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Adeus, Josué

O escritor maranhense Josué Montello

Tambores de São Luis em silêncio. Por seu maior romancista

Luís Pimentel

“Aquele que acordar mais cedo, é esse que tange o sino!”

A frase que aparece acima foi citada por Josué Montello, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em junho de 1955. Assumia a cadeira de número 29, da qual foi o quarto ocupante, substituindo Cláudio de Souza. Homem cultíssimo, Montello – que foi enterrado ontem no Rio – citava Petrônio e a prosa antiga do infante Juan Manuel, mas fazia uma referência à sua própria prática literária.

Josué, que mais tarde veio a presidir a ABL, foi um homem que acordou cedo e tangeu sinos imponderáveis, das catedrais históricas da capital do Maranhão, onde nasceu em 1917 (dia 21 de agosto) e onde buscou inspiração para elevar um romance espetacular, Os tambores de São Luís, aos panteões da glória literária. Se não chegou a ser uma unanimidade de público e de crítica, gozou durante mais de seis décadas (pelo menos a partir da publicação de seu romance Janelas fechadas, em 1941) de enorme respeito e admiração.

O professor, romancista, cronista, contista, ensaísta, historiador, orador, memorialista e teatrólogo Josué Montello começou a vida como jornalista. Na primeira e segunda décadas do século passado destacou-se como colaborador dos principais jornais maranhenses – A Tribuna, Folha do Povo e O Imparcial entre eles. Com menos de 20 anos, mudou-se para Belém do Pará, onde intensificou a carreira jornalística, colaborando em vários jornais e revistas, sobretudo O Estado do Pará.

No fim de 1936, pegou o Ita no Norte e desembarcou no Rio de Janeiro, para construir uma das mais profícuas e extensas carreiras de escritor do país. Viveu intensamente a vida literária e colaborou regularmente em Careta, O Malho e Ilustração Brasileira, além dos suplementos dominicais de A Manhã, O Jornal, O Correio da Manhã, Diário de Notícias e Jornal do Commercio. Curioso e versátil como poucos, por mais de um ano escreveu críticas de teatro para o jornal A Vanguarda. Foi, aliás, um pioneiro nessa atividade no Brasil.

Montello deixou uma obra literária das mais significativas em nossas letras. Destacou-se sobretudo nos romances (publicou 27) e são esses os principais títulos: Janelas fechadas (1941); A luz da estrela morta (1948); Labirinto de espelhos (1952); Os tambores de São Luís (1975); Noite sobre Alcântara (1978); A coroa de areia (1979); O silêncio da confissão (1980); Antes que os pássaros acordem (1987); A última convidada (1989); Um beiral para os bem-te-vis (1989); O camarote vazio (1990); O baile da despedida (1992); e A viagem sem regresso (1993).

Também publicou obras de história política, história literária, novelas, contos, teatro e literatura infantil. Com a morte de Josué, a eleição à cadeira 28 da ABL, disputada por Célio Borja e Domício Proença, foi adiada para o dia 28 deste mês.

(© JB Online, 17.03.2006)


MEMÓRIA

Por quem tocam os tambores de São Luís

ARNALDO NISKIER
ESPECIAL PARA A FOLHA

Josué Montello era um narrador excepcional. O autor da frase é Alceu Amoroso Lima, por muitos considerado o maior dos nossos críticos literários. De fato, o escritor maranhense, autor de mais de cem livros, foi uma das mais férteis e bem-sucedidas carreiras da literatura brasileira.
Conseguiu o milagre de aliar a sua inequívoca vocação literária com uma série de belas incursões na vida pública, em que acumulou bons serviços a Juscelino Kubitschek na Presidência da República, na direção da Biblioteca Nacional e na Embaixada do Brasil na Unesco, em Paris. A que se pode agregar os dois anos de presidência da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Austregésilo de Athayde, e realizando uma obra fundamental de restauração da Casa de Machado de Assis.
Dono de prodigiosa memória, capaz de recitar de cor diversos poemas de Machado de Assis, como o clássico "A Carolina", também se servia das ferinas quadras de Emílio de Menezes, quando precisava alfinetar algum desafeto, invejoso da sua obra. Não cultivou inimigos, mas teve uma encrenca histórica com Guilherme Figueiredo, por desavenças ligadas à representação diplomática brasileira na França. Foi à forra, como sempre fez com os que não apreciava: deixou-os mal nos vários "Diários" (da Manhã, da Tarde, do Entardecer etc.). "Assim, a história lhes fará justiça, quando eu não mais estiver por aqui."
Filho de um rigoroso pastor protestante, casou cedo, teve duas filhas que sempre adorou, e encontrou em Yvonne a sua grande e definitiva musa inspiradora. Ela foi não só a sua grande companheira, como uma colaboradora eficaz, pois vezes sem conta datilografou os seus originais. Escreveu a sua vasta obra numa pequena máquina portátil e, em muitas ocasiões, à mão mesmo. A versão final era dada por Yvonne, que, no entanto, ao contrário da Carolina de Machado de Assis, nunca mexeu nos seus originais.
Quando se brincava com a sua fecundidade, Josué atribuía ao pouco sono com que foi brindado pela natureza: "Durmo somente duas ou três horas por noite e isso é suficiente". Acordava diariamente antes das 4h, esquentava o café que lhe era deixado de véspera pela bem-amada, e começava a trabalhar, com um pormenor: o fato de estar elaborando um novo romance não evitava que cultivasse, religiosamente, o hábito de responder às suas centenas de fãs. A todas dedicava uma palavra de carinho. Devia ter o maior fã-clube literário do país.


