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20/01/2006
Em 'Agreste', matrizes da cultura nordestina permeiam o contato afetivo através de zonas obscuras Macksen Luiz Há dois anos estreava em São Paulo um dos espetáculos mais delicados dos últimos anos, ao mesmo tempo que de um rigor e de um despojamento que fizeram com que tivesse repercussão crítica excelente, inclusive deste Jornal do Brasil, e do público paulistano (a montagem de Agreste continua em cartaz na capital, em temporadas interrompidas pela participação em festivais de teatro nacionais, e agora em temporada de verão no Rio). A poesia cênica de um teatro regionalista com inflexão homoerótica se desenha neste Agreste como elemento impulsionador da narrativa. O autor pernambucano Newton Moreno mantém a integridade de seu universo dramatúrgico neste texto em que matrizes da cultura nordestina (imaginário popular e oralidade) permeiam o contato afetivo através de zonas obscuras e dubiedades, das áreas obscuras da ignorância. Agreste é uma fábula, em que os processos narrativos se desmontam nas vozes dos contadores, eles mesmos personagens daquilo que contam. Na aridez da paisagem, geográfica e humana, o encontro amoroso é feito de silêncio e medo, e a fuga de um homem e uma mulher para o sertão profundo é a viagem definitiva até a tragédia. A aproximação do casal, receoso e prevenido, que traz em si o pressentimento do estranho, é lenta como o tempo de suas vidas. Separados por uma cerca, foi necessário rompê-la para que se cumprisse a inevitabilidade de um desígno, já que ''tinha alguma coisa no amor deles que não devia acontecer, mas aconteceu''. A aspereza da atmosfera se estabelece na narrativa seca e despojada, que descreve os movimentos tímidos de cada um deles até alcançar o outro, como introdução àquilo que se desenrola depois da partida para o sertão. Nesta primeira parte projetam-se a secura física do sertão e a crueza no modo de manifestar sentimentos. Há na aridez lembranças de Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto, dispersas num lirismo atritante, que torna, condenada à unidade, a atração de ambos. Depois da fuga do casal, o texto adquire o caráter mais regionalista, com a incorporação do meio social e da galeria de tipos (padre, delegado, vizinhos) que fornecem contexto mais local à trama. Em alguns momentos, essa segunda parte pode parecer um tanto marcada pela caracterização nordestina, tangenciando as referências mais persistentes desse universo. Mas Agreste se afasta deste contexto, sem negá-lo, pela forma lírica no tratamento do regional e pela criação de um espaço emocional, que é por onde circulam as emoções e a sutileza da fábula. A direção de Márcio Aurélio é decisiva na ampliação da cena poética, não só pelas filigranadas impressões que impõe à encenação, como no enxugamento e na concisão que imprime ao texto. Originalmente um monólogo, Agreste se estrutura em planos narrativos, que seriam interpretados, segundo a rubrica do autor, por um ator-contador. Márcio Aurélio rompe com a ''partitura física'', projetando numa dupla de atores a ação dramática. São eles que montam e desmontam o cenário e as instâncias da fabulação, integrando a universalidade do prólogo e regionalismo da segunda parte. O diretor encontrou o ponto de flexão de sua montagem no uso do sotaque nordestino, em contraponto à fala poética. Num despojamento de gestos, a primeira parte é desenhada pela imobilidade dos atores, diante de microfones de pé e de frente para a platéia, permitindo, deste modo, que o espectador se envolva, quase que unicamente, pela audição, ressaltando, assim, a beleza poética do texto. Nas cenas sertanejas, varais e lençóis, candeeiros e objetos miniaturizados se transfiguram em telas para projetar o mundo rural, em circo mambembe para conter a representação e em luz mortiça da intolerância que incendeia pequenas vidas. Paulo Marcello e João Carlos Andreazza formam a dupla de intérpretes que, como magos, manipulam a cena. Quando estáticos, dividem a rudeza poética e silenciam os movimentos para ecoar múltiplas sonoridades. Quando regionalistas, umedecem a atuação como personagens que ''põem os filhos na chuva para aguar, para crescer''. Interpretações de fino estilo e minuciosos contornos, contribuem para que Agreste revigore a cena poética. Um belíssimo espetáculo. Serviço: Agreste. Texto de Newton Moreno. Direção: Marco Aurélio. Com Paulo Marcello e João Carlos Andreazza. Teatro Poeira. Rua São João Batista, 104, Botafogo. De 5ª a sáb, às 21h. |
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