O rádio, ao mesmo tempo em que é o
principal divulgador de um artista, é também o seu maior algoz. Os
questionáveis critérios que determinam a escolha da ditatorial “faixa de
trabalho” escondem do grande público verdadeiras pérolas de um disco,
que podem ser apreciadas apenas por quem o compra ou vai ao show.
Falar de Chico César, por exemplo, é lembrar de Pensar em Você,
À Primeira Vista e Mama África, canções pop ou românticas
que tocam à exaustão no dial, esteja o artista lançando disco novo ou
não. O mais recente CD do cantor e compositor, De uns Tempos pra Cá,
foi aclamado pela crítica e pela classe artística, mas suas canções, de
forte conotação erudita, passaram quase em branco pelo “povão”.
O próprio Chico César comenta o assunto, em seu site oficial, ao falar
do CD:
“De uns tempos pra cá me tornei um artista razoavelmente conhecido em
alguns circuitos, dentro do meu país e fora dele. À minha revelia, mas
também com minha anuência, determinados aspectos da música que faço se
tornaram mais visíveis que outros. Não é que eu queira me queixar. Nem
poderia, num momento em que uma das principais queixas de muitas pessoas
(artistas inclusive) é a invisibilidade. Não de partes. Mas a
invisibilidade total delas, e de sua produção.”
Para mostrar, com intensidade ainda maior, o processo de produção
daquele álbum, Chico César registrou um dos shows da elogiada turnê em
seu primeiro DVD, que foi lançado no final de 2006, pela Biscoito Fino,
com o título Cantos e Encontros de Uns Tempos pra Cá. Paraibano
apaixonado por São Paulo, o artista escolheu como locação o Auditório do
Ibirapuera, ambiente propício para transpor, do estúdio ao palco, a
síntese do trabalho.
Extras incluem duetos em estúdio
A maior parte do repertório de 18 músicas foi extraído do CD De uns
Tempos pra Cá, gravado em 2005, quando Chico César completou 15 anos
do lançamento de seu primeiro CD, Aos Vivos, e duas décadas de
vida morando no Sudeste. A sonoridade do DVD também segue a proposta do
disco de áudio.
Acompanhado do Quinteto da Paraíba, uma pequena orquestra de cordas com
músicos de formação erudita, Chico César dá um tratamento camerístico a
canções repletas de referências à música nordestina. Esse encontro
acontece logo nas duas primeiras faixas do DVD, Desejo e Necessidade
e Moer Cana, tanto nas melodias quanto nas letras.
As músicas são bons exemplos da força criativa de Chico César, que não
se resume à música pop-radiofônica. Ao longo do disco são reveladas
outras jóias de seu repertório, como Templo, Alcaçuz,
De uns Tempos pra Cá e Por Que Você Não Vem Morar Comigo?. Os
três grandes sucessos do artista também reaparecem, em leituras bem
diferentes em relação às versões originais.
Como homenagem às regiões Norte e Nordeste, Chico César relê Paraíba
e Asa Branca, ambas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Esta
última vem em pot-pourri com a bela A Prosa Impúrpura do Caicó,
cantada em dueto com a conterrânea Elba Ramalho, que também participa do
rock-baião Por Causa de um Ingresso do Festival Matou Roqueira de 15
Anos. Outra canção do DVD fortemente ligada às raízes de Chico César
é Pedra de Responsa, homenagem à Ilha de Marajó, composta em
parceria com Zeca Baleiro.
Fugindo um pouco desse universo, o cantor relê Cálice, de Chico
Buarque e Gilberto Gil, que foi gravada por ele no CD De uns Tempos
para Cá e, no palco, teve uma interpretação dramatizada.
“É doloroso perceber que esta canção não perdeu atualidade”, comenta
Chico César, no site, lembrando que interpretara Cálice pela
primeira vez a convite da TVE, em 2004, quando a emissora promoveu um
show com músicas que tiveram problemas com a censura na época da
ditadura militar.
Os extras do DVD são um disco à parte. Nos estúdios da Biscoito Fino, no
Rio, Chico César promove os “encontros” citados no título do DVD, em
duetos com artistas de cenas diferentes.
A cantora pop Ana Carolina empresta seu violão suingado para as músicas
Mulher Eu Sei e Mais Que Isso, parceria dela com Chico
César. Outro encontro de violões, desta vez num clima mais jazzístico,
acontece na participação do músico paulistano Chico Pinheiro em 1
Valsa p/ 3, composta pelos dois.
A diva da MPB Maria Bethânia lembra as duas canções de Chico César que
gravou: A Força Que Nunca Seca, parceria com Vanessa da Mata, e
Onde Estará o Meu Amor?. Já o dueto com a cantora paulistana
Vange Milliet, na vanguardista Teshoku, aconteceu durante o show
no Auditório do Ibirapuera, mas ficou restrito aos extras, que ainda
incluem o clipe da música De uns Tempos para Cá e entrevistas.
Chico César está certo ao dizer que não tem motivos para se queixar da
vida. Mas tomara que, com o DVD Cantos e Encontros de Uns pra Cá,
consiga dar visibilidade a outros aspectos de sua música. Ele é um
poeta, e seu talento vai muito além de Mama África.
(Marcos Paulo Bin é editor do
www.universomusical.com.br)