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 Os heróis de barro

28/03/2005

Villa Lobos, em obra de Zé Andrade
 

Zé Andrade, o ceramista dos músicos e escritores, já criou mais de 100 miniaturas de artistas brasileiros

Cleusa Maria

   Em seu ateliê ao lado de casa, à sombra de uma mangueira, ele serve uma infusão de água gelada e hortelã, colhida na horta orgânica que cultiva naquela ladeira em Santa Teresa, no Rio. E diz: “A água fica mais etérea”. Quem convive com o artista baiano Zé Andrade, como o poeta e crítico Ferreira Gullar – presença assídua à beira do forno de lenha construído no quintal – conhece a habilidade que ele emprega nas atitudes cotidianas e na sua criação. Foi assim que surgiram as cerca de 100 miniaturas de personalidades que ele vem revivendo em cerâmica desde os anos 70. Dificilmente um freqüentador de livrarias e lojinhas de museus não conhece o Mario de Andrade, o Monteiro Lobato ou o Jorge Amado saídos do ateliê do artista de 55 anos, nascido no interior da Bahia e que elegeu o Rio, em 1974, como o seu grande caso de amor. Hoje, há quem colecione seus personagens e eles podem ser vistos em feiras de livros pelo mundo afora.

   Um dos integrantes da galeria de notáveis é o esguio (e este ano festejado) Dom Quixote, com série limitada a 300 peças. O limite foi dado pelas penas de bico em aço, que o personagem ergue como se fosse a lança, já que o artista só encontrou esse número disponível no mercado.

   – Sempre procuro trabalhar com datas comemorativas. Pode-se homenagear com selos, com livros ou criando um personagem em argila, que levada ao forno a mais de 800 graus se transforma em cerâmica – diz ele, que construiu um forno a gás no terreiro de casa.

   Além da criatura de Cervantes, que comemora 400 anos de existência, Zé Andrade busca apoio para homenagear, em 2005, Jean Paul Sartre, Érico Veríssimo e a doutora Nise da Silveira, personalidades que completam 100 anos de nascimento.

   – E com eles talvez eu feche este ciclo. Quero fazer outro tipo de trabalho, pois os artistas e as mulheres são seres que podem engravidar. Estou grávido de uma nova criação, mas não sei o que é, só depois que nascer – adianta o artista.  

   O ciclo que agora se encaminha para o fim tem suas raízes nas noites de insônia do menino Zé Andrade, o mais velho de 11 irmãos filhos de lavradores do interior baiano. E é desta remota época também que surgiu sua admiração pelo personagem Dom Quixote.

   – Eu precisava de heróis para enfrentar a escuridão da noite. Só conseguia dormir quando alguém me lia histórias. Uma noite uma tia leu um trecho sobre a visita de Dom Quixote ao Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato – recorda o artista, que já naquele tempo gostava de desenhar e de fabricar os brinquedos dos irmãos e agregados da família .

   – Como eu desenhava muitas igrejas minha família interpretou que eu queria ser padre e me internou no convento dos capuchinhos aos 10 ou 11 anos. Eu aprontava muito, era um fradinho do Henfil. E ali eu mergulhei nos livros para fugir dos muros. Li todos os grandes clássicos. Se a Igreja tem uma virtude é carregar esta herança cultural humanística – diz Zé Andrade.

   Do seminário para Feira de Santana e dali para o Rio foi um pulo no escuro. Sem dinheiro, ele chegou a passar uma rápida temporada no “hotel das estrelas”, dormindo na areia de Copacabana, até ser acolhido pela turma do Pasquim, que ele já acompanhava da Bahia desde o primeiro número. No jornal, seus primeiros personagens – fotografados para ilustrar as entrevistas – ficaram conhecidos do público. Viraram tema do curta-metragem Barro humano, de Vitor Lustosa, contracenaram com Sônia Braga, na peça infantil O país dos perequetés, participaram do programa de TV Planeta dos homens e foram expostos no Sesc-Tijuca.

   – Mas eu ainda não conseguia comercializar as peças todas saídas do universo da literatura. São personagens que ou produziram livros ou foram temas de livros – conta ele, que começou a vender suas cerâmicas na extinta Dazibao, no Estação Botafogo e na lojinha do Museu Nacional de Belas Artes. Muitos desses personagens inspiraram também máscaras como as dos poetas Mário de Andrade e Fernando Pessoa, que Zé Andrade usou na própria cabeça, para prestar suas homenagens em espaços públicos. Do mesmo forno que saíram figuras e máscaras dos grandes da cultura saíram também as de alguns políticos, como Tancredo Neves:

   – Mas nunca usei máscaras de políticos. No meu conceito quem deve a este país são todos os que passaram pelo nosso poder, pelo pouco que fizeram e pelo muito que deixaram de fazer. O Mário de Andrade dizia que o Brasil só poderia dar alguma contribuição à humanidade se tivesse uma cor, uma forma, um cheiro. Os artistas e atletas brasileiros têm feito isso. E Zé Andrade também.

(© JB Online)


Zé Andrade e seu povo miúdo

Ferreira Gullar

   Moldar figuras humanas em barro foi uma habilidade que se manifestou em Zé Andrade quando ainda menino no interior da Bahia. Não era figura de ninguém mas os parentes e os vizinhos achavam que ele retratava fulano e beltrano, coisa que ele só viria a fazer bem depois, já no Rio, com o propósito de homenagear os grandes nomes da literatura brasileira, que admirava: Monteiro Lobato, Jorge Amado, Manuel Bandeira... Retratou-os em miniaturas coloridas que logo encantaram as pessoas. Aos mais entusiasmados, dava-as de presente. No entanto, como a obsessão por aquelas figuras tomava quase todo o seu tempo, viu que tinha que vendê-las para continuar a fazê-las. Foi pra rua, estendeu um jornal na calçada e expôs seus bonecos. O resultado ficou aquém de suas expectativas e, por isso, tratou de expô-los em livrarias. E assim essa turma de pequenas figuras de grandes nomes começou a se disseminar pela cidade, pelo país, e pelo mundo. A gente agora os encontra em feiras de livros, em Frankfurt, em Paris, em São Paulo, em Tóquio... Muita gente os coleciona, tornaram-se a paixão de crianças e marmanjos. Como que guiado pela mão da poesia, Zé Andrade com sua galeria de mais de cinqüenta celebridades de dez centímetros de altura, tornou-se ele próprio um ícone da arte popular brasileira.

(© JB Online)


Um homem fazendo coisa, criando e inventando

Ziraldo

   O Zé Andrade acha que o tempo que você gasta sonhando é o mesmo que você gasta fazendo. O Zé faz! Sua história de vida é a história de um homem fazendo coisas, criando, inventando. Resultado deste mistério que faz um menino do interior, longe de tudo, de qualquer informação ou de qualquer contato com o resto do mundo, descobrir que o que está pintando nas paredes da igreja é mais importante do que a missa que o padre reza. Era arte o que interessava naquelas lonjuras. Ninguém sabe explicar por que o Deus da missa escolhe um menino e diz: ''Presta atenção na pintura''. E nega a ordem da tia que dizia: ''Presta atenção na missa.''. Zé Andrade criou um espaço só pra ele, no Brasil. Ninguém faz igual. Seus bonecos são um retrato do país, do seu tempo, dos homens que, como ele, ajudam ou ajudaram a criar o país que nós sonhamos. Não tem um só barbalho ou um só acêeme na sua já famosa galeria. Fica só faltando ele fazer a estatueta dele mesmo.

(© JB Online)

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