Com espírito jovem, Jorge Mautner
lança "Revirão", seu 11º disco, um de seus trabalhos
mais acessíveis, que reúne os veteranos do tropicalismo
Caetano Veloso e Gilberto Gil e representantes da nova
geração, como Kassin e Berna Ceppas
RONALDO EVANGELISTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Caetano e Gil estão lá. Baluartes da nova geração, como
Orquestra Imperial, Kassin e Pedro Sá, também. Todo o
seu universo de breguice e intelectualidade, humor e
seriedade, amor e ironia carregam o disco. O parceiro
Nelson Jacobina, assim como o produtor Kassin (ao lado
do sócio Berna Ceppas) são onipresentes.
E no centro está Jorge Mautner, 65, artista dos mais
particulares da música brasileira -e além da música
brasileira. É seu novo disco, "Revirão", título
inspirado, segundo ele, em termo inventado pelo
psicanalista Magno Machado Dias e que significa "uma
escolha a cada segundo".
Em seu primeiro disco desde "Eu Não
Peço Desculpa", este dividido com Caetano em 2002, e seu
11º álbum no todo, Mautner segue com o espírito
rejuvenescedor abordado no CD com Caetano, intenção
explicitada especialmente na produção e parcerias com
músicos jovens e emblemáticos, em especial os já citados
Kassin e Orquestra Imperial.
É também de seus discos mais pops e
facilmente compreensíveis, apesar da complexidade de sua
personalidade e seus conceitos filosóficos.
Gil & Caetano
Tropicalista de espírito,
pré-tropicalista na prática. Apesar de a música ter
vindo posteriormente, Mautner, em 1962, antes de
quaisquer discos de Caetano, Gil ou dos tropicalistas
todos, já publicava seu primeiro livro, "Deus da Chuva e
da Morte".
Já era figura importante na
modernização alegórica do Brasil; quando conheceu
Caetano e Gil, as histórias se cruzaram com
naturalidade. Hoje, mantém proximidade extrema com ambos
e, importante, lança no seu disco as duas últimas
canções compostas pelo ministro, ambas parcerias dos
dois e ambas elaboradas no período entre os dias de
Natal e Ano Novo de 2005.
"A proximidade com Gil é antiga e
profunda", conta Mautner. "Ele é um grande amigo, o
maior. É uma relação filosófica, e as relações
político-culturais são temas eternos de nossas
conversas. Quando o conheci, durante o seu exílio em
Londres, em 1970, compusemos três músicas juntos."
E prossegue: "Anos depois, em 1987,
fizemos juntos por todo o país a turnê do show "O Poeta
e o Esfomeado". Nessa época, já tínhamos idéia de fazer
um projeto cultural de participação social, e criamos o
Figa Brasil. Nós convidávamos as pessoas depois dos
shows e já tínhamos 7.000 adesões. O projeto só não foi
adiante porque Gil se candidatou a prefeito, depois
vereador, e foi eleito. Eu inclusive fui
chefe-de-gabinete de Gil em seu período como vereador em
Salvador".
Uma das parcerias, aliás, mostra a
importância que ambos dão ao Brasil: a ufanista "Outros
Viram", que, de tão declaradamente amorosa, chega a
esbarrar na ingenuidade.
"Faz parte da vida do artista estar
sempre criticando", comenta Mautner. "Mas nesse momento
eu achei que se deveria elogiar o Brasil. A música cita
como pessoas de todo o mundo já disseram que o Brasil é
o vértice -e parece que agora estamos caminhando para
isso, com a democratização. Tenho certeza de que agora é
hora de fortalecer, enaltecer e exaltar. Pode ser
ingênuo, mas todo amor tem um pouco de ingenuidade. O
mais valioso que nós temos é a população brasileira, e
isso é motivo de entusiasmo eterno."
Outra relação de amizade importante
para o disco é com Caetano, e interpretação possível
para o disco é sua clara relação com "Cê", o elogiado
álbum lançado por este em 2006. Primeiro, há a
proximidade dos músicos que acompanham ambos: Pedro Sá,
que produziu e tocou no disco de Caetano, toca na banda
+2 com Kassin, produtor do disco de Mautner e do disco
dividido entre Caetano e Mautner em 2002. Segundo, há
certas relações poéticas subjetivas entre ambos.
"Essa relação existe, claro", concorda
Mautner. "Acho que os dois discos trazem a continuação e
aprofundamento das idéias do nosso disco, são resultados
de interpretações de conversas nossas. O disco de
Caetano é mais existencial, talvez mais pessimista -mas
é um pessimismo da força. O meu é claramente de
otimismo, mas o dele não deixa de ser, só que de outra
forma. O "odeio você" que ele canta, vira na verdade um
"amo você mais ainda"."
Nostalgia e utopia
Kassin, Berna Ceppas, Domenico,
Moreno, Pedro Sá, Rubinho Jacobina, Bartolo e duas
proles da família Gil, Preta e Bem: sobre os jovens
escalados para trabalhar com ele em "Revirão", Mautner é
só elogios e revigoramento. "Eles têm uma nostalgia, no
bom sentido."
"Eles recuperam o tempo em que os
artistas tinham tempo de se encontrar e conversar sobre
todos os assuntos. Eles gostam de falar de poesia e
filosofia e deixar as idéias virarem música. Existe uma
confraternização, uma amizade, que é uma utopia, mas uma
utopia que vai se formando na realidade. E que se
realiza no humor e na celebração da vida."
Utopia que se forma na realidade, como
a própria música e poesia de Mautner, tão inteligente e
particular quando leve e divertida.