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Zé Andrade, o ceramista dos músicos e escritores, já criou mais de 100
miniaturas de artistas brasileiros
Cleusa Maria
Em seu ateliê ao lado de casa, à sombra de uma mangueira, ele serve uma
infusão de água gelada e hortelã, colhida na horta orgânica que cultiva
naquela ladeira em Santa Teresa, no Rio. E diz: “A água fica mais etérea”.
Quem convive com o artista baiano Zé Andrade, como o poeta e crítico
Ferreira Gullar – presença assídua à beira do forno de lenha construído no
quintal – conhece a habilidade que ele emprega nas atitudes cotidianas e
na sua criação. Foi assim que surgiram as cerca de 100 miniaturas de
personalidades que ele vem revivendo em cerâmica desde os anos 70.
Dificilmente um freqüentador de livrarias e lojinhas de museus não conhece
o Mario de Andrade, o Monteiro Lobato ou o Jorge Amado saídos do ateliê do
artista de 55 anos, nascido no interior da Bahia e que elegeu o Rio, em
1974, como o seu grande caso de amor. Hoje, há quem colecione seus
personagens e eles podem ser vistos em feiras de livros pelo mundo afora.
Um dos integrantes da galeria de notáveis é o esguio (e
este ano festejado) Dom Quixote, com série limitada a 300 peças. O limite
foi dado pelas penas de bico em aço, que o personagem ergue como se fosse
a lança, já que o artista só encontrou esse número disponível no mercado.
– Sempre procuro trabalhar com datas comemorativas.
Pode-se homenagear com selos, com livros ou criando um personagem em
argila, que levada ao forno a mais de 800 graus se transforma em cerâmica
– diz ele, que construiu um forno a gás no terreiro de casa.
Além da criatura de Cervantes, que comemora 400 anos de
existência, Zé Andrade busca apoio para homenagear, em 2005, Jean Paul
Sartre, Érico Veríssimo e a doutora Nise da Silveira, personalidades que
completam 100 anos de nascimento.
– E com eles talvez eu feche este ciclo. Quero fazer
outro tipo de trabalho, pois os artistas e as mulheres são seres que podem
engravidar. Estou grávido de uma nova criação, mas não sei o que é, só
depois que nascer – adianta o artista.
O ciclo que agora se encaminha para o fim tem suas
raízes nas noites de insônia do menino Zé Andrade, o mais velho de 11
irmãos filhos de lavradores do interior baiano. E é desta remota época
também que surgiu sua admiração pelo personagem Dom Quixote.
– Eu precisava de heróis para enfrentar a escuridão da
noite. Só conseguia dormir quando alguém me lia histórias. Uma noite uma
tia leu um trecho sobre a visita de Dom Quixote ao Sítio do Pica-pau
Amarelo, de Monteiro Lobato – recorda o artista, que já naquele tempo
gostava de desenhar e de fabricar os brinquedos dos irmãos e agregados da
família .
– Como eu desenhava muitas igrejas minha família
interpretou que eu queria ser padre e me internou no convento dos
capuchinhos aos 10 ou 11 anos. Eu aprontava muito, era um fradinho do
Henfil. E ali eu mergulhei nos livros para fugir dos muros. Li todos os
grandes clássicos. Se a Igreja tem uma virtude é carregar esta herança
cultural humanística – diz Zé Andrade.
Do seminário para Feira de Santana e dali para o Rio
foi um pulo no escuro. Sem dinheiro, ele chegou a passar uma rápida
temporada no “hotel das estrelas”, dormindo na areia de Copacabana, até
ser acolhido pela turma do Pasquim, que ele já acompanhava da Bahia desde
o primeiro número. No jornal, seus primeiros personagens – fotografados
para ilustrar as entrevistas – ficaram conhecidos do público. Viraram tema
do curta-metragem Barro humano, de Vitor Lustosa, contracenaram com Sônia
Braga, na peça infantil O país dos perequetés, participaram do programa de
TV Planeta dos homens e foram expostos no Sesc-Tijuca.
