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 A mulher sou eu

30/03/2005

Tom Zé e o CD Estudando o Pagode
 

Tom Zé se reinventa com a opereta feminista Estudando o pagode: segregamulher e o amor

Luiz Chagas

   Tom Zé, o baiano mais tropicalista de todos os tropicalistas baianos, reaparece com o petardo Estudando o pagode – na opereta segregamulher e amor (Trama), opereta em três atos Mulheres de apenas, Latifundiários do prazer e Amor ampliado para o teatro e para o país – que coroa quatro anos de estudos e pesquisas realizados pelo compositor e por Neusa, sua mulher, a partir da idéia da inexistência de um período da humanidade em que a sociedade fosse matriarcal.

   O que vigorou antes da dominação exercida pelo homem foi uma sociedade sexualmente igualitária. Irreverente até a medula, Tom Zé alega que “sou mulher, sempre fui mulher, fui o fraco lá de casa, o nordestino em São Paulo, aquele que
tem menos opinião”. E como homem denuncia a mendicância a que seu
sexo foi reduzido diante do feminismo.

   Para não cometer besteira, como diz, o baiano contou com dois júris para julgar o que ia criando. Neusa apontava o que lhe era digno ou não. Pedro José, 17 anos, e sua amiga Fernanda Del’Uomo, 16, serviram de censores em termos estéticos.

   “Sobrou material para mais dois discos”, desabafa. Para driblar a censura estética dos estúdios tradicionais, “que obrigam o artista a gravar apenas o que as máquinas captam”, Tom Zé contou com Jair de Oliveira, Paulo Lepetit e outros bambas para apreender os sons gerados por ele e sua banda fiel, acrescida pelas vozes do mesmo Jairzinho e de Suzana Salles, e de convidados como Mônica Fuchs, Luciana Mello, Zélia Duncan, Edson Cordeiro e Luciana Paes de Barros – esta responsável por sons de jegue e orgasmo incontido. Incluindo citações que vão de Tom Jobim e Adoniran Barbosa a J.S. Bach, Tom Zé sente que o pagode está hoje como o samba em 1976, quando lançou Estudando o samba.

   Denegrido, subestimado. E o que criou, o pagodueto, ao qual incita os ouvintes a se juntar, é Tom Zé em sua melhor forma. Que ninguém se assuste ao ouvir músicas como Estúpido rapaz, Beatles à granel, Elaeu, Quero pensar (a mulher de Bath) e Canção de Nora (casa de bonecas) nas rádios. A montanha veio a Tom Zé.

(© ISTO É)


Tom Zé mergulha no ritmo de Zeca Pagodinho, que busca novas possibilidades musicais

As duas faces do pagode

Alexandre Campbell/Folha Imagem

O sambista carioca Zeca Pagodinho, que lança o CD "À Vera"


LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

   Muito antes de o pagode se tornar um subgênero do samba, Zeca já era Pagodinho, apelido retirado da ala que sua família tinha no bloco Bohêmios de Irajá.

   Quando o subgênero explodiu, em 1986, ele estava à frente, vendendo 1 milhão de cópias de um disco de produção paupérrima.

   Nos últimos dez anos, enquanto o pagode virava o retrato da diluição do samba, Zeca mostrava, em parceria com o arranjador Rildo Hora, como as possibilidades do samba são infinitas. "À Vera", seu novo CD, eleva isso à máxima potência: são dezenas de músicos em ação, o uso de instrumentos raros no gênero como oboé e harpa, e 15 faixas que resumem a farta oferta de compositores.

   "Escolho 15 em 1.500. Para mim, música não falta; sobra", afirma Zeca, derrubando qualquer clichê do tipo "faltam novos compositores no Brasil".

   Mas Zeca não tem sambas fresquinhos só porque vende mais -segundo a gravadora Universal, mais de 7 milhões de unidades desde 1995, entre CDs e DVDs. Tem porque, mesmo nos seus momentos de baixa (entre 1988 e 1994), não se rendeu à pasteurização do pagode de butique. E, nos de alta, nunca se esqueceu dos que surgiram com ele nos quintais do subúrbio carioca, como a quadra do Cacique de Ramos.

