Gravado em 1989, Engenho dos Meninos é uma parceria do músico com o
percussionista Fernando Falcão e estava até então inédito
JOSÉ TELES
Nos últimos 30 anos, Zé da Flauta esteve envolvido com quase todos
os movimentos musicais acontecidos em Pernambuco. Do udigrudi dos anos 70,
quando integrou o Phetus (com Lailson e Paulo Rafael), tocou com a maioria
dos grupos e artistas daquela década (inclusive no lendário derradeiro
show do Ave Sangria). Ainda nos anos 70, fez parte do Quinteto Violado,
depois da banda De Alceu Valença. Em 1980, gravou o (hoje raríssimo) LP
independente Caruá, com Paulo Rafael (e participação do então
novato Lenine). De volta ao Recife, abriu o Plug, um dos primeiros
estúdios particulares da cidade. Numa época em que a música pernambucana
não dava nem pro consumo interno, produziu e lançou um disco de forró
tradicional que foi indicado ao Grammy (Forró: Music for Maids and Taxi
Drivers). Nos anos 90 trabalhou com a turma do manguebeat, produziu o
último disco de Jacinto Silva, o segundo do Querosone Jacaré, criou, com
Paulo André Pires, o selo Mangrove, entre outros vários projetos.
O músico de reconhecido talento, no entanto, ficou escanteado. Somente
agora, 25 anos depois de Caruá, Zé da Flauta lança mais um disco,
Engenho dos Meninos, desta vez em parceria com o percussionista
Fernando Falcão. Paraibano, exilado na França em 1964, Fernando Falcão,
falecido há três anos de enfarte, segundo Zé da Flauta foi um músico
instintivo: “Era musicalmente um primitivo, mas conseguia fazer música
para uma sinfônica, era também um bom poeta”.
A origem do álbum remonta ao tempo em que ele acompanhou Alceu Valença
em seu auto-exílio na França: “Conheci Fernando quando Alceu gravava o
disco Saudades de Pernambuco, em Paris. Um dia, 14 de julho, festa
da queda da Bastilha, em todo lugar da cidade havia música,os bares
cheios, nos encontramos fomos beber e começamos a trocar idéias, mostrar
músicas um para o outro.
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Quando voltamos ao Brasil, Fernando Falcão continuou na França. Antes
da viagem ele me disse que um dia a gente ia fazer um disco juntos”. Quase
dez anos mais tarde, Zé da Flauta conta que tocaram a campainha da casa
dele: “Fui atender e vi um cara que demorei a reconhecer. Era Fernando
Falcão. A primeira coisa que ele falou foi: ‘Está lembrado do que a gente
combinou? Vim para gravar o disco”. Fernando Falcão trazia consigo sua
parafernália percussiva provando que não estava de passagem: “Hospedei-o
em casa, nos enfurnamos no meu estúdio e começamos a criar as músicas do
disco. Isso durou uns dois meses”, continua Zé. A dupla arregimentou um
time formado por alguns dos melhores instrumentistas do Recife, João Lyra,
Thales Silveira, Mário Lobo, Sergio Reze, entre outros, e as participações
especiais de Dominguinhos, Fagner, e depois de Ivan Espírito Santo e
Benjamin Taubkin: “Fagner veio só para gravar com a gente, direto do
aeroporto para o estúdio. Terminou a gravação e pegou o avião de volta”,
conta Zé da Flauta.
Essas sessões aconteceram em 1989, o disco só agora foi concluído
porque a fita master perdeu-se num estúdio em São Paulo: “Há dois anos um
cara do estúdio remexendo por lá encontrou a fita. Miriam Taubkin
interessou-se em fazer o CD, e mandou fazer a remasterização, e finalmente
o projeto foi terminado”, diz Zé da Flauta. Por fim, o título Engenho
dos Meninos vem do fato de Fernando Falcão ser parente de José Lins do
Rego, de cultuar o filme Menino de Engenho (Walter Lima Jr.),
baseado no livro homônimo do romancista paraibano, que o fazia lembrar de
sua própria infância no engenho da sua família.
(©
JC Online)
Entre a evocação
melódica do passado e a exaltação poética
Engenho dos meninos, a faixa inicial do CD, tem algo de evocativo,
de um Nordeste que não existe mais, um baião com influência de Hermeto
Pascoal, e uma bela linha melódica. Os 14 anos passados desde a gravação
do disco, e a evolução tecnológica faz com que o álbum ressinta-e de um
requinte técnico que os estúdio de então não permitiam. Isto é compensado
pela qualidade da música e dos músicos. Um bom exemplo, é Zunir do mel
(Zé da Flauta/Erasto Vasconcelos), um maracatu melodioso, no qual a
dupla dona do disco é acompanhada por João Lyra, Thales Silveira, e um
coro formado por Gláucia, Dora e Walkíria. Tem alguma coisa do Quinteto
Violado na faixa seguinte, Pipoca, uma das melhores do disco.
Bom poeta, no entanto, Fernando Falcão se exalta na declamação, feito
acontece em Épico, uma peça lenta que não combina com o seu tom de
voz. Diana tem tem o timbre inconfundível da sanfona de
Dominguinhos, sobre o teclado de Benjamin Taubkin, e o canto contido de
Fagner (quando não exagera nos melismas, é sempre um grande intérprete).
Juízo final, que fecha o disco tem tom grandiloqüente, lembrando as
aberturas de antigos festivais da MPB, com naipe de sopro, arranjo do
maestro Duda. Ficaria melhor no início do disco, já que soa mais
apropriada para abrir do que para fechar cortinas.
(©
JC Online)
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