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O diretor Cláudio Assis encerrou a filmagem do seu
segundo longa-metragem, na Usina Cruangi, em Timbaúba No último domingo, o longa-metragem pernambucano Baixio das bestas, do cineasta Cláudio Assis, encerrou sua etapa de filmagem na Usina Cruangi, em Timbaúba, Zona da Mata Norte do Estado. No cenário especialmente vestido para o filme, um pequeno aglomerado de casas amarelas na chamada sede da usina, a já habitual parafernália de caminhões, geradores e luzes garantiam as duas últimas cenas rodadas, depois de um trabalho que durou seis semanas. Cláudio Assis, à frente do seu segundo longa-metragem (Amarelo manga foi o primeiro, em 2002) mostrava-se visivelmente emocionado com a conclusão dos trabalhos, ciente do “privilégio que é poder fazer um filme em Pernambuco”, com afinado grupo de colaboradores, muito embora externe descontentamento com as dificuldades que persistem ao fazer um filme no Estado. Um dos colaboradores, o fotógrafo Walter Carvalho, nos disse, na frente de Assis, “esse filme será amarelo-verde da cana”. As duas últimas cenas, rodadas já no final da tarde, eram razoavelmente simples. “Primeiro a gente vai filmar uma cena que é a menina dos olhos de Cláudio”, disse Carvalho. Assis chegou e nos sugeriu, “se quiser uma foto, a foto é essa, e vai ser bem ali”, apontando para onde a imagem seria feita. Com a câmera em punho, o operador de câmera (e filho de Walter) Lula Carvalho filmava em plano médio um cortador de cana que , com a ajuda de um facão, amolecia a cana, parava e a erguia à altura da boca, torcendo a cana e sugando o caldo, momento em que a câmera se aproximava. A cena foi feita com luz natural. Walter Carvalho, que pela terceira vez traduz as imagens de Cláudio Assis em fotografia de cinema, é talvez o mais respeitado e premiado cinematógrafo do cinema brasileiro. Fotografou Terra estrangeira e Central do Brasil, ambos de Walter Salles, e Lavoura arcaica, de Luiz Fernando Carvalho. Com Assis, fez o curta-metragem Texas Hotel (1999), primeiro passo para abordar o universo visto mais tarde na segunda cine-colaboração Carvalho-Assis, Amarelo manga. Carvalho repete o formato tela larga (CinemaScope, que toma toda a tela do cinema) usado em Amarelo manga, formato que está sendo usado com freqüência cada vez maior por cineastas pernambucanos nos seus longas. Além de Amarelo Manga, Lírio Ferreira filmou assim seu Árido movie (com estréia prevista para março) e também Paulo Caldas, no recém-filmado Deserto feliz. Dez anos atrás, sem a tecnologia hoje disponível, a utilização da tela larga era cara e distante. “Para mostrar esse lugar e esse povo, tinha que filmar em CinemaScope”, diz Assis. Walter Carvalho admitiu que, quando leu o roteiro, não achou que seria um filme para esse formato. “Mas quando vim conhecer as locações, vi que estava errado. O scope é ideal para filmar tensão, pois sem o teto e o chão para descansar, você fica só com o conflito, e, claro, o próprio tempo desse lugar”. Do universo urbano do primeiro longa, Assis parte agora para, ao que parece, uma análise sócio-cultural e humana da Zona da Mata moderna. “Um pouco como aconteceu com Amarelo manga, Baixio das bestas também é um filme – especialmente durante a filmagem – de núcleos”, diz Dira Paes, também egressa da equipe de atores de Amarelo manga. “Temos o núcleo dos agroboys, boyzinhos que dirigem picapes, temos as prostitutas, temos o núcleo do baixio, aqui na sede da usina. Cláudio faz um mosaico muito rico de gente, revelando o que, no cinema, a gente normalmente não vê. Em Amarelo manga, tinha uma idéia muito boa, que era ‘só se ama errado’, e que eu acho que volta mais uma vez nesse filme”, disse a atriz com