Poucos romancistas brasileiros tinham a sua fluência, "a feição do barco que desliza pela superfície do lago, tangido pela aragem matinal"


Vaidoso, sentiu uma sensação de plenitude quando recebeu a notícia que o seu clássico "Os Tambores de São Luís" foi considerado pela Unesco como um dos patrimônios culturais da humanidade. Raros são os brasileiros que alcançaram essa glória.
Ganhou o Prêmio de Literatura do Ministério da Cultura, no ano de 1998. Embolsou R$ 25 mil, com o meio sorriso que lhe enfeitava os lábios, e jamais confessou o que fez do dinheiro. Sobre essa matéria, moita total.
Numa visita à Universidade de Estocolmo, sentiu natural curiosidade. Queria saber quais eram os autores brasileiros mais lidos pelos estudantes suecos. Entre os poucos preferidos, Josué Montello figurava com brilho, em virtude do seu consagrado "Os Tambores de São Luís", romance que retrata uma dinastia de negros, todos com o nome de Damião, ao longo de três séculos da movimentada história maranhense.
Josué nasceu em São Luís, no dia 21 de agosto de 1917, mas viveu no Rio desde 1936. Sempre manteve rigorosa fidelidade às suas origens. Escreveu com o sabor natural dos locais e dos sons da sua infância e juventude, daí o interesse universal das suas obras.
Lembro o inesquecível Adonias Filho. Um dia, na Academia Brasileira de Letras, me disse que, quando escrevia, sentia-se como se estivesse vivendo o transe de um médium. Assim também era com Josué Montello, com quem tive o privilégio de conviver muitos anos na redação de "Manchete". O seu romance, "O Baile da Despedida" (Nova Fronteira, 1992), que li de um só fôlego, reflete a facilidade incomparável em que as idéias desciam da cabeça à mão da escrita, "ao mesmo tempo que todo o seu encadeamento me vem à consciência, refulgindo como o clarão". Poucos romancistas brasileiros tinham a sua fluência, "a feição do barco que desliza pela superfície do lago, tangido pela aragem matinal" (expressão do próprio escritor).


Sempre manteve rigorosa fidelidade às suas origens. Escreveu com o sabor natural dos locais e dos sons da sua infância e juventude


Em companhia de Rachel de Queiroz, João Condé e José Sarney, visitamos a Casa de Cultura Josué Montello, na São Luís da sua permanente inspiração. No casarão da rua das Hortas, totalmente restaurado, são promovidos estudos, pesquisas e trabalhos em literatura, artes, ciências sociais, história e geografia, utilizando-se de um acervo bibliográfico-documental de 30 mil peças.
Com toda naturalidade, enquanto mostrava pormenores da sua casa de cultura, Josué falava dos novos planos, como se a sua veia romanesca fosse mesmo infindável: "Estou preparando outros romances. Enquanto houver fôlego, idéias não faltarão".
A produção é impressionante, pois a quantidade não prejudicou em nenhum momento a indispensável qualidade, em obras que se dividem em vários gêneros, como romance, ensaio, crônica, história, antologia, educação, novela etc. Por ele, os tambores de São Luís tocam de forma permanente, em sinal de respeito, reconhecimento e regozijo.

Na Academia
Tinha pela ABL um amor completo. Nela entrou, eleito para a cadeira n.º 29, em 4 de novembro de 1954, na sucessão de Cláudio de Sousa. Foi recebido por um querido amigo, Viriato Correia. Filho do pastor Antônio Bernardo Montello e de Mância de Souza Montello, estudou em São Luís na Escola Modelo Benedito Leite e no Liceu Maranhense, onde concluiu o curso secundário, como primeiro aluno. Até 1936, colaborou nos principais jornais maranhenses. Nesse ano, mudou para Belém, onde publicou, em colaboração com Nélio Reis, seu livro de estréia. Colaborou em vários jornais e revistas, e assinou críticas teatrais em "A Vanguarda".
O seu primeiro romance é de 1941: "Janelas Fechadas". A convite de Rodolfo Garcia, planejou a reforma da Biblioteca Nacional, que veio a dirigir em 1947. Em 1953, deu aulas na Universidade Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, Peru. Lá foi professor de Vargas Llosa. Colaborou no "Jornal do Brasil" de 1954 a 1990. De 1969 a 1970, foi conselheiro cultural da Embaixada do Brasil em Paris, cidade a que voltou, de 1985 a 1989, para ser embaixador do Brasil junto à Unesco.

Arnaldo Niskier é membro da Academia Brasileira de Letras e secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeio

(© Folha de S. Paulo, 17.03.2006)

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