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Geléia Geral

10/06/2008

Silvia Costanti/Folha Imagem

O músico Jorge Mautner, em estúdio no Rio; "Revirão" é seu primeiro álbum desde 2002


Com espírito jovem, Jorge Mautner lança "Revirão", seu 11º disco, um de seus trabalhos mais acessíveis, que reúne os veteranos do tropicalismo Caetano Veloso e Gilberto Gil e representantes da nova geração, como Kassin e Berna Ceppas

RONALDO EVANGELISTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Caetano e Gil estão lá. Baluartes da nova geração, como Orquestra Imperial, Kassin e Pedro Sá, também. Todo o seu universo de breguice e intelectualidade, humor e seriedade, amor e ironia carregam o disco. O parceiro Nelson Jacobina, assim como o produtor Kassin (ao lado do sócio Berna Ceppas) são onipresentes.
E no centro está Jorge Mautner, 65, artista dos mais particulares da música brasileira -e além da música brasileira. É seu novo disco, "Revirão", título inspirado, segundo ele, em termo inventado pelo psicanalista Magno Machado Dias e que significa "uma escolha a cada segundo".

Em seu primeiro disco desde "Eu Não Peço Desculpa", este dividido com Caetano em 2002, e seu 11º álbum no todo, Mautner segue com o espírito rejuvenescedor abordado no CD com Caetano, intenção explicitada especialmente na produção e parcerias com músicos jovens e emblemáticos, em especial os já citados Kassin e Orquestra Imperial.

É também de seus discos mais pops e facilmente compreensíveis, apesar da complexidade de sua personalidade e seus conceitos filosóficos.

Gil & Caetano

Tropicalista de espírito, pré-tropicalista na prática. Apesar de a música ter vindo posteriormente, Mautner, em 1962, antes de quaisquer discos de Caetano, Gil ou dos tropicalistas todos, já publicava seu primeiro livro, "Deus da Chuva e da Morte".

Já era figura importante na modernização alegórica do Brasil; quando conheceu Caetano e Gil, as histórias se cruzaram com naturalidade. Hoje, mantém proximidade extrema com ambos e, importante, lança no seu disco as duas últimas canções compostas pelo ministro, ambas parcerias dos dois e ambas elaboradas no período entre os dias de Natal e Ano Novo de 2005.

"A proximidade com Gil é antiga e profunda", conta Mautner. "Ele é um grande amigo, o maior. É uma relação filosófica, e as relações político-culturais são temas eternos de nossas conversas. Quando o conheci, durante o seu exílio em Londres, em 1970, compusemos três músicas juntos."

E prossegue: "Anos depois, em 1987, fizemos juntos por todo o país a turnê do show "O Poeta e o Esfomeado". Nessa época, já tínhamos idéia de fazer um projeto cultural de participação social, e criamos o Figa Brasil. Nós convidávamos as pessoas depois dos shows e já tínhamos 7.000 adesões. O projeto só não foi adiante porque Gil se candidatou a prefeito, depois vereador, e foi eleito. Eu inclusive fui chefe-de-gabinete de Gil em seu período como vereador em Salvador".

Uma das parcerias, aliás, mostra a importância que ambos dão ao Brasil: a ufanista "Outros Viram", que, de tão declaradamente amorosa, chega a esbarrar na ingenuidade.

"Faz parte da vida do artista estar sempre criticando", comenta Mautner. "Mas nesse momento eu achei que se deveria elogiar o Brasil. A música cita como pessoas de todo o mundo já disseram que o Brasil é o vértice -e parece que agora estamos caminhando para isso, com a democratização. Tenho certeza de que agora é hora de fortalecer, enaltecer e exaltar. Pode ser ingênuo, mas todo amor tem um pouco de ingenuidade. O mais valioso que nós temos é a população brasileira, e isso é motivo de entusiasmo eterno."

Outra relação de amizade importante para o disco é com Caetano, e interpretação possível para o disco é sua clara relação com "Cê", o elogiado álbum lançado por este em 2006. Primeiro, há a proximidade dos músicos que acompanham ambos: Pedro Sá, que produziu e tocou no disco de Caetano, toca na banda +2 com Kassin, produtor do disco de Mautner e do disco dividido entre Caetano e Mautner em 2002. Segundo, há certas relações poéticas subjetivas entre ambos.