sua voz rouca, resultado de uma cena particularmente intensa filmada dias antes. No núcleo das prostitutas, atuando ao lado de Dira Paes, estão também as atrizes Conceição Camarotti (Texas Hotel), Hermila Guedes (de Cinema aspirinas e urubus) e Marcélia Cartaxo (A hora da estrela). No núcleo dos agroboys, Caio Blat (Carandiru) e Matheus Nachtergaele (Lavoura arcaica). Também no elenco estão os paraibanos Fernando Teixeira, como patriarca que explora sexualmente a neta, interpretada por Mariah Teixeira. Os pernambucanos Irandir Santos, que rodou em 2005 o longa Amigos de risco, de Daniel Bandeira, também está no filme, ao lado de Magdale Alves, também egressa de Amarelo manga. Na segunda e última cena rodada do filme, um elegante plano seqüência no oitão da casa do patriarca onde sua neta chega e fala com o personagem de Irandir, a câmera corria por um trilho e entrava pela janela da casa amarela, típica das usinas. O plano de quatro minutos sem cortes contava com uma rústica coordenação de cachorros (dominados com comida, dentro do quadro), uma moto que passava por trás e um misto de iluminação natural (externa) com artificial (interna). O take foi repetido seis vezes, pois se o diretor estava satisfeito, o fotógrafo e/ou o operador de câmera diziam-se insatisfeitos. A equipe guardava controlada euforia, pois, na hora de rodar, é silêncio, mas todos estavam cientes de que o filme chegava ao fim, depois de semanas de trabalho árduo. “Cadê o Jack Daniels?”, gritava Assis, uísque prontamente negado por Carvalho como um pai, que respondeu “só quando acabar, Cláudio!”. Baixio das bestas entra agora em processo de pós-produção. O produtor João Jr., da Rec Produtores Associados (a mesma de Cinema aspirinas e urubus) informa que o orçamento final ficará em torno de um milhão e trezentos mil reais. O filme ganhou prêmio do Ministério da Cultura na categoria Baixo Orçamento (BO), o que, aliás, impede captação de mais recursos via renúncia fiscal. “A idéia de Cláudio é estrear o filme no Festival de Brasília”. Fica também a expectativa em torno do filme, que poderá ser peça importante para dar continuidade à fase positiva que tem atraído olhares de fora para o cinema feito em Pernambuco. Cinema, Aspirinas e Urubus é destaque no NY Times São Paulo - Sucesso de crítica aqui em sua terra natal, Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, foi destaque na edição de ontem do jornal americano "The New York Times". "É um filme, como diz seu estranho título, sobre filmes, analgésicos e urubus, mas é também sobre como um pouco de imaginação e qualidade cinematográfica podem triunfar sobre a falta de recursos", escreveu Manohla Dargis, numa crítica elogiosa e acompanhada da cotação de cinco estrelas para o filme "Cinema, Aspirinas e Urubus" estreou na quinta-feira em Nova York. Passado em 1942, conta a história incomum de dois homens - Johann (Peter Ketnath) e Ranulpho (João Miguel) - que se encontram no sertão nordestino. Johann, um alemão, foge da guerra; Ranulpho, da seca. Os dois viajam apresentando filmes de povoado em povoado, uma técnica para vender um "remédio milagroso". "Não há revelações de última hora ou grandes epifanias em ´Cinema, Aspirinas e Urubus´ - nenhum crime, nenhum drama, sem sangue no carpete. É, em vez disso, uma história sobre duas pessoas comuns sem ordens do dia e fidelidades partidárias", escreve Manohla Dargis. "Ranulpho diz a Johann: ´Como minha avó costumava dizer, feliz do animal que come o outro.´ Durante boa parte do filme você espera uma crise entre esses dois homens, um ciclo como o dos urubus. Em vez disso, eles falam, dirigem e permanecem juntos. O que mais você poderia querer?". |
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