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 Elba dá a mão a Dominguinhos

30/03/2005

Elba Ramalho
 

Cantora paraibana grava um CD em parceria com o sanfoneiro pernambucano para realçar a importância dele à indústria fonográfica

por JOSÉ TELES

   O garanhuense José Domingos de Moraes, Dominguinhos, é a melhor comprovação do preconceito que sofre o forró no Brasil. O maior artista vivo do gênero tem 90% de sua discografia fora de catálogo (não por acaso, os que atua como forrozeiro). Embora assine clássicos como Lamento sertanejo Tenho sede Só quero um xodó Xote da embarcação não há songbooks com sua obra. Por fim, mas não menos importante, Dominguinhos está há dois anos sem contrato com gravadora.

   Por isto, mesmo que trazendo apenas uma dúzia de canções composta por ele (com parceiros), o CD Elba Ramalho e Dominguinhos(BMG) chama atenção para tal descaso: “Minha intenção era esta, tentar fazer com que as gravadoras atentassem para a importância de um músico, para mim, dos maiores do mundo, um compositor de primeira, capaz de compor qualquer tipo de música. Sei que ele não precisa, mas para mim é sempre uma honra trabalhar com Dominguinhos”, ratifica Elba Ramalho.

   Ela já havia elucubrado algo semelhante quando produziu o último disco de Marinês (pernambucana de São Vicente Férrer, cuja carreira começou em Campina Grande): “Gravei com ela, lancei aquele disco, e consegui que vissem a importância daquela mulher, as gravadoras se interessaram, lançaram o CD e relançaram outros”, completa Elba Ramalho. Este projeto em dupla surgiu no ano passado, quando a cantora convidou Dominguinhos para ambos apresentarem uma temporada curta (quatro shows), no Rio e em São Paulo.

   O repertório do CD, a cantora diz que foi consenso entre ela e Dominguinhos, a releitura de sucessos do compositor, com algumas menos conhecidas: “Como Dominguinhos tem uma discografia extensa, e uma duzentas ou mais inéditas, a escolha seria difícil. As duas que não foram feitas por ele, uma é de Zezum, que toca com Dominguinhos há vinte anos. Outra é Tato, do Falamansa, um talento da nova geração de compositores de forró. Estas eu mesma escolhi até para homenagear uma turma para a qual nós somos referência”, explica.

   Notória garimpeira de novos autores de forró (das primeiras a gravar Maciel Melo), Elba tenta aplicar a diplomacia ao comentar a predominância do chamado forró eletrônico nas festas nordestinas, mas não consegue evitar de desfechar-lhes certeiras alfinetadas: “Eu não quero ferir os meninos, acho que cada um tem seu espaço, a gente respeita, mas vi, uma vez, um pouco do show do Calcinha Preta e não gostei. Aqueles temas, aquelas dançarinas, nada daquilo acrescenta nada à música brasileira. Sei que têm público, mas é uma pena, porque com tanta gente boa que há no Nordeste...”

   O show que gerou o disco gerará um novo show (estréia dia 7 de maio, no Tom Brasil em São Paulo), que, por sua vez, dará cria a um DVD, que será gravado, no final de maio, no Recife, no Chevrolet Hall: “Não definimos a data, nem os convidados, só o local está confirmado”, diz Elba Ramalho.

   DISCO - Elba e Dominguinhos são linhas paralelas que subvertem o dogma matemático e se encontraram antes do infinito. Ela começou emepebista, gravando inéditas de Chico Buarque, e acabou caindo no forró. Dominguinhos começou forrozeiro e terminou emepebista, parceiro de Chico Buarque (aceitando-se a classificação elitista de que forró não é MPB). Teorizações à parte, a união da voz agreste, anasalada de Elba Ramalho (com assumidas influências de Marinês), e a voz abaritonada de Dominguinhos (com óbvias influências de Luiz Gonzaga), dá continuidade ao trabalho de duas grandes vozes nordestinas.

   O maranhense Zé Américo, sanfoneiro, tecladista, arranjador tarimbado, dá um traquejo diferenciado à canções manjadas, inserindo instrumentos eletrônicos E sopros no forró, mostrando que os ritmos nordestinos podem ser modernizados, sem ser abastardizados. Além de ressaltar o talento de Dominguinhos, como cantor, o disco também tira do limbo músicas como Retrato da vida perdida no repertório do parceiro Djavan, ou Pedras que cantam (com Fausto Nilo) uma conta a mais no rosário de sucessos de Fagner. Elba Ramalho e Dominguinhos simplesmente música contemporânea nordestina de qualidade, um antídoto ao pseudoforró modernoso e padronizado que assola a região.

