Inspirada em João Ubaldo Ribeiro, A Casa dos Budas Ditosos traz a atriz
como a mulher que narra suas estripulias sexuais
Ubiratan
Brasil
Fernanda Torres confessa
que já não se surpreende mais ao dizer verdadeiras barbaridades como 'Eu
me arrependo de não ter transado com meu pai', que, ditas com a maior
naturalidade, são o grande charme da peça A Casa dos Budas Ditosos, de
volta hoje a São Paulo, agora na grande sala do Teatro Cultura
Artística. Somente um assunto continua incomodando: o uso de camisinha.
'Quando minha personagem diz que jamais aceitaria ser desvirginada por
alguém usando preservativo, normalmente a resposta é um silêncio
terrível da platéia', conta a atriz que, por conta disso, alterna
espetáculos em que diz a frase.
Trata-se, na verdade, do único momento de relativa tensão de A Casa dos
Budas Ditosos - inspirada no livro que João Ubaldo Ribeiro escreveu por
encomenda para a coleção sobre pecados capitais para a editora Objetiva,
a peça traz o relato de uma mulher de 68 anos, baiana, que narra suas
aventuras sexuais. Não uma senhora qualquer, mas alguém que dedicou sua
vida a experimentar as mais variadas formas de prazer sexual, sem
culpas.
A idéia da montagem, que estreou em 2003, partiu do diretor Domingos de
Oliveira, que teve o toque de gênio: ao buscar a aproximação dos
aspectos mais humanos da personagem, ele transformou o monólogo,
conseguindo que o espectador se aproximasse do tema tratado. Assim, em
vez de se ruborizar ou sentir um certo incômodo, a platéia se descobre
colocando em xeque sua liberdade sexual, questionando os próprios
limites.
A reestréia hoje do espetáculo em São Paulo tem novo sabor para Fernanda
Torres. Primeiro, porque a peça retorna a um teatro - depois de iniciar
temporada no palco do Centro Cultural Banco do Brasil, a peça passou por
grandes palcos como o Tom Brasil, ótimo para abrigar muitas pessoas mas
complicado para uma montagem com características mais intimistas.
'Outro motivo é que volto ao personagem depois de seis meses sem levá-lo
ao palco', conta a atriz, envolvida em outros projetos naquele período.
Mas, bastaram duas apresentações no Rio para a montagem esquentar
novamente. 'A direção do Domingos permite que o espetáculo se desenvolva
como se seguisse uma partitura musical', observa ela, que se diverte em
seguida. 'Assim, eu apenas sento diante daquela mesa para começar o
rosário de sacanagem.'
Fernanda conta que, ao reler o texto para refrescar a memória, logo
sentiu sua desenvoltura, seus altos e baixos, seu ritmo aparentemente
descompromissado mas que segue uma lógica teatral.
A versão teatral de A Casa dos Budas Ditosos difere em alguns detalhes
de seu original literário. Como a personagem do livro, a atriz está
gravando as fitas, para entregá-las ao autor - sim, esse foi o, digamos,
estratagema criado por Ubaldo para se esconder atrás das obscenidades.
Agora, na versão de Domingos, ela não está solitária, trancada em casa,
mas fazendo uma conferência, que é gravada, para uma platéia.
É o que explica também a delicadeza com que Fernanda se dirige à
platéia, recurso que lhe garante adesão imediata e total do espectador.
A atriz lembra-se ainda de outro detalhe: quando estreou, ela estava com
38 anos e, na época, brincava que seu principal desafio era se convencer
de que era ela e não a mãe quem deveria estar fazendo o papel. 'Agora,
que tenho 40 e pouquinhos, entendo melhor a dor da personagem.'
Outro prazer da atriz vai ser dividir o espaço com Paulo Autran que,
entre quinta e domingo, encena O Avarento. 'Ele assistiu ao meu
espetáculo, adorou e deixou dicas maravilhosas', conta Fernanda, que não
consegue precisar quanto tempo a peça continuará em cartaz. 'Como os
hábitos sexuais das pessoas demoram para mudar, o texto continuará atual
durante um bom período', comenta. 'Em último caso, enceno até atingir a
idade da personagem.'
(SERVIÇO)
A Casa dos Budas Ditosos.90 min. 18 anos. Teatro Cultura Artística -
Sala Esther Mesquita (1.156 lug.). R. Nestor Pestana, 196, 3258-3616.
3.ª e 4.ª, 21 h. De R$ 30 a R$ 60. Até 6/2