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Pernambuco traz espetáculo bonito, inteligente e tocante

20/01/2006

Cena de Caetana
 
Jefferson Lessa

   O horário (meia-noite, no Teatro Clara Nunes, às sextas-feiras e aos sábados) não ajuda — atenção, estamos no Rio de Janeiro. Mas quem se dispõe a superar o medo de coisinhas miúdas como assaltos e que tais se depara com um espetáculo primoroso. Importada de Pernambuco, onde seguiu carreira de sucesso, “Caetana”, escrita (em parceria com o poeta Weydson Barros Leal) e dirigida por Moncho Rodriguez, está a merecer urgentemente um horário menos ingrato.

Sofisticação dentro de aparente simplicidade

   O espetáculo conta a história de Benta (interpretada lindamente por Lívia Falcão), velha rezadeira esperta que tenta adiar seu encontro com a morte (também conhecida, d’après Ariano Suassuna, por Caetana e interpretada por Fabiana Pirro, que dá vida a todos os outros personagens). Obviamente, Benta não consegue enganar a inimiga e vai parar no Além. Lá, a encomendadora de almas reencontra pessoas a quem ajudou a fazer a passagem e tem uns dedos de prosa com elas. Simplezinho assim.

   Mas veja bem: simplezinho até a página 3. Dentro da aparente simplicidade esconde-se a verdadeira sofisticação de um trabalho pensado e ensaiado até a exaustão. Sabe aquele papo de ser universal falando da sua aldeia? É mais ou menos por aí.

   Além, claro, das atrizes, um dos trunfos de “Caetana” está na cenografia, também a cargo de Moncho Rodriguez. Com pouquíssimos elementos, ele cria um picadeiro a um só tempo moderno e tradicional. E um tanto lúgubre, como se espera de uma peça que trata do medo de encarar a morte e de sua inevitabilidade.

   A iluminação por velas, que são acesas uma a uma por Benta, é bonita e cria o clima certo para a história que está por vir. A trilha sonora de Narciso Fernandes também colabora apesar de, em alguns momentos, soar grandiosa demais para embalar uma história singela. Mas não chega a atrapalhar, pois é usada com parcimônia.

O nariz vermelho de palhaço é um senão

   Outro ponto alto é o texto em versos (não todo, vale ressaltar), inteligente e ágil, adequadíssimo a um espetáculo que mantém e atualiza tradições que datam da Idade Média na Europa, tropicalizadas ao longo dos séculos. Pode não agradar a espectadores não afeitos a “coisas regionais”. Em certos momentos — talvez por se utilizar de uma linguagem regional demais — o espectador não acostumado pode se perder. Sim, este porém atrapalha um pouco a fruição total da peça.

   Outro pequeno senão é o nariz vermelho de Benta, à moda dos palhaços. Já sabemos que estamos diante de uma farsa e não precisamos de algo que “grite” clown .

   Trata-se de uma gota num oceano de figurinos bonitos e expressivos que dão conta do recado com talento. Palmas também para os bonecos manipulados e “dublados” por Fabiana Pirro, que mantêm e atualizam tradições populares tão caras ao Nordeste.

   Resumindo, um espetáculo bonito, inteligente e tocante que justifica plenamente a quantidade de prêmios recebidos e que vale a pena ser conhecido. Mas que, repito, está a merecer um horário menos cruel. Com tantas besteiras sem valor em horário de gente, fica a pergunta: por que empurrar teatro de qualidade para a meia-noite? Aguardamos ansiosamente por uma resposta.

(© O Globo)


Uma atriz entre a carne-seca e o estrogonofe da profissão

Eduardo Fradkin

   Quem nasce para comer carne-seca nunca chega ao estrogonofe, disse certa vez a empregada doméstica Regina da Glória na novela “Belíssima”. Curiosamente, o alter ego da personagem transita muito bem entre as duas esferas gastronômico-sociais. Nascida há 38 anos na cidade de Garanhuns, no interior de Pernambuco, a atriz Lívia Falcão faz sucesso com sua arretada personagem no horário nobre. Os patrões dela na novela — o turco interpretado por Lima Duarte e e grega encarnada por Irene Ravache — são seus ídolos na vida real.

