantes como Juraíldes da Cruz e Maciel
Melo, Xangai (Eugênio Avelino) faz uma de suas raras apresentações por
aqui, de hoje a sexta, às 18h30m, na Sala Funarte Sidney Miller.
Criado em meio a vaquejadas e
rodas de viola, ele, adolescente, viveu um tempo na fazenda de Elomar,
outro respeitado cantador, fundamental em sua formação artística e com
quem dividiria — juntamente com Vital Farias e Geraldo Azevedo — o palco
no antológico show “Cantoria”, em 1984.
O menino, que ganhou o apelido
quando o pai montou a sorveteria Xangai, na Zona da Mata, viajou por
todo o Nordeste com o mestre Elomar, pesquisando e divulgando a cultura
da região. Em 1985, representou o Brasil no Festival de Juan-les-Pins,
na França. Participou também do Festival Carrefour de Violões, edição
dedicada ao Brasil, na Martinica, em 1986, e do Festival Internacional
de Havana, em Cuba, em 1988.
No show, em que canta e toca
acompanhado de sua filha Mariá Porto, Xangai desfia um repertório de
xotes, cocos e emboladas como “Matança”, de Jatobá; “Nóis é jeca mais é
jóia”, de Juraíldes da Cruz; “Kukukaya”, de Cátia de França; “Estampas
Eucalol”, de Hélio Contreiras; “Buxada com aruá”, de Jacinto Silva; e
“Pisa manero”, de Juvenal Lopes e Dílson Dória.
(©
O Globo,
16.03.2005)