   "É a turma que começou e sempre esteve comigo. Mas há espaço para outros. O pessoal do [morro do] Tuiuti surgiu muito bem neste disco", diz.
O "pessoal" é Bidubi, Brasil, Luizinho Toblow e Élcio do Pagode, autores da faixa-título do CD.


Em "À Vera", carioca explora as possibilidades do samba ao reunir time dos sonhos e instrumentos pouco usuais


   São sambistas que já estiveram em outros discos de Zeca, mas precisam renovar seu visto de entrada a cada trabalho. Pecê Ribeiro ingressou agora nesta fila: está pela primeira vez no time graças a "Pra São Jorge".

   Já Nelson Rufino, Arlindo Cruz, Trio Calafrio, Dudu Nobre, Zé Roberto, Ratinho, Monarco, Mauro Diniz, Nei Lopes, Almir Guineto e Serginho Meriti têm vaga cativa. Com exceção do primeiro, baiano, os outros formam uma espécie de "dream team" do samba carioca, e sabem traduzir o Rio que Zeca gosta de cantar: dos bares, das rodas, da vida suburbana, dos subempregados que lutam para se manter honestos, do cotidiano das favelas.

   "Ainda hei de ver essa gente [das favelas] em paz. O verdadeiro inimigo está fora, em outro lugar. Nós, do subúrbio e dos morros, não podemos ser inimigos."
A aparente simplicidade de Zeca esconde uma grande sofisticação: na maneira de cantar, na abertura para outras idades e tendências -seus novos amigos Marcelo D2 e Seu Jorge participam do CD- e no aval que dá a Rildo para incluir elementos de música sinfônica nos arranjos.

   "Não estudei com Guerra Peixe para escrever para caixa de fósforo. O samba pode receber muito mais do que cavaquinho, violão, couro e ritmo. Mas está tudo lá atrás [nos arranjos]. Na frente é a batucada", diz Rildo.

(© Folha de S. Paulo)


As duas faces do pagode

CARLOS CALADO
ESPECIAL PARA A FOLHA

   Trinta anos atrás, ele denunciou a crescente diluição do samba, num dos discos mais inovadores daquela década. Agora, Tom Zé volta à carga em "Estudando o Pagode", seu novo CD. O alvo, na verdade, é o mesmo, mas o irreverente compositor baiano soa mais engajado e ferino do que nunca.

   "Existem os que propagam o pagode como ele está, o estilo cafona e a vulgaridade. Não sou um deles", afirma, em um panfleto que distribuiu à imprensa. "O gosto médio está podre", dispara.

   O projeto nasceu por acaso. Ao notar que o pagode tinha se tornado trilha sonora dominante das festas de seus vizinhos de classe média, no bairro de Perdizes (SP), Tom Zé decidiu se aprofundar no assunto. Para isso, emprestou do zelador do prédio discos dos pagodeiros Belo e Netinho.

   "Reparei que os produtores ventilavam por todos os gêneros de samba, para disfarçar a diluição do pagode. Pensei: se eles fazem assim, também posso fazer alguma coisa", conta o compositor, que exibe 16 supostos pagodes de sua autoria, classificando-os em gêneros que inventou, como "pagode alienado", "pagó-denúncia" e "pagó-dueto".


No disco conceitual "Estudando o Pagode", artista analisa o gênero musical e reverencia o sexo feminino


   Mas o militante Tom Zé não se limita à missão de dissecar e recriar a vertente degenerada do samba. Subintitulado "Na Opereta Segrega Mulher e Amor", o disco serve de veículo para uma denúncia inflamada, mas bem-humorada, da segregação que o homem tem imposto à mulher.

   "Nasci mulher. Em casa eu era o fraco, apanhava no colégio", diz, explicando a origem de sua empatia pelas desventuras do sexo feminino. "O homem perdeu a possibilidade de a mulher ficar nua junto dele. A roupa é tirada, a transa acontece, mas aquela interseção que a mulher faz para levar o homem ao divino desapareceu. A mulher não tem mais confiança para abrir suas entranhas."