"Essa relação existe, claro", concorda Mautner. "Acho que os dois discos trazem a continuação e aprofundamento das idéias do nosso disco, são resultados de interpretações de conversas nossas. O disco de Caetano é mais existencial, talvez mais pessimista -mas é um pessimismo da força. O meu é claramente de otimismo, mas o dele não deixa de ser, só que de outra forma. O "odeio você" que ele canta, vira na verdade um "amo você mais ainda"."

Nostalgia e utopia

Kassin, Berna Ceppas, Domenico, Moreno, Pedro Sá, Rubinho Jacobina, Bartolo e duas proles da família Gil, Preta e Bem: sobre os jovens escalados para trabalhar com ele em "Revirão", Mautner é só elogios e revigoramento. "Eles têm uma nostalgia, no bom sentido."

"Eles recuperam o tempo em que os artistas tinham tempo de se encontrar e conversar sobre todos os assuntos. Eles gostam de falar de poesia e filosofia e deixar as idéias virarem música. Existe uma confraternização, uma amizade, que é uma utopia, mas uma utopia que vai se formando na realidade. E que se realiza no humor e na celebração da vida."

Utopia que se forma na realidade, como a própria música e poesia de Mautner, tão inteligente e particular quando leve e divertida.

(© Folha de S. Paulo)


Crítica

Força do disco nasce do encontro de Jorge Mautner com a nova geração

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Tudo na música de Jorge Mautner é muito particular: sua voz, seu violino, suas letras, suas melodias. Com visões e observações não raro ácidas e humoradas de todos os aspectos da vida, e com temperos de música brega e emoções rasgadas, tudo é permeado por ironias, sem deixar de buscar a beleza.

Mas é uma beleza própria, nem sempre compreendida à primeira audição. Curiosamente, toda essa particularidade se encaixa perfeitamente com as idéias tão clássicas quanto atuais de Kassin & cia. E é daí, exatamente desse encontro, que nasce a força de "Revirão".

Com sensos de humor parecidos, visões universais similares sobre a música e um espírito sem restrições dividido por Mautner & Jacobina e Kassin e sua turma, o disco passeia por carimbó, baião, rocks, marchinhas, breguices afins e canções que quase enganam tradicionais, com produção enxuta e sonoridade interessante.
"Essa vida me deu uma louca paixão/ que devora e que sangra o meu coração", canta Caetano na bela canção composta por Mautner em 1958, "Estilhaços de Paixão".

"Assim como o amor não compensa/ penso no amor como se fosse uma crença", canta Mautner em "Kilawea". "Ainda vamos nos beijar num beijo de amor sem fim/ será a própria noite de esplendor se for uma noite assim", canta Preta Gil na bossa/frevo "Juntei a Fome com a Vontade de Comer". Todas citações que mostram a ambigüidade entre ironia e paixão derramada que é um dos pilares da poética de Mautner.

Sempre caminhando na linha entre o cult e o brega, o humor e a sinceridade, Mautner só mostra menos força no meio do frescor da produção de Kassin quando se entrega à simplicidade unidimensional.

O bom humor de "Os Pais" não esconde seu moralismo simplista. Como a paixão colocada em "Outros Viram" não esconde o ufanismo ingênuo e conformista. Nem as boas intenções de "Acúmulo de Azuis" não escondem sua banalidade desinteressante.

Mas são momentos-exceção em um grande disco, de um grande artista, em grande forma. Mautner é artista atemporal, sempre atual, sempre necessário. (RE)

REVIRÃO    
Artista: Jorge Mautner
Lançamento: Warner
Quanto: R$ 25, em média

(© Folha de S. Paulo)


PARCERIA COM GIL

O que Walt Whitman
viu/ Maiakovski viu/
Outros viram também/
Que a humanidade vem/
Renascer no Brasil!
Teddy Roosevelt viu/
Rabindranath Tagore/
Stefan Zweig viu
também/ Todos
disseram amém/ A essa
luz que surgiu!
Roosevelt que celebrou
nossa miscigenação/ Até
considerou como sendo a
solução/ Pro seu próprio
país/ Pra se amalgamar/
Misturar-melting pot
feliz/ Não conseguiu pois
seu Congresso não quis!
Rabindranath Tagore
profetizou/ Ousou dizer
que aqui surgiria o ser do
amor/ Ser superior, da
paixão, da emoção, da
canção/ Terra do samba
sim e do eterno perdão!
(...) Esta terra do sol/ Esta
serra do mar/ Esta terra
Brasil/ Sob este céu de
anil/ Sob a luz do luar!

Letra de "Outros Viram"

(© Folha de S. Paulo)

VÍDEO:

Veja Jorge Mautner com a Orquestra Imperial (Todo Errado):

 


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