(© JC Online)


Concurso para viola ganha nova edição

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2º Prêmio Syngenta de Música Instrumental de Viola contempla Nordeste com uma eliminatória no Recife

por MARCOS TOLEDO

   De Campinas, interior de São Paulo, surge mais uma oportunidade para os músicos de viola – da caipira à erudita – divulgarem seus trabalhos. Desde o último dia 22 estão abertas as inscrições para o 2º Prêmio Syngenta de Música Instrumental de Viola que, este ano, prevê a distribuição de R$ 55 mil, além da gravação de um CD com uma faixa de cada um dos 16 finalistas.

   Em 2004, entre os finalistas estava o pernambucano Cláudio Moura, integrante do grupo SaGrama e do Nenéu Liberalquino Trio. O músico defendeu sua composição Cascalho incluída no disco da primeira edição, lançado simultaneamente ao lançamento da segunda edição do concurso, semana passada, em São Paulo. A participação de Cláudio e da conterrânea Maíra Macedo – que não teve seu tema classificado para a final, mas acompanhou a execução de Cascalho– atraiu a atenção dos organizadores para o Nordeste, que ganha uma eliminatória, no Teatro Santa Isabel do Recife em 9 de setembro.

   Segundo o músico e curador Ivan Vilela, o Recife foi uma proposta para a primeira versão do prêmio, porém, ficou de fora pela limitação de recursos (os participantes pernambucanos se inscreveram na etapa de Brasília). “Seria a oportunidade de mostrar um lugar onde a viola é trabalhada com certa exuberância”, considerou. Chance que, nessa segunda edição, será concretizada.

   O evento, que em 2004 recebeu 173 inscrições, é realizado pela produtora Direção Cultura, de Campinas, com patrocínio da empresa de agronegócios Syngenta via Lei Rouanet. Ao todo, com a realização das seis etapas – que inclui ainda São Paulo, Goiânia, Belo Horizonte, Ribeirão Preto e Curitiba, todas com acesso gratuito –, a final (na qual é cobrado um ingresso simbólico – em 2004 foi de R$ 5, doado para instituição beneficente) e a produção do CD, estima-se que serão gastos cerca de R$ 600 mil, um aumento de 50% em comparação ao ano passado.

   Para cada etapa, podem se inscrever músicos de qualquer lugar do País, desde que banquem com seus próprios custos. Apenas os participantes da final – realizada no Teatro Alfa, em São Paulo – terão suas despesas pagas pela organização do evento. São premiados do primeiro ao quinto colocado com valores que vão de R$ 10 mil a R$ 3 mil. Há ainda prêmios para o artista revelação e o eleito por aclamação do público (R$ 3 mil cada um), e nove prêmios de R$ 2 mil por participação.

   Em 2004, o júri contou a presença do próprio Ivan Vilela – considerado um dos principais nomes da viola no Brasil – e de outros especialistas como o também instrumentista Paulo Belinatti e o crítico musical Tárik de Souza. Para este ano, está previsto um júri com sete integrantes.

(© JC Online)


Primeira edição provou que experiência não é tudo

   Outra novidade na edição deste ano do Prêmio Syngenta de Música Instrumental é a possibilidade de um autor inscrever músicas não-inéditas, desde que defendidas por ele próprio. “Almir Sater pode participar, se quiser”, exemplificou o curador Ivan Vilela.

   Ainda de acordo com Ivan, tendo em vista a experiência do ano passado, todos os 16 compositores que chegam à final são potenciais para faturar o primeiro lugar. “O que conta é a performance”, explica. “A gente avalia a composição, o desenvolvimento da idéia, a forma da música e como o intérprete traz isso para o instrumento.”

   Essa, talvez, tenha sido a fórmula que possibilitou ao ex-pedreiro e músico autodidata Sidnei de Oliveira, natural de São Francisco de Paula (RS), ganhar o primeiro prêmio de 2004 com seu tema Esplendor desbancando renomes de grande experiência, inclusive acadêmica. “Mexeu com os brios dos mais velhos”, reconhece Ivan. Na eliminatória, em Curitiba, Sidnei já havia batido o próprio professor.

   Após vencer o prêmio, o gaúcho Sidnei (agora com 24 anos de idade) largou de vez a profissão que herdou do pai e passou a se dedicar exclusivamente à música. Surgiram oportunidades para estudar na Universidade de São Paulo (USP) – que, este ano, abriu o curso de Bacharelado em Viola –, dar aulas, participar de especiais na TV e de gravações, tocar em bares, e fazer o circuito do Sesc paulista – show que ele há muito pretendia produzir, mas penava para obter patrocínio. Há menos de um mês, mudou-se de Caxias do Sul (RS) para Ribeirão Preto (SP).

(© JC Online)

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