   Quanto à idéia de utilizar um gênero teatral para discutir esse assunto, Tom Zé lembra que seu namoro com as artes cênicas é antigo. "Venho me aproximando disso. Meus discos são cada vez mais temáticos e contidos num assunto só."

   Mesmo assim, diz que os shows de lançamento do disco -de sexta a domingo, no Sesc Pinheiros (SP)- não serão muito teatrais. Para desempenhar a seu lado, no disco, os papéis dessa opereta, Tom convocou os cantores Suzana Salles, Luciana Mello, Zélia Duncan, Patrícia Marx, Edson Cordeiro e Jair Oliveira, que assina a produção e divide com ele os arranjos.

   Já cantoras como Mônica Salmaso e Rebeca Matta não participam das gravações, mas foram homenageadas pelo compositor. "Quis trazê-las para junto de mim", justifica o compositor, orgulhoso por ter suas canções gravadas por essas intérpretes. "Eu, que nunca tinha sido gravado na minha vida, fui um dos artistas mais tocados no ano passado."

Carlos Calado é jornalista e crítico musical, autor de "O Jazz como Espetáculo", entre outros livros.

(© Folha de S. Paulo)


ZECA POR TOM ZÉ

"O pagode que faz sucesso agora é apenas a diluição de um pagode que os grandes doutores das escolas de samba faziam. Zeca Pagodinho parece uma pessoa que tem um espírito mais consistente. Em volta dele não parece haver só oportunismo, também tem alguma coisa ligada à escola de samba, alguns pequenos toques que ainda refletem a sociedade. Então ele é uma coisa diferente desse pagode que virou o depositário infeliz de tudo que esse saco de gato da cultura de massa submete à população brasileira."

TOM ZÉ,
cantor e compositor

(© Folha de S. Paulo)


TOM ZÉ POR ZECA

"Tom Zé demorou muito a ressurgir. Quando voltou, nos anos 90, já estava mais do que na hora, porque era um grande compositor brasileiro que andava esquecido. É uma figura sensacional. Um cantor divertido e muito bom. Li no jornal outro dia que o disco dele ia falar de pagode. Não tenho dúvidas de que é bom. Se ele está falando de pagode, certamente está falando bem. E estamos aí para conversar e ajudar no que for preciso. O Tom Zé pode contar comigo."

ZECA PAGODINHO,
cantor e compositor

(© Folha de S. Paulo)


Pagode é pretexto para novo olhar sobre a música brasileira


Estudando o pagode

Tom Zé
Hugo Sukman

   O mais terrível e fiel dos tropicalistas, por isso mesmo Tom Zé nunca evitou o feio, o precário, o subdesenvolvido. Ou, o que ele mesmo definiu de forma mais precisa, o “incipiente”, no sentido em que incipientes eram as “soluções proveitosas” que a música sertaneja de sua infância na Bahia achava do nada de recursos, apenas da cultura. (Isso em contraponto ao veio principal da música brasileira, que da velha Chiquinha Gonzaga a um Guinga hoje é produtora incessante e compulsiva de beleza, só de beleza).

   Há muito do tal incipiente tropicalista à maneira de Tom Zé em “Estudando o pagode” (Trama), como a música feita muitas vezes de colagens de outras músicas; elementos não aparentemente poéticos como economia, mitologia e história inspirando canções; o vocal rude e por vezes discursivo e anti-musical; o uso de recursos não profissionais como os naipes de flautinha de folha de fícus...

   Mas há algo novo no novo Tom Zé, a sua parceria com Jair Oliveira, que como compositor e, no caso produtor de “Estudando o pagode”, seria o antiTom Zé: o que busca a beleza na tradição brasileira, e o músico e produtor profissionalíssimo, graduado em Berklee, a mais prestigiada escola americana de música. É uma parceria ideal, iniciada na verdade em algumas faixas do CD anterior de Tom Zé, “Imprensa cantada”, um parceiro dando ao outro o que o outro não tem: Tom Zé injetando conteúdo, idéias, experiência à criatividade musical compulsiva (e por vezes dispersa e vazia) do jovem Jair; e Jair, como diz Tom Zé no encarte, “explodindo em argúcia, adequação e proficiência”, proporcionando ao compositor o seu melhor disco em termos musicais e técnicos, no sentido do belo mas também da melhor comunicação das idéias.