– Mas eu ainda não conseguia comercializar as peças
todas saídas do universo da literatura. São personagens que ou produziram
livros ou foram temas de livros – conta ele, que começou a vender suas
cerâmicas na extinta Dazibao, no Estação Botafogo e na lojinha do Museu
Nacional de Belas Artes. Muitos desses personagens inspiraram também
máscaras como as dos poetas Mário de Andrade e Fernando Pessoa, que Zé
Andrade usou na própria cabeça, para prestar suas homenagens em espaços
públicos. Do mesmo forno que saíram figuras e máscaras dos grandes da
cultura saíram também as de alguns políticos, como Tancredo Neves:
– Mas nunca usei máscaras de políticos. No meu conceito
quem deve a este país são todos os que passaram pelo nosso poder, pelo
pouco que fizeram e pelo muito que deixaram de fazer. O Mário de Andrade
dizia que o Brasil só poderia dar alguma contribuição à humanidade se
tivesse uma cor, uma forma, um cheiro. Os artistas e atletas brasileiros
têm feito isso. E Zé Andrade também.
(©
JB Online)
Zé Andrade e seu povo miúdo
Ferreira Gullar
Moldar figuras humanas em barro foi uma habilidade que se manifestou em Zé
Andrade quando ainda menino no interior da Bahia. Não era figura de ninguém
mas os parentes e os vizinhos achavam que ele retratava fulano e beltrano,
coisa que ele só viria a fazer bem depois, já no Rio, com o propósito de
homenagear os grandes nomes da literatura brasileira, que admirava: Monteiro
Lobato, Jorge Amado, Manuel Bandeira... Retratou-os em miniaturas coloridas
que logo encantaram as pessoas. Aos mais entusiasmados, dava-as de presente.
No entanto, como a obsessão por aquelas figuras tomava quase todo o seu
tempo, viu que tinha que vendê-las para continuar a fazê-las. Foi pra rua,
estendeu um jornal na calçada e expôs seus bonecos. O resultado ficou aquém
de suas expectativas e, por isso, tratou de expô-los em livrarias. E assim
essa turma de pequenas figuras de grandes nomes começou a se disseminar pela
cidade, pelo país, e pelo mundo. A gente agora os encontra em feiras de
livros, em Frankfurt, em Paris, em São Paulo, em Tóquio... Muita gente os
coleciona, tornaram-se a paixão de crianças e marmanjos. Como que guiado
pela mão da poesia, Zé Andrade com sua galeria de mais de cinqüenta
celebridades de dez centímetros de altura, tornou-se ele próprio um ícone da
arte popular brasileira.
(©
JB Online)
Um homem fazendo coisa, criando e inventando
Ziraldo
O Zé Andrade acha que o tempo que você gasta sonhando é o mesmo que você
gasta fazendo. O Zé faz! Sua história de vida é a história de um homem
fazendo coisas, criando, inventando. Resultado deste mistério que faz um
menino do interior, longe de tudo, de qualquer informação ou de qualquer
contato com o resto do mundo, descobrir que o que está pintando nas paredes
da igreja é mais importante do que a missa que o padre reza. Era arte o que
interessava naquelas lonjuras. Ninguém sabe explicar por que o Deus da missa
escolhe um menino e diz: ''Presta atenção na pintura''. E nega a ordem da
tia que dizia: ''Presta atenção na missa.''. Zé Andrade criou um espaço só
pra ele, no Brasil. Ninguém faz igual. Seus bonecos são um retrato do país,
do seu tempo, dos homens que, como ele, ajudam ou ajudaram a criar o país
que nós sonhamos. Não tem um só barbalho ou um só acêeme na sua já famosa
galeria. Fica só faltando ele fazer a estatueta dele mesmo.
(©
JB Online) |