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 Tradição reciclada

24/03/2005

Siba (à esq.) e Barachinha mostram o disco que gravaram juntos
 

Em raro show no Rio, Siba revive o maracatu rural ao lado de Barachinha

João Bernardo Caldeira

   Pernambuco, quem diria, por vezes está mais perto da Europa do que do Rio de Janeiro. Desde que Siba lançou seu primeiro disco solo, Fuloresta do samba, em 2002, ele jamais pisou em solo carioca. Em compensação, fez turnê por França, Holanda e Bélgica, para onde volta em junho, provando que da tradição mais arcaica é possível arrancar aplausos universais. Principal cantor e rabequeiro do grupo Mestre Ambrósio, paralisado há cerca de um ano, ele se apresentou no Centro Cultural Banco do Brasil, dentro do evento Na Ponta do Verso, ao lado do mestre de maracatu Barachinha. Juntos, eles gravaram o disco No baque solto somente (2003), uma aposta ainda mais radical nas raízes da cultura nordestina.

   - Barachinha tem apenas 37 anos, mas é um dos principais mestres de maracatu de baque solto em atividade. Fizemos esse disco para o público da Zona da Mata, que vive maracatu o ano inteiro e possui uma ligação visceral com esse tipo de música. Mas, se tem uma coisa que sempre pautou meu trabalho, foi a crença na universalidade. Ele pode alcançar diversos lugares e pessoas - afirma Siba.

   As faixas de No baque solto somente, todas inéditas, são assinadas pela dupla, que responde também pelos vocais. A banda do CD e do show foi batizada de Fuloresta, praticamente os mesmos integrantes de Fuloresta do samba, o que dá aos dois trabalhos uma sonoridade com sabor do campo, gostosa e redonda de se ouvir. Nascido em Recife, Siba não toca rabeca no disco com Barachinha e explica a singularidade do maracatu interiorano:

   - Maracatu de baque virado só existe no Recife, e não tem tradição de investir na poesia rimada. Já o maracatu de baque solto, da Zona da Mata, tem o foco na rima e no improviso. No Recife, cantam músicas antigas, enquanto o público do baque solto não aceita coisa velha. É o mesmo nome, mas a única semelhança é que ambos são cortejos de carnaval.

   Quem escuta Fuloresta do samba poderia supor que se trata de um disco tradicionalista. O cantor explica, no entanto, que não é bem assim:

   - Parece tradicional, mas utiliza um conceito de produção entendido como moderno, porque mesmo sem usar elementos do rock e do pop foi consagrado pelo pop. Soa como se tivesse sido gravado na rua, traz o ambiente sonoro do engenho, mas não foi gravado na rua. Isso facilita a vida de uma pessoa que tem dificuldade com a linguagem tradicional. Já No baque solto somente é mais baseado na palavra rimada e no improviso.

   Nos shows que Siba faz no exterior, ele prefere utilizar o repertório de Fuloresta do samba, porque o conhecimento da língua portuguesa é fundamental para a compreensão da poesia do maracatu de baque solto. A próxima turnê já está marcada para junho, quando Siba e a Fuloresta participarão da programação do Ano do Brasil na França. Os shows do ano passado renderam bons frutos: em agosto um CD encartado na revista inglesa Folk Roots trazia a faixa Bonina, do disco Fuloresta do samba.

   No próximo mês, será exibido um documentário no festival Cine PE, em Recife, que mostra as raízes da banda da Zona da Mata, da cidade de Nazaré, e sua passagem pela Europa. Enquanto o Mestre Ambrósio não volta das férias, o que pode acontecer no fim do ano, Siba mantém sua idéia de reciclar influências:

   - Sempre fui ligado à rima e à métrica tradicionais do Nordeste, e o Mestre Ambrósio foi conseqüência disso. Quando me senti maduro, criei a Fuloresta. Existe um senso comum que vê essa música como coisa de um passado que a gente luta para preservar. Mas é uma linguagem que comporta a inovação constante, não se baseia na repetição. Olhamos para trás para conhecer nossa história, mas estamos de olho na possibilidade de um novo futuro.

(© JB Online)


A voz ímpar do mestre Xangai


   Violeiro e cantador de voz singular, de uma divisão ímpar e de um repertório que não se atém aos mestres Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, mas navega por nomes menos conhecidos mas não menos brilhantes como Juraíldes da Cruz e Maciel Melo, Xangai (Eugênio Avelino) faz uma de suas raras apresentações por aqui, de hoje a sexta, às 18h30m, na Sala Funarte Sidney Miller.

   Criado em meio a vaquejadas e rodas de viola, ele, adolescente, viveu um tempo na fazenda de Elomar, outro respeitado cantador, fundamental em sua formação artística e com quem dividiria — juntamente com Vital Farias e Geraldo Azevedo — o palco no antológico show “Cantoria”, em 1984.

   O menino, que ganhou o apelido quando o pai montou a sorveteria Xangai, na Zona da Mata, viajou por todo o Nordeste com o mestre Elomar, pesquisando e divulgando a cultura da região. Em 1985, representou o Brasil no Festival de Juan-les-Pins, na França. Participou também do Festival Carrefour de Violões, edição dedicada ao Brasil, na Martinica, em 1986, e do Festival Internacional de Havana, em Cuba, em 1988.

   No show, em que canta e toca acompanhado de sua filha Mariá Porto, Xangai desfia um repertório de xotes, cocos e emboladas como “Matança”, de Jatobá; “Nóis é jeca mais é jóia”, de Juraíldes da Cruz; “Kukukaya”, de Cátia de França; “Estampas Eucalol”, de Hélio Contreiras; “Buxada com aruá”, de Jacinto Silva; e “Pisa manero”, de Juvenal Lopes e Dílson Dória.

(© O Globo, 16.03.2005)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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