Quatro cantoras participam das gravações

   Com Jair, que co-arranja e toca vários instrumentos em todas as faixas, vieram músicos e, principalmente, cantoras de igual precisão técnica: Zélia Duncan, Luciana Mello, Patricia Marx, Suzana Salles, vozes perfeitas que dividem os vocais com Tom Zé e Jair.

   São justamente tais aparentes contradições, o conflito entre o incipiente e a plenitude de meios artísticos, e a multiplicidade de leituras que dão o tom de “Estudando o pagode”. A começar pelo título, referente ao célebre “Estudando o samba”, disco de 1976 no qual o incipiente Tom Zé humildemente tentava aprender com mestres (como Elton Medeiros) a fazer samba, como injetava ironicamente sujeiras, imperfeições, novas influências no gênero central da MPB. Mas também ao “pagode” como metáfora de uma cultura popular sempre desprezada, “o pagode, esse alcoviteiro sem-vergonha, lascivo, que foi perverter, desviar, desatinar (...) Esse facilitador de namoros”, como diz em “Duas opiniões”.

   Nesse sentido, “Estudando o pagode” é o mais ambicioso e complexo de seus discos. E não apenas por ser na verdade uma opereta em três atos, “Segregamulher e amor”, cuja ambição é, simplesmente, contar a história de séculos da opressão feminina pela civilização ocidental, que por si merecia todo um estudo à parte. Mas por trazer reunido numa só peça todos os procedimentos musicais que Tom Zé usou até hoje.

   Assim, está lá a colagem tropicalista de “Prazer carnal”, a primeira parte construída sobre a melodia da “Ária da Quarta Corda”, a música de Bach das mais usadas em casamentos (usada em sua beleza mas também pelo viés da ironia numa letra que fala da separação entre prazer e amor como forma de subjugar a mulher), sendo invadida por melodias e as letras subvertidas de “O amor em paz” e “Dindi”, de Jobim. Está lá a música-discurso, um samba ao modo de Adoniran Barbosa, “A volta do trem das onze”, no qual os personagens do próprio Adoniran reivindicam mais atenção ao transporte ferroviário: “Comemoremos Mato Grosso, eu e Joca/Com Iracema e o Arnesto na maloca”.

   Estão lá os infinitos jogos de palavras de corar concretistas — “O que te ilude é Roliúde/Roliúde-ude/A cinderela bugue-ugue/Bugue-ugue bugue/Prefiro meu pagode-wood/God me sacode/Te deixo com teu rock-bode” em “Pagode-enredo dos tempos do medo” — e as infinitas citações, que chegam ao paroxismo no samba “Quero pensar”, tão lidamente cantado por Luciana Mello, invadida pelo “É com esse que eu vou”, de Pedro Caetano, e depois por “A felicidade” (Tom e Vinicius) e o “Soneto da fidelidade”, de Vinicius subvertido (“O eterno amor sonhar/Em termos ancestrais/Não aquela eternidade de Vinicius de Moraes/Tristeza não, tristeza fim”).

   Por sua ambição (e por algumas células dodecafônicas em certas canções), “Segregamulher e amor”, lembra uma opereta do Arrigo Barnabé iniciante, como “Clara Crocodilo”. Mas diferentemente de Arrigo, que tem a música como centro e o uso de elementos da música contemporânea no terreno da MPB e da cultura pop, Tom Zé prioriza as idéias. É pop ponto. É, mais do que propriamente um artista, um crítico que usa para se expressar, em vez do texto, o objeto que critica — a música e a cultura populares do Brasil.

   A beleza e só a beleza continua (e deve continuar, para sempre) a ser o paradigma da música brasileira e Tom Zé por vezes a alcança como na melodia e no contraponto de “Duas opiniões”, lindamente cantada por Zélia Duncan e Suzana Salles. Mas para melhor apreciá-la, a beleza, às vezes faz bem olhar para ela como se ela não fosse bela. Talvez seja mais ou menos isso que o complexo Tom Zé faça com a música brasileira.

