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10/06/2008
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O
rio São Francisco, segundo Frans Post
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Catálogo completo mostra como suas paisagens ganharam
exotismo ao sabor das encomendas
Daniel Piza
Charles
Darwin disse que a viagem a bordo do Beagle ao redor da
América do Sul foi o evento que definiu toda sua vida,
aquele sem o qual não teria desenvolvido suas idéias e
se tornado o que se tornou. O artista holandês Frans
Post (1612-1680) poderia ter dito o mesmo sobre sua
vinda ao Brasil no período em que Maurício de Nassau
dominou Pernambuco e região (1636-1644). Toda sua
produção conhecida - 155 pinturas a óleo e 57 desenhos -
trata de um único tema, o Nordeste brasileiro. E o mais
curioso: a grande maioria foi executada depois de seu
retorno à Holanda.
Post chegou ao Recife aos 24 anos; era pintor formado na
escola de Haarlem, mas ainda sem projeção nem projeto.
Quando regressou, aos 32, a pintura de paisagem era
praticamente um esporte nacional na Holanda, mas ele
tinha o que ninguém mais tinha: um tema com o apelo do
Novo Mundo. E é essa história que está estampada no
livro-catálogo Frans Post - Obra Completa (Capivara, 444
págs., R$ 190), de Bia e Pedro Corrêa do Lago, que
formaram com quatro especialistas estrangeiros -
Frederik J. Duparc, George Gordon, George Watcher e León
Krempel - um comitê para autenticação das obras que vai
ao ponto de apresentar as 40 rejeitadas.
O pai de Frans, Jan Janzs Post, era pintor de vidros;
seu irmão mais velho, Pieter, era arquiteto e pintor.
Foi Pieter quem indicou o caçula para integrar o grupo
de artistas e cientistas que Nassau trouxe para o
Brasil, grupo ao qual pertencia também Albert Eckhout
(1610-1666), outro pintor desconhecido, cuja missão
seria produzir retratos da gente local. A dupla, apesar
de jovem, tinha muito talento; como diz Duparc, diretor
do Maurithuis (o museu de Nassau em Haia), o conde João
Maurício entendia de arte e sabia o que queria.
Duparc, em seu texto, também observa que a pintura de
Post se encaixa perfeitamente na escola holandesa de
paisagismo, com características como a linha do
horizonte abaixo da metade do quadro (pintado em geral
sobre madeira, inclusive madeira vinda do Brasil) e o
recurso do 'repoussoir', um elemento na lateral da cena
- uma árvore, por exemplo - que serve para reforçar a
perspectiva. Sua cidade, Haarlem, era na época a mais
importante depois da capital, Amsterdã, onde
trabalhavam, entre outros grandes artistas, ninguém
menos que Rembrandt e Frans Hals - que por sinal
retratou Post, em imagem que consta do livro. O país
vivia seu Século de Ouro e a arte movimentava um mercado
intenso, com aristocratas e marchands fazendo encomendas
constantes.
O Brasil estava sob domínio da Espanha quando a Holanda,
por sua poderosa empresa privada Companhia das Índias
Ocidentais, viu a oportunidade de invadir o Nordeste e
explorar o açúcar e outras riquezas. Como toda
empreitada colonial, essa tinha pretensões civilizadoras
e Nassau logo tratou de formar um séquito que lhe
registrasse num álbum de gravuras as conquistas e
façanhas, entre as quais estaria a construção de uma
cidade com seu nome, Mauritsstad, para a qual se abriram
avenidas e parques e se fizeram aterros e prédios, em
bairros do Recife como Santo Antônio e São José.
O papel de Post era descrever a natureza dos locais de
batalhas e ocupações. Em sete anos, ele produziu muitos
desenhos e pelo menos 18 paisagens, das quais chegaram
até hoje apenas sete; as outras, que também pertenceram
ao monarca francês Luís XIV, desapareceram sem
explicação ('provavelmente sobrevivem sujas e esquecidas
em alguns sótãos de castelos na França', escreve o casal
Corrêa do Lago). Apesar de pouco numerosas, elas formam
a primeira fase de Post, que é considerada a de maior
importância histórica.
Há evidente valor estético nessas pinturas, em especial
o domínio do pincel para detalhes, como as folhas das
árvores em primeiro plano ou o casario distante que
pontua horizontes. Post, como se vê também nos desenhos,
tinha dons de miniaturista. O catálogo,
inteligentemente, aposta na ampliação dessas áreas:
depois de vermos a pintura completa em meia página,
temos uma página inteira com um recorte que equivale a
menos de um terço do total. Curiosamente, a habilidade
do pincel não é a mesma quando se trata das figuras
humanas, quase sempre índios e negros cuja fisionomia
mal se percebe; a única e parcial exceção é a cabocla de
Forte Frederik Hendrik (pertencente ao Instituto Ricardo
Brennand, no Recife).
Post também não tinha muita aptidão para a composição.
Afora o elemento em primeiro plano e uma ou outra
figura, a sintaxe é fraca; em muitos casos, como Vista
da Cidade Frederica na Paraíba, o assunto central da
pintura - a cidade - é um detalhe diante do rebuscamento
da árvore à direita. Em outros casos, como O Rio São
Francisco (hoje no Louvre), vê-se imediatamente quanto a
cena tem de artificial, com a capivara situada bem ao
centro do rodapé, destacada pelo fundo neutro do rio.
Por sinal, em seu texto sobre a técnica de Post, Gordon,
diretor da casa de leilão Sotheby's em Londres
(representada no Brasil por Pedro Corrêa do Lago),
observa como suas cores são cinzentas, como se não
estivéssemos diante do céu azul intenso do Nordeste
brasileiro - até porque lhe faltava material adequado.
Não há em Post 'exuberância tropical' como em Eckhout,
com suas personagens fantasiadas e frutas suculentas.
De volta a Haarlem, porém, Post começa a pintar as obras
de sua segunda fase e nelas já mostra mais domínio
técnico. O azul do céu e o verde da mata, apesar da
descolorização sofrida desde então, são mais fortes,
principalmente na proximidade do horizonte. Ao mesmo
tempo, as cenas são mais trabalhadas, menos objetivas, e
se perde realismo. Em Paisagem com Rio e Tatu (1649),
por exemplo, salvo pelo animal à esquerda e pelo abacaxi
ao centro em primeiro plano, a região poderia ser do
interior holandês no verão.
Mas, à medida que sua carreira progride no mercado
holandês, as demandas pelo exotismo são mais e mais
visíveis. Grupos humanos são mais freqüentes, em locais
como os engenhos de açúcar, e a vegetação vai se
tornando mais frondosa. Mesmo numa simples Casa de
Lavrador e Vilarejo (década de 1660), tamanduá, abacaxi,
pássaro, arbustos e palmeiras dominam meio quadro à
esquerda, jogando depois o olhar para os indivíduos em
pequena dimensão, com trajes típicos, e o rio que se
perde na distância.
Dali em diante Post vai perdendo a mão, acrescentando
construções arquitetônicas em meio à paisagem bucólica,
numa estranha mistura de barroco, neoclássico e
pré-romântico. Passada a moda do tropicalismo exótico,
Post entra em decadência. Mas sua obra, pioneira pelos
temas e respeitável pela técnica, havia muito já estava
erguida.
(©
Agência Estado)
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