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Bandeira, a voz do verso

10/06/2008

Manuel Bandeira: valorização oral da poesia em lançamento de livro e CD


O melhor do poeta Manuel Bandeira é lançado em livro e CD, que reúne material gravado pelo selo Festa

Dellano Rios
Repórter


A poesia é um arte antiga. Sua origem se perdeu no tempo e está ligada ao homem através de seu próprio corpo. Muito antes do livro, do papel e da escrita, havia a voz que extendia o corpo humano em versos que, quase magicamente, falavam mais que as próprias palavras. Essa dimensão oral da poesia, se enfraqueceu com a ascensão do papel e da imprensa. Criar poesia tornou-se sinônimo de escrevê-la.

Mas os poetas não esqueceram que, antes de mais nada, a poesia é para ser dita. E bem a disse o pernambucano Manuel Bandeira, como pode ser ouvido no CD que acompanha a antologia ´50 poemas escolhidos pelo autor´. Recém publicada, a nova edição da obra é acompanhada de um disco que ameaça lhe ofuscar. Em pouco menos de meia hora, o modernista fala, recita e interpreta 29 de seus poemas que antes apareceram no papel.

O CD reúne todo o material gravado pelo selo Festa, nas décadas de 1950 e 1960 e lançado em vinil. A poesia de Bandeira figurou em dois LPs do selo - um ao lado de Carlos Drummond de Andrade; outro, de Sérgio Milliet - e um compacto simples. Digitalizados, alguns poemas impressionam pela qualidade de resolução, sendo possível ouvir de forma límpida a voz do poeta. Voz debilitada pela velhice (companheira do fim da vida), pela doença e pelo pessimismo (inseparáveis parceiros de longa data).

Para aqueles que admiram o poeta, é quase impossível se furtar da emoção de ouvi-lo, de reconhecer seus poemas e conhecê-los de novo, recriados pela entonação. Não a toa, o próprio Bandeira exultava esta dimensão vocal da criação poética. Para ele, alguns poemas só poderiam ser decifrados quando ouvido nas voz de seu próprio autor. ´Pasárgada´, ´Pneumotórax´ e ´Evocação do Recife´ são alguns dos célebres versos presentes no CD.

Em outro extremo, a poesia de Manuel Bandeira volta a aparecer em sua dimensão mais conhecida: o impresso. Limitada em números de exemplares, esta edição de ´50 poemas escolhidos pelo autor´ ganhou um luxo que faz justiça ao poeta. A capa, em uma escala de azuis, é cravejada por números - de 1 a 50. A leiaute lembrar as criações da Poesia Concreta, sem dúvida simpatizantes de e simpatizados por Bandeira.

Dentro, os poemas vêm encimados pelo título em vermelho vivo. Devidamente anunciados, os versos impressos com a tradicional tinta preta mostram que, mais luxuoso que o design, é a poesia por eles veiculada. Poemas como os acima citados, “Boi Morto”, “Profundamente” e “Namorados” ganham novos significados na obra do autor, quando reorganizados e colocados lado a lado de versos anteriores ou posteriores.

LIVRO/CD - Cosac Naify 2006. 88 páginas. R$ 55 -  Manuel Bandeira

FIQUE POR DENTRO
O modernista da província

Batizado Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, o poeta nasceu na cidade de Recife, em 19 de abril de 1886. Aos quatro anos foi com a família para o Rio de Janeiro, mas levou na bagagem a saudades da terra em que nasceu (o que lhe rendeu, por toda vida, versos dela saudosos). Com os pais, ainda passa por São Paulo e, mais uma vez, Pernambuco. Desde jovem, sua saúde se revelou fraca e dela também se queixou em seus poemas. Em 1916, perdeu a mãe - de quem era muito próximo. No anos seguinte, lançou seu primeiro livro de poemas, ´A cinza das horas´. Se envolve com os artistas do nascente modernismo. Em 1922, não pode comparecer à Semana de Arte Moderna, mas marca presença com o poema ´Os sapos´, lido por Ronald de Carvalho. Escreve para jornais pernambucanos e cariocas para, em seguida, republicar estes textos em ´Crônicas da província do Brasil. Na maturidade, organiza coletâneas de poetas brasileiros e traduz diversos escritores. Morre em outubro de 1968.

(© Diário do Nordeste)


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