(© O Globo Online)


Pagodeiro das elites

No CD Estudando o Pagode, Tom Zé defende as mulheres numa bizarra opereta ao som de samba

LUÍS ANTÔNIO GIRON

Divulgação
MENDIGO Tom Zé canta guerra dos sexos e diz que o homem rasteja por amor

   O novo disco de Tom Zé é uma floração tardia do tropicalismo. Nesta excêntrica opereta sobre a opressão da mulher, ressurgem materiais e os ideais libertários forjados pelos músicos que fundaram o tropicalismo em São Paulo, em 1967. O som bizarro e o brutalismo panfletário lembram o tempo do proibido proibir. O CD se divide em três atos e contém a opereta Segregamulher e Amor. Suas 16 ''árias'' (que batizou de pagodes e pagoduetos) poderiam constar das coletâneas iniciais da tropicália.

   Não que a peça soe anacrônica. Ela reforça as convicções imutáveis de seu autor, embora inove aqui e ali. Tom Zé, dez mais velho que seus confrades (nasceu em 1936), foi o mais radical, o único a ter estudado com o revolucionário luthier Walter Smetak - daí seu fascínio por timbres não-convencionais. Tom e amigos se associaram aos semióticos da PUC-SP e aos poetas concretos. No fim do movimento, em 1969, Tom mudou-se para perto dos concretos, no bairro de Perdizes, onde ainda mora, convivendo com o que restou da onda: epígonos, professores adeptos de aulas-shows e extraviados da vanguarda. Eles vêem Tom como parceiro. O que não impede que jovens DJs o adotem como padroeiro. Tom une gerações.

   O CD tem participação de cantores mais moços: Zélia Duncan, Édson Cordeiro, Suzana Salles e Patrícia Marx. Tom, quinteto e Suzana iniciam nesta sexta-feira, 1°, no Teatro Sesc Pinheiros, a turnê para lançamento do disco. Ela percorre o Brasil e vai a Paris em meados do mês e em julho. David Byrne vai editar o disco nos Estados Unidos. Ouvindo Estudando o Pagode, é possível não só reconhecer o som dos anos 60, como concluir que o músico foi o único tropicalista ortodoxo. ''Sou péssimo compositor, poeta e músico'', diz a ÉPOCA. ''Por isso, eu me tornei exigente.''

   O título se refere ao LP Estudando o Samba (1976). ''Então, como hoje, o samba estava vilipendiado'', diz. ''Refinei o gênero que havia perdido a dignidade.'' No novo CD, tenta salvar o pagode. ''No meu prédio, o pessoal faz churrasco cantando músicas do Belo. Era a 'pagodização' das elites. Notei que as músicas traziam a essência do samba. O pagode é lixo cultural. Quero mostrar que o povo pode elitizar o pagode, se tiver educação. Inventei 16 tipos de pagode, do metafísico ao pagodueto. Sou um pagodeiro educado.''

   Outra inovação reside na estrutura. Ele inventou a ''harmonia induzida'': ''Sobre um pedal grave com um acorde básico, crio melodias dissonantes que o leigo corrige ao entoar.'' Usando folhas de fícus fendidas como palhetas, cria uma ''banda de fícus de Irará'', fornecendo um timbre inusitado às árias.

   Pelas inovações que continua enxertando na música pop, Tom se questiona: ''Só fica uma mágoa dos meus companheiros tropicalistas: por que não me deram o crédito que mereço?''. A resposta talvez seja simples: porque ele se tornou o motor sonoro da tropicália. Com isso, espantou os amigos. Estudando o Pagode é a prova de que ninguém poderia superá-lo na composição crítica, turbulenta e evolutiva. Só restou aos outros declarar o fim do movimento e partir para outros caminhos.
 

Lançamento
Estudando o Pagode
Artista
Tom Zé
Gravadora
Trama
Preço
R$ 30

(© ÉPOCA)

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