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ANA PAULA BONI Ainda há novidade em Pierre Verger, passados dez anos de sua morte, aos 93 anos, 40 dos quais dedicados à fotografia. Um outro e inédito Verger -encontrado entre suas cerca de 15 mil fotos tiradas no Brasil, principalmente nos anos 50- revela algo além de Salvador, cidade mais retratada através da lente de sua Rolleiflex. No lugar da cultura negra, capoeiristas e barcos de velas içadas, pelos quais o etnólogo francês se apaixonou quando chegou à Bahia em 1946, entram em cena a arquitetura de São Paulo, o Carnaval do Rio e o frevo de Recife. É esse recorte do olhar de Verger que poderá ser visto na exposição "O Brasil de Pierre Verger", no Museu de Arte Moderna de São Paulo. São 260 fotos de seis Estados
divididas em seis grupos: manifestações populares, arte e artesanato, sertão
e fé, cotidiano, atividades profissionais e cultos afro-brasileiros. Do
material reunido, mais de 70% são fotos inéditas, afirma o curador, o
francês Alex Baradel, 32, que desde 1999 é coordenador do acervo fotográfico
da Fundação Pierre Verger. "Tenho certeza de que as pessoas que já conhecem livros e fotos de Verger, quando virem essa exposição, vão dizer: "Poxa, não sabia que ele também fazia esse tipo de coisa"." Poucos sabem, mas a obra de Verger é composta de mais de 60 mil fotos. "Se fizermos uma exposição por ano, como esta, ainda vai demorar para se esgotar todo o material dele." Mesmo do universo de imagens da Bahia e de Pernambuco, os dois Estados mais bem representados na mostra e tão explorados por Verger, ainda há novidade. Das fotografias de festas populares, grupo com maior destaque na exposição, Baradel cita inéditas da peregrinação em Bom Jesus da Lapa (BA), da festa de Nosso Senhor dos Navegantes, de cordelistas em Salvador e de pessoas dançando frevo em Recife. Estudioso da obra do etnólogo, o curador diz que ele nem gostava de ser assim chamado. "Na visão dele, ele era alguém que gostava de viajar, de entender as pessoas." Talvez isso possa ser entendido
pelo fato de o fotógrafo não acumular títulos acadêmicos nem ter concluído
estudos do segundo grau. E Baradel completa: "Verger nem se considerava um
artista, até não gostava dessa palavra. Verger é um poeta do cotidiano". Em seu périplo pelo Brasil, são de São Paulo as fotos "não-humanas". Segundo o curador, há três imagens que ele fez de pessoas. "Sua visão de São Paulo é uma visão de prédios. Não sei se é de propósito, talvez porque na cidade tenha se sentido meio isolado." Do Rio, há fotos de pessoas, todas de 1941, quando Verger chegou ao Brasil e ainda não havia conhecido a Bahia, como ele costumava chamar Salvador. O Brasil de Pierre Verger SAIBA MAIS DA REPORTAGEM LOCAL O parisiense Pierre Verger (1902-1996) virou um dos maiores conhecedores da cultura afro-brasileira quase por acaso. Em 1946, depois de ter viajado por 15 anos por vários pontos do globo, ter sido correspondente de guerra na China da revista "Life" e encarregado de fotografia no Museu do Homem, em Paris, a leitura de "Jubiabá", de Jorge Amado, o levou a Salvador, em 1946. Foi paixão à primeira vista. Do seu navio, vendo a Baía de Todos os Santos, Verger disse: "A alegria era tamanha a bordo que se mostrou inútil tentar dormir até o amanhecer", relatou em "Retratos da Bahia", livro que acaba de ser relançado (ed. Corrupio, R$ 220). "Verger foi o pai fundador da antropologia visual", diz o poeta e antropólogo baiano Antonio Risério. Em 1953, em uma visita ao Daomé (atual Benin), foi iniciado no candomblé e ganhou o nome de "Fatumbi", que incorporou até a morte. "Seu olhar é amplo e universal. A extensão do seu trabalho é magnífica", afirma Emanoel Araújo, ex-diretor da Pinacoteca e curador do Museu Afro Brasil. (MG) |
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