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Cantora paraibana grava um CD em parceria com o
sanfoneiro pernambucano para realçar a importância dele à
indústria fonográfica
por JOSÉ TELES
O garanhuense José Domingos de Moraes,
Dominguinhos, é a melhor comprovação do preconceito que
sofre o forró no Brasil. O maior artista vivo do gênero
tem 90% de sua discografia fora de catálogo (não por
acaso, os que atua como forrozeiro). Embora assine
clássicos como Lamento sertanejo Tenho sede
Só quero um xodó Xote da embarcação não há
songbooks com sua obra. Por fim, mas não menos importante,
Dominguinhos está há dois anos sem contrato com gravadora.
Por isto, mesmo que trazendo apenas uma dúzia de
canções composta por ele (com parceiros), o CD Elba
Ramalho e Dominguinhos(BMG) chama atenção para tal
descaso: “Minha intenção era esta, tentar fazer com que as
gravadoras atentassem para a importância de um músico,
para mim, dos maiores do mundo, um compositor de primeira,
capaz de compor qualquer tipo de música. Sei que ele não
precisa, mas para mim é sempre uma honra trabalhar com
Dominguinhos”, ratifica Elba Ramalho.
Ela já havia elucubrado algo semelhante quando produziu
o último disco de Marinês (pernambucana de São Vicente
Férrer, cuja carreira começou em Campina Grande): “Gravei
com ela, lancei aquele disco, e consegui que vissem a
importância daquela mulher, as gravadoras se interessaram,
lançaram o CD e relançaram outros”, completa Elba Ramalho.
Este projeto em dupla surgiu no ano passado, quando a
cantora convidou Dominguinhos para ambos apresentarem uma
temporada curta (quatro shows), no Rio e em São Paulo.
O repertório do CD, a cantora diz que foi consenso
entre ela e Dominguinhos, a releitura de sucessos do
compositor, com algumas menos conhecidas: “Como
Dominguinhos tem uma discografia extensa, e uma duzentas
ou mais inéditas, a escolha seria difícil. As duas que não
foram feitas por ele, uma é de Zezum, que toca com
Dominguinhos há vinte anos. Outra é Tato, do Falamansa, um
talento da nova geração de compositores de forró. Estas eu
mesma escolhi até para homenagear uma turma para a qual
nós somos referência”, explica.
Notória garimpeira de novos autores de forró (das
primeiras a gravar Maciel Melo), Elba tenta aplicar a
diplomacia ao comentar a predominância do chamado forró
eletrônico nas festas nordestinas, mas não consegue evitar
de desfechar-lhes certeiras alfinetadas: “Eu não quero
ferir os meninos, acho que cada um tem seu espaço, a gente
respeita, mas vi, uma vez, um pouco do show do Calcinha
Preta e não gostei. Aqueles temas, aquelas dançarinas,
nada daquilo acrescenta nada à música brasileira. Sei que
têm público, mas é uma pena, porque com tanta gente boa
que há no Nordeste...”
O show que gerou o disco gerará um novo show (estréia
dia 7 de maio, no Tom Brasil em São Paulo), que, por sua
vez, dará cria a um DVD, que será gravado, no final de
maio, no Recife, no Chevrolet Hall: “Não definimos a data,
nem os convidados, só o local está confirmado”, diz Elba
Ramalho.
DISCO - Elba e Dominguinhos são linhas paralelas
que subvertem o dogma matemático e se encontraram antes do
infinito. Ela começou emepebista, gravando inéditas de
Chico Buarque, e acabou caindo no forró. Dominguinhos
começou forrozeiro e terminou emepebista, parceiro de
Chico Buarque (aceitando-se a classificação elitista de
que forró não é MPB). Teorizações à parte, a união da voz
agreste, anasalada de Elba Ramalho (com assumidas
influências de Marinês), e a voz abaritonada de
Dominguinhos (com óbvias influências de Luiz Gonzaga), dá
continuidade ao trabalho de duas grandes vozes
nordestinas.
O maranhense Zé Américo, sanfoneiro, tecladista,
arranjador tarimbado, dá um traquejo diferenciado à
canções manjadas, inserindo instrumentos eletrônicos E
sopros no forró, mostrando que os ritmos nordestinos podem
ser modernizados, sem ser abastardizados. Além de
ressaltar o talento de Dominguinhos, como cantor, o disco
também tira do limbo músicas como Retrato da vida
perdida no repertório do parceiro Djavan, ou Pedras que
cantam (com Fausto Nilo) uma conta a mais no rosário
de sucessos de Fagner. Elba Ramalho e Dominguinhos
simplesmente música contemporânea nordestina de qualidade,
um antídoto ao pseudoforró modernoso e padronizado que
assola a região.
