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Nóbrega antecipa o centenário do frevo

20/01/2006

O multiartista Antonio Carlos Nóbrega
 

Multiartista lança "Nove de Frevereiro", primeiro de dois discos de um projeto que inclui espetáculos, documentário e oficinas

JANAINA FIDALGO
DA REPORTAGEM LOCAL

   Um ano antes de o frevo fazer um século, o multiartista pernambucano Antonio Nóbrega, 53, dá início à festa e vai "incensando culturalmente o país para esse evento", com o lançamento de um álbum dedicado ao gênero.

   Referência à data em que a palavra frevo foi publicada pela primeira vez em um periódico, o "Jornal Pequeno" de Recife, em 1907, "Nove de Frevereiro" é o primeiro de dois discos de um projeto que inclui ainda espetáculos em São Paulo (de 3 a 5/2 no Sesc Pompéia) e no Recife (de 9 a 11/2), ambos patrocinados pelo Natura Musical, um DVD, um documentário e uma série de oficinas programadas para 2007 na escola do músico, o Espaço Brincante.

   "Espero que a esses eventos e trabalhos se somem outros", diz Nóbrega. "Acho que não errei em ter adiantado em um ano as comemorações, porque com isso estou fortalecendo as possibilidades de os brasileiros entrarem em contato com o frevo."

   Produzido pelo Brincante e distribuído pela Trama, o CD é uma coletânea de frevos instrumentais e cantados, com novos arranjos, de compositores como Capiba, José Menezes e Nelson Ferreira, além do próprio Nóbrega.

   "Eu escolhi arranjadores compositores de frevos. Por exemplo, Levino Ferreira foi arranjado por Clóvis Pereira, que é um grande compositor", explica. "Para cada arranjo eu tinha uma concepção. Tem um frevo só com conjunto de saxofones, outro só com conjunto de metais, há um com regional de cordas. Procurei apresentar cada frevo dentro de um timbre."

   Embora não faça parte da tradição do frevo, o violino é usado pelo músico. Ele explica: "Eu queria tocar frevo com violino. Onde é que está escrito que não pode? Acho que a gente tem de colocar os instrumentos a serviço da música. É a interpretação, o sotaque musical, o temperamento daquela música que temos de ser capazes de traduzir para o instrumento que a gente toca".

A dança do frevo

   Se hoje Nóbrega diz ser um apaixonado por todas as vertentes do frevo, o instrumental e o cantado, foi pela dança que chegou ao gênero. "Quando Ariano Suassuna me convidou para integrar o Quinteto Armorial, ele me possibilitou o conhecimento de vários artistas populares, entre eles o passista de frevo Nascimento do Passo. Eu tinha 19 anos e nunca havia pensado em abraçar a dança como forma de expressão", conta. "Fui tomado pelo frevo e comecei a aprender passos, a acompanhar o Nascimento onde ele morava, porque o frevo, na época, só era dançado nos dias de Carnaval. Não havia uma cultura de frevo durante todo o ano."

   Constituída principalmente por instrumentos de metal (trompetes e trombones), de palheta (saxofones e clarinetes) e de percussão, a orquestra de frevo tem origem nas bandas militares.

   "Essas bandas tocavam polcas, maxixes, dobrados e eram as responsáveis pela animação da metrópole. Onde houvesse festas, de caráter religioso ou não, a banda estaria lá", explica o músico.

   Nas ruas, as bandas arregimentavam torcedores que, por vezes, rivalizavam com os simpatizantes de outros conjuntos. Para proteger os músicos da exaltação das torcidas, as bandas passaram a contratar capoeiristas.

   "Com o tempo, a figura dos capoeristas começou a se agregar à banda. O sujeito começou a transformar os movimentos da capoeira em movimentos menos belicosos. Ao longo dos anos, aquela música que estava ali atrás dele o insuflava. Tanto é que existem passos do frevo que são muito parecidos com o movimento da capoeira", diz Nóbrega. "O vocabulário foi se ampliando e hoje um passista detém um repertório de 70, 80 passos. No espetáculo, vou contar corporalmente como foi."

   Na linguagem das ruas, essa tal música punha todos a dançar, "frevia". Daí a origem da palavra. Elemento intrínseco ao frevo, a sobrinha, hoje adornada e colorida, remonta ao guarda-chuva, elemento de múltiplo uso: protegia do sol, ajudava na defesa pessoal e servia de cabide para pendurar as provisões.

   "O frevo é um assunto muito bonito que ainda estamos por contar em toda a sua dimensão", diz Nóbrega, incensando o país.

(© Folha de S. Paulo)


CRÍTICA

Disco prioriza mestres do gênero

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

   Nenhum disco de Antonio Nóbrega é um amontoado de faixas. Da primeira à última, cria-se um universo, uma família de idéias e temas que descende dos múltiplos interesses do artista. Sendo assim, um CD seu pede para ser avaliado como um todo, não como peças separadas.

   Como indica o trocadilho-título, "Nove de Frevereiro" (referência à data em que, em 1907, pela primeira vez a palavra "frevo" saiu em um jornal) é dedicado ao principal gênero pernambucano.

   Coerente com seu perfil de restaurador de coisas pouco lembradas, Nóbrega foge dos frevos mais em voga para montar um painel que parte das primeiras décadas do século para chegar em uma composição recente sua e de Wilson Freire: "Garrincha".

   E é sua única música no CD. Em nenhum outro disco, ele se fez tão pouco presente como compositor. Sua prioridade foi mesmo mostrar os grandes mestres do frevo. Dos mais famosos, como Capiba ("A Pisada É Essa") e Nelson Ferreira ("Isquenta Muié"), até alguns não tão conhecidos, como Clóvis Mamede ("Sonhei que Estava em Pernambuco").

   O violinista Nóbrega aparece muito no disco, especialmente porque sete das 15 faixas são instrumentais. A opção atesta a despreocupação comercial do artista e permite a quem ouve reconhecer a grande abertura do gênero.

   Nas músicas com letra, Nóbrega exibe seu estilo marcado pela teatralidade. Em algumas faixas, como "Ingratidão", o resultado soa mais agradável do que em outras, como "Vão me Levando".

   O resultado é um passeio pela história de um gênero maravilhoso que continua pouco familiar fora de Pernambuco. Nóbrega dá sua delicada contribuição para que a familiaridade se construa.

Nove de Frevereiro
   
Artista: Antonio Nóbrega
Gravadora: Brincante
Quanto: R$ 30, em média

(© Folha de S. Paulo)

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