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Seminário de cinema tem manifesto poético e exibição de filme proibido de
Glauber Rocha
Carlos Heli de Almeida
SALVADOR - Ao fim da cerimônia de abertura do Seminário Internacional de
Cinema e Audiovisual, no início da noite de segunda-feira, em Salvador, o
ator baiano Jackson Costa inicia um discurso em defesa do cinema pátrio que,
num crescendo, assume o tom de um panfleto poético. Cabelos longos, barba e
bigodes fartos, olhos injetados de paixão, mãos agitadas acompanhando cada
mudança na entonação da voz, era como se Costa tivesse mandado a platéia de
volta aos anos 60, das performances-protesto.
Aplaudido, o ato do artista preparou o público para a
projeção de Di (1977), de Glauber Rocha (1938-1981), o delirante
curta-metragem cujo nome oficial é Ninguém assistirá ao formidável
enterro da tua última quimera, somente a ingratidão, aquela pantera, foi sua
companheira inseparável! , banido das telas brasileiras desde 1979, no
qual o diretor documenta com uma câmera de 16mm o velório e o enterro do
pintor Di Cavalcanti.
- Foi muito bom ver novamente uma manifestação
oswaldiana, antropofágica - diria horas mais tarde o pesquisador e ensaísta
americano Robert Stam, um dos palestrantes convidados pelo evento.
A qualidade do som e da imagem da projeção (em DVD), que
encheu de alegorias o telão montado no auditório da reitoria da Universidade
Federal da Bahia, não era das melhores. Mas o estilo incendiário e a
perplexidade de seu autor estão intactos, quase 28 anos depois de sua
realização. No próprio áudio do filme, Glauber lembra que entrou no velório
do pintor, realizado no Museu de Arte Moderna do Rio, sem pedir permissão ou
avisar à família do artista. Logo depois do lançamento do filme, em 1979, a
filha do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti conseguiu um mandado de segurança
contra a exibição de Di.
- Não pedimos a autorização da família do artista para a
exibição do filme aqui. Acho que eles já estão se cansando de manter essa
briga. E não haveria razão para criar caso com este evento; a projeção no
seminário não é aberta ao público em geral, não é cobrado ingresso - disse
Paloma Rocha, filha de Glauber, de volta do Festival Théâthres au Cinema de
Bobigny , na França, que este ano prestou homenagem à obra de seu pai.
- Lá em Bobigny a gente exibiu uma cópia do filme
restaurada e ampliada para 35mm, que foi um sucesso - contou Paloma.
Di ritualiza de forma alternativa o adeus de Glauber ao
''pintor do Catete''. É um funeral ''poético'', nas palavras do próprio
diretor, que combina o registro da movimentação no velório e do enterro do
artista com interferências dramáticas (em certo momento, o ator Joel
Barcelos assume uma das alças do caixão), recortes de jornais que noticiam o
acontecimento e a indignação da família do morto diante da filmagem. O filme
atenta para o fato de poucos amigos terem participado da última homenagem ao
pintor. E não se cansa de mostrar a tristeza de Marina Montini, uma das
musas de Di Cavalcanti, elegante em seu turbante preto e óculos escuros.
As imagens são pontuadas pela locução raivosa de Glauber
que, em diferentes estilos narrativos, descreve encontros com o pintor e
impressões sobre sua obra.
- É uma pena que o áudio dessa projeção aqui no seminário
estivesse prejudicada. Em um dos depoimentos deixados por Glauber, que eu
aproveitei no meu documentário Retrato da terra, ele diz que estava
interessado em experiências com estilos narrativos, quando fez Di -
explicou
(©
JB Online)
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