(©
JC Online)
Concurso para viola
ganha nova edição
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2º Prêmio Syngenta de Música Instrumental de Viola contempla Nordeste
com uma eliminatória no Recife
por MARCOS TOLEDO
De Campinas, interior de São Paulo, surge mais uma oportunidade
para os músicos de viola – da caipira à erudita – divulgarem seus
trabalhos. Desde o último dia 22 estão abertas as inscrições para o 2º
Prêmio Syngenta de Música Instrumental de Viola que, este ano, prevê a
distribuição de R$ 55 mil, além da gravação de um CD com uma faixa de cada
um dos 16 finalistas.
Em 2004, entre os finalistas estava o pernambucano Cláudio Moura,
integrante do grupo SaGrama e do Nenéu Liberalquino Trio. O músico
defendeu sua composição Cascalho incluída no disco da primeira
edição, lançado simultaneamente ao lançamento da segunda edição do
concurso, semana passada, em São Paulo. A participação de Cláudio e da
conterrânea Maíra Macedo – que não teve seu tema classificado para a
final, mas acompanhou a execução de Cascalho– atraiu a atenção dos
organizadores para o Nordeste, que ganha uma eliminatória, no Teatro Santa
Isabel do Recife em 9 de setembro.
Segundo o músico e curador Ivan Vilela, o Recife foi uma proposta para
a primeira versão do prêmio, porém, ficou de fora pela limitação de
recursos (os participantes pernambucanos se inscreveram na etapa de
Brasília). “Seria a oportunidade de mostrar um lugar onde a viola é
trabalhada com certa exuberância”, considerou. Chance que, nessa segunda
edição, será concretizada.
O evento, que em 2004 recebeu 173 inscrições, é realizado pela
produtora Direção Cultura, de Campinas, com patrocínio da empresa de
agronegócios Syngenta via Lei Rouanet. Ao todo, com a realização das seis
etapas – que inclui ainda São Paulo, Goiânia, Belo Horizonte, Ribeirão
Preto e Curitiba, todas com acesso gratuito –, a final (na qual é cobrado
um ingresso simbólico – em 2004 foi de R$ 5, doado para instituição
beneficente) e a produção do CD, estima-se que serão gastos cerca de R$
600 mil, um aumento de 50% em comparação ao ano passado.
Para cada etapa, podem se inscrever músicos de qualquer lugar do País,
desde que banquem com seus próprios custos. Apenas os participantes da
final – realizada no Teatro Alfa, em São Paulo – terão suas despesas pagas
pela organização do evento. São premiados do primeiro ao quinto colocado
com valores que vão de R$ 10 mil a R$ 3 mil. Há ainda prêmios para o
artista revelação e o eleito por aclamação do público (R$ 3 mil cada um),
e nove prêmios de R$ 2 mil por participação.
Em 2004, o júri contou a presença do próprio Ivan Vilela – considerado
um dos principais nomes da viola no Brasil – e de outros especialistas
como o também instrumentista Paulo Belinatti e o crítico musical Tárik de
Souza. Para este ano, está previsto um júri com sete integrantes.
(©
JC Online)
Primeira edição
provou que experiência não é tudo
Outra novidade na edição deste ano do Prêmio Syngenta de Música
Instrumental é a possibilidade de um autor inscrever músicas não-inéditas,
desde que defendidas por ele próprio. “Almir Sater pode participar, se
quiser”, exemplificou o curador Ivan Vilela.
Ainda de acordo com Ivan, tendo em vista a experiência do ano passado,
todos os 16 compositores que chegam à final são potenciais para faturar o
primeiro lugar. “O que conta é a performance”, explica. “A gente avalia a
composição, o desenvolvimento da idéia, a forma da música e como o
intérprete traz isso para o instrumento.”
Essa, talvez, tenha sido a fórmula que possibilitou ao ex-pedreiro e
músico autodidata Sidnei de Oliveira, natural de São Francisco de Paula
(RS), ganhar o primeiro prêmio de 2004 com seu tema Esplendor
desbancando renomes de grande experiência, inclusive acadêmica. “Mexeu com
os brios dos mais velhos”, reconhece Ivan. Na eliminatória, em Curitiba,
Sidnei já havia batido o próprio professor.
Após vencer o prêmio, o gaúcho Sidnei (agora com 24 anos de idade)
largou de vez a profissão que herdou do pai e passou a se dedicar
exclusivamente à música. Surgiram oportunidades para estudar na
Universidade de São Paulo (USP) – que, este ano, abriu o curso de
Bacharelado em Viola –, dar aulas, participar de especiais na TV e de
gravações, tocar em bares, e fazer o circuito do Sesc paulista – show que
ele há muito pretendia produzir, mas penava para obter patrocínio. Há
menos de um mês, mudou-se de Caxias do Sul (RS) para Ribeirão Preto (SP).
(©
JC Online)
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