   É importante diferenciar Regina da Glória de Lívia. A primeira é impertinente e sem papas na língua, e quem a descreve assim é a segunda, que diz ser uma pessoa sincera mas não “metida” como sua personagem. Imaginar Lívia como uma antítese da empregada tampouco se aproxima da realidade. Nada tímida, a atriz já se apresentou até num presídio pernambucano, diante de 500 detentos, justamente com a peça “Caetana”, que hoje está em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Rio.

   — A peça é produzida e estrelada por mim e Fabiana Pirro. Nós estávamos apreensivas pois éramos duas mulheres no meio de três mil detentos, embora 500 tenham nos visto no pátio e o resto nos ouvido das celas. No fim, as reações foram ótimas e nos deixaram felizes — conta Lívia.

Regina da Glória é o primeiro destaque na TV

   “Caetana” estreou na cidade natal da atriz e de lá seguiu em turnê pelo resto de Pernambuco, foi à Paraíba, a Portugal e à Bélgica. A temporada carioca veio a reboque da novela das oito.

   — O produtor de elenco da novela me ligou e me chamou para um teste, quando eu e Fabiana estávamos montando “Caetana”. Nunca havia feito um papel grande na TV, apenas pontas. A responsabilidade era grande. Ainda bem que entrei no núcleo de comédia — diz.

   Passagens pelo Rio são comuns na biografia de Lívia. Na primeira vez que veio à cidade, que considera parecida com Recife, ela tinha 19 anos. Naquele tempo, trabalhou como estagiária de assistente de direção no longa “Faca de dois gumes” e foi assistente de direção em “Super Xuxa contra o Baixo Astral” e “Kuarup”. Voltou a Pernambuco três anos depois, casou-se lá, teve seu primogênito aos 23 anos e uma filha no ano seguinte. A segunda estada no Rio se deu mais de uma década depois, em 2001.

   — Voltei para participar da peça “Lisbela e o prisioneiro” e também entrei no filme. Fiquei no Rio trabalhando em teatro e cinema por mais três anos, mas a saudade me levou de volta a Pernambuco, onde tinha deixado meus filhos — recorda-se a atriz.

  Hoje, aos 38 anos e divorciada, Lívia mora sem eles num apartamento no Jardim Botânico, mas planeja trazê-los para perto de si, pois não quer sair da cidade tão cedo. Caçula de cinco irmãos, ela valoriza a família:

   — A minha família é a base de tudo. Nunca me faltaram educação, saúde ou alimentação, que são as coisas que importam. Quando era criança, não tínhamos luxos, como viajar para a Disney, mas tínhamos tudo que era realmente importante.

Carreira de atriz começou no colégio, em Recife

   A carreira de atriz começou na adolescência. Aos 14 anos, Lívia se mudou de Garanhuns para Recife a fim de continuar os estudos, e aos 15, no novo colégio, começou a ter aulas de teatro. Dois anos depois, estava estudando e trabalhando com o diretor e roteirista João Falcão (com quem não tem parentesco, apesar do mesmo sobrenome).

   — Em Recife, estudar teatro é fazer teatro. A minha escola realizava um festival chamado Artecontato e nele eu fiz as peças “O auto da compadecida” e “Frei Serafim”. O João me viu numa delas e me chamou para trabalhar com ele. Daí comecei a ganhar cachê. Não acho difícil fazer teatro no Brasil. O difícil é ganhar dinheiro fazendo teatro — brinca Lívia, que nos próximos capítulos de “Belíssima” achará o gato Mustafá e o perderá novamente.

(© O Globo)

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