O melhor do poeta Manuel Bandeira é lançado em livro e
CD, que reúne material gravado pelo selo Festa
Dellano Rios
Repórter
A poesia é um arte antiga. Sua origem se perdeu no tempo
e está ligada ao homem através de seu próprio corpo.
Muito antes do livro, do papel e da escrita, havia a voz
que extendia o corpo humano em versos que, quase
magicamente, falavam mais que as próprias palavras. Essa
dimensão oral da poesia, se enfraqueceu com a ascensão
do papel e da imprensa. Criar poesia tornou-se sinônimo
de escrevê-la.
Mas os poetas não esqueceram que, antes de mais nada, a
poesia é para ser dita. E bem a disse o pernambucano
Manuel Bandeira, como pode ser ouvido no CD que
acompanha a antologia ´50 poemas escolhidos pelo autor´.
Recém publicada, a nova edição da obra é acompanhada de
um disco que ameaça lhe ofuscar. Em pouco menos de meia
hora, o modernista fala, recita e interpreta 29 de seus
poemas que antes apareceram no papel.
O CD reúne todo o material gravado pelo selo Festa, nas
décadas de 1950 e 1960 e lançado em vinil. A poesia de
Bandeira figurou em dois LPs do selo - um ao lado de
Carlos Drummond de Andrade; outro, de Sérgio Milliet - e
um compacto simples. Digitalizados, alguns poemas
impressionam pela qualidade de resolução, sendo possível
ouvir de forma límpida a voz do poeta. Voz debilitada
pela velhice (companheira do fim da vida), pela doença e
pelo pessimismo (inseparáveis parceiros de longa data).
Para aqueles que admiram o poeta, é quase impossível se
furtar da emoção de ouvi-lo, de reconhecer seus poemas e
conhecê-los de novo, recriados pela entonação. Não a
toa, o próprio Bandeira exultava esta dimensão vocal da
criação poética. Para ele, alguns poemas só poderiam ser
decifrados quando ouvido nas voz de seu próprio autor.
´Pasárgada´, ´Pneumotórax´ e ´Evocação do Recife´ são
alguns dos célebres versos presentes no CD.
Em outro extremo, a poesia de Manuel Bandeira volta a
aparecer em sua dimensão mais conhecida: o impresso.
Limitada em números de exemplares, esta edição de ´50
poemas escolhidos pelo autor´ ganhou um luxo que faz
justiça ao poeta. A capa, em uma escala de azuis, é
cravejada por números - de 1 a 50. A leiaute lembrar as
criações da Poesia Concreta, sem dúvida simpatizantes de
e simpatizados por Bandeira.
Dentro, os poemas vêm encimados pelo título em vermelho
vivo. Devidamente anunciados, os versos impressos com a
tradicional tinta preta mostram que, mais luxuoso que o
design, é a poesia por eles veiculada. Poemas como os
acima citados, “Boi Morto”, “Profundamente” e
“Namorados” ganham novos significados na obra do autor,
quando reorganizados e colocados lado a lado de versos
anteriores ou posteriores.
LIVRO/CD - Cosac Naify 2006. 88
páginas. R$ 55 - Manuel Bandeira
FIQUE POR DENTRO
O modernista da província
Batizado Manuel Carneiro
de Souza Bandeira Filho, o poeta nasceu na cidade de
Recife, em 19 de abril de 1886. Aos quatro anos foi com
a família para o Rio de Janeiro, mas levou na bagagem a
saudades da terra em que nasceu (o que lhe rendeu, por
toda vida, versos dela saudosos). Com os pais, ainda
passa por São Paulo e, mais uma vez, Pernambuco. Desde
jovem, sua saúde se revelou fraca e dela também se
queixou em seus poemas. Em 1916, perdeu a mãe - de quem
era muito próximo. No anos seguinte, lançou seu primeiro
livro de poemas, ´A cinza das horas´. Se envolve com os
artistas do nascente modernismo. Em 1922, não pode
comparecer à Semana de Arte Moderna, mas marca presença
com o poema ´Os sapos´, lido por Ronald de Carvalho.
Escreve para jornais pernambucanos e cariocas para, em
seguida, republicar estes textos em ´Crônicas da
província do Brasil. Na maturidade, organiza coletâneas
de poetas brasileiros e traduz diversos escritores.
Morre em outubro de 1968.