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No sertão, brasileiros fazem um caminho pedregoso para
santidade
LARRY ROHTER Em Juazeiro do Norte, Ceará
Em uma missa realizada aqui certo dia
em 1889, uma mulher que estava recebendo a comunhão declarou que a hóstia se
transformou em sangue em sua boca. Apesar da população local ter considerado
aquilo um milagre, a Igreja Católica Romana não ficou contente, e
eventualmente suspendeu o padre envolvido, Cícero Romão Batista, de suas
funções.
Mas a fama do padre Cícero como autor
de milagres continuou a se espalhar, tanto que até hoje pessoas de todas as
partes do Brasil, o país com a maior população católica romana do mundo,
acreditam nele como um santo.
Agora, para alegria dos fiéis que se
reúnem aqui todo ano durante a Semana Santa, na data do aniversário dele, 24
de março, e em outras datas importantes, a mesma hierarquia eclesiástica que
afastou e perseguiu o querido "Guia Espiritual e Intermediário" deles, está
finalmente agindo para reabilitá-lo.
"O padre Cícero foi uma figura
controversa cujas ações incomodaram muitas pessoas, como acontece com as
ações de todos os profetas", disse Fernando Panico, o bispo católico romano
daqui desde 2001. "Mas nós não podemos negar que ele sempre permaneceu fiel
à Igreja apesar de seu sofrimento, nem podemos permanecer indiferentes à
expressão simbólica da fé que ele representa para as pessoas."
A cada ano, cerca de 2 milhões de
peregrinos visitam os locais e templos associados ao padre Cícero aqui no
coração do árido sertão do Nordeste do Brasil. Há a capela onde ele está
enterrado, a casa onde ele morreu, a igreja onde foi o pároco, um museu e,
no alto de uma colina com vista para esta cidade de 225 mil habitantes, se
encontra uma estátua de alabastro de 25 metros dele, com seus
característicos chapéu de aba larga e bengala na mão.
Encorajados pela mudança de postura
da Igreja, os fiéis do padre Cícero estão torcendo para que ele seja
rapidamente beatificado e canonizado. Panico disse que "parece existir boa
vontade em Roma", mas ele também falou de um processo longo e complicado.
Mas se tal processo tiver início, os
fiéis do padre Cícero estão confiantes de que não haverá falta de milagres
para apoiar sua causa. Na "Casa dos Milagres" daqui, o chão está lotado de
modelos de madeira, plástico e cera de braços, pernas, mãos, pés, cabeças e
tórax, deixados pelos peregrinos que creditam ao padre Cícero suas
recuperações surpreendentes de doenças fatais e acidentes.
Há também fotografias e cartas de
agradecimento, muitas escritas com a caligrafia de pessoas de baixa
escolaridade. Mas outros depoimentos agradecem o Padre Cícero por vitórias
em processos ou pela obtenção de diplomas universitários, e um conhecido
cantor popular deixou uma recordação agradecendo a intervenção do padre ao
lhe permitir emplacar um hit de sucesso que marcou seu retorno e sobreviver
a um acidente de automóvel.
A população local diz que até mesmo
Panico se beneficiou dos poderes de cura do padre Cícero. Quando o bispo
anunciou dois anos atrás que tinha câncer, os peregrinos iniciaram uma
campanha de orações por sua recuperação. Agora ele está em remissão, e
apesar de hesitar em falar em um milagre, outros não hesitam.
"O padre Cícero é um profeta, um
santo, um ser divino que tem o poder de conceder graças incontáveis para
aqueles que têm fé nele", disse Maria Pereira Cordeiro, uma aposentada de 64
anos. "Eu não sou uma pessoa letrada, mas acho que Deus enviou dom Fernando
para ajudar a Igreja a reconhecer a grandeza do padre Cícero."
Mas a veneração ao padre Cícero é
mais do que apenas um fenômeno religioso. Afastado do sacerdócio, ele se
voltou para a política. Ele se tornou o primeiro prefeito desta cidade, que
hoje chama a si mesma de "a Capital da Fé", e posteriormente foi escolhido
como vice-governador de seu Estado natal e eleito para o Congresso, apesar
de nunca ter exercido nenhum destes cargos.
Ele morreu em 20 de julho de 1934,
aos 90 anos de idade. "Entre as classes baixas, havia a sensação de que o
padre Cícero logo retornaria com a declaração do milênio e a libertação do
pobres", disse o dr. Ralph Della Cava, autor de um importante trabalho em
inglês sobre o padre Cícero e um especialista em religiosidade popular no
Brasil.
Com o tempo, tal sentimento passou,
substituído "por uma sensação de que o padre Cícero é tanto um autor de
milagres ou intermediário junto ao Ente Supremo quanto qualquer santo
legítimo da Igreja", acrescentou Della Cava, um pesquisador associado sênior
do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Colúmbia.
Apesar da contínua relutância da
Igreja Católica Romana em aceitar o padre Cícero e seu legado, outros não
relutaram. Por anos, qualquer político concorrendo a cargos federais ou
estaduais fazia parada de campanha em Juazeiro do Norte; alguns candidatos e
autoridades eleitas até mesmo pagam ônibus fretados e caminhões lotados,
conhecidos como "paus-de-arara", para trazerem os peregrinos aqui.
Antivírus
Um fator para a recente mudança de
posição da Igreja pode ser o fato de que o exército de peregrinos
simplesmente é uma força espiritual poderosa demais para ser ignorada. No
momento em que as seitas protestantes fundamentalistas estão desafiando o
domínio da Igreja Católica Romana por todo o Brasil, faz sentido considerar
os devotos do padre Cícero como aliados, em vez de fanáticos ou cismáticos.
"Graças aos peregrinos e sua fé, as
igrejas evangélicas não estão conseguindo muito progresso por aqui", disse
Panico. "O padre Cícero é como um antivírus."
Manoel de Lima Sousa, pastor de uma
igreja da Assembléia de Deus que dá vista para a estátua gigante, reconheceu
que tem sido mais difícil converter os católicos nesta região do que em
outras partes do Brasil.
Ele descreveu o padre Cícero como "um
grande homem cuja memória merece respeito e que fez coisas admiráveis pelo
povo", mas também disse que os grupos evangélicos não podem aceitar em boa
fé o culto que cresceu em torno dele.
Algumas poucas famílias tradicionais
locais, ainda ofendidas pelo zelo do padre Cícero na defesa dos pobres,
também continuam a expressar dúvidas sobre sua reabilitação. Mas parece não
haver como deter outro milagre em Juazeiro.
"A Igreja esperou 500 anos para
reconhecer que cometeu um erro ao condenar Galileu", disse André Herzog
Cardoso, reitor da Universidade Regional do Cariri daqui. "Eu não acho que
ela cometerá o mesmo erro desta vez. É uma questão de sobrevivência."
Tradução: George El Khouri Andolfato
(©
UOL/The
New York Times) |