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Chico César - muito além de Mama África

10/06/2008

Chico César

Marcos Paulo Bin

O rádio, ao mesmo tempo em que é o principal divulgador de um artista, é também o seu maior algoz. Os questionáveis critérios que determinam a escolha da ditatorial “faixa de trabalho” escondem do grande público verdadeiras pérolas de um disco, que podem ser apreciadas apenas por quem o compra ou vai ao show.

Falar de Chico César, por exemplo, é lembrar de Pensar em Você, À Primeira Vista e Mama África, canções pop ou românticas que tocam à exaustão no dial, esteja o artista lançando disco novo ou não. O mais recente CD do cantor e compositor, De uns Tempos pra Cá, foi aclamado pela crítica e pela classe artística, mas suas canções, de forte conotação erudita, passaram quase em branco pelo “povão”.

O próprio Chico César comenta o assunto, em seu site oficial, ao falar do CD:

“De uns tempos pra cá me tornei um artista razoavelmente conhecido em alguns circuitos, dentro do meu país e fora dele. À minha revelia, mas também com minha anuência, determinados aspectos da música que faço se tornaram mais visíveis que outros. Não é que eu queira me queixar. Nem poderia, num momento em que uma das principais queixas de muitas pessoas (artistas inclusive) é a invisibilidade. Não de partes. Mas a invisibilidade total delas, e de sua produção.”

Para mostrar, com intensidade ainda maior, o processo de produção daquele álbum, Chico César registrou um dos shows da elogiada turnê em seu primeiro DVD, que foi lançado no final de 2006, pela Biscoito Fino, com o título Cantos e Encontros de Uns Tempos pra Cá. Paraibano apaixonado por São Paulo, o artista escolheu como locação o Auditório do Ibirapuera, ambiente propício para transpor, do estúdio ao palco, a síntese do trabalho.

Extras incluem duetos em estúdio

A maior parte do repertório de 18 músicas foi extraído do CD De uns Tempos pra Cá, gravado em 2005, quando Chico César completou 15 anos do lançamento de seu primeiro CD, Aos Vivos, e duas décadas de vida morando no Sudeste. A sonoridade do DVD também segue a proposta do disco de áudio.

Acompanhado do Quinteto da Paraíba, uma pequena orquestra de cordas com músicos de formação erudita, Chico César dá um tratamento camerístico a canções repletas de referências à música nordestina. Esse encontro acontece logo nas duas primeiras faixas do DVD, Desejo e Necessidade e Moer Cana, tanto nas melodias quanto nas letras.

As músicas são bons exemplos da força criativa de Chico César, que não se resume à música pop-radiofônica. Ao longo do disco são reveladas outras jóias de seu repertório, como Templo, Alcaçuz, De uns Tempos pra Cá e Por Que Você Não Vem Morar Comigo?. Os três grandes sucessos do artista também reaparecem, em leituras bem diferentes em relação às versões originais.

Como homenagem às regiões Norte e Nordeste, Chico César relê Paraíba e Asa Branca, ambas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Esta última vem em pot-pourri com a bela A Prosa Impúrpura do Caicó, cantada em dueto com a conterrânea Elba Ramalho, que também participa do rock-baião Por Causa de um Ingresso do Festival Matou Roqueira de 15 Anos. Outra canção do DVD fortemente ligada às raízes de Chico César é Pedra de Responsa, homenagem à Ilha de Marajó, composta em parceria com Zeca Baleiro.

Fugindo um pouco desse universo, o cantor relê Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, que foi gravada por ele no CD De uns Tempos para Cá e, no palco, teve uma interpretação dramatizada.

“É doloroso perceber que esta canção não perdeu atualidade”, comenta Chico César, no site, lembrando que interpretara Cálice pela primeira vez a convite da TVE, em 2004, quando a emissora promoveu um show com músicas que tiveram problemas com a censura na época da ditadura militar.

Os extras do DVD são um disco à parte. Nos estúdios da Biscoito Fino, no Rio, Chico César promove os “encontros” citados no título do DVD, em duetos com artistas de cenas diferentes.

A cantora pop Ana Carolina empresta seu violão suingado para as músicas Mulher Eu Sei e Mais Que Isso, parceria dela com Chico César. Outro encontro de violões, desta vez num clima mais jazzístico, acontece na participação do músico paulistano Chico Pinheiro em 1 Valsa p/ 3, composta pelos dois.

A diva da MPB Maria Bethânia lembra as duas canções de Chico César que gravou: A Força Que Nunca Seca, parceria com Vanessa da Mata, e Onde Estará o Meu Amor?. Já o dueto com a cantora paulistana Vange Milliet, na vanguardista Teshoku, aconteceu durante o show no Auditório do Ibirapuera, mas ficou restrito aos extras, que ainda incluem o clipe da música De uns Tempos para Cá e entrevistas.

Chico César está certo ao dizer que não tem motivos para se queixar da vida. Mas tomara que, com o DVD Cantos e Encontros de Uns pra Cá, consiga dar visibilidade a outros aspectos de sua música. Ele é um poeta, e seu talento vai muito além de Mama África.


(Marcos Paulo Bin é editor do www.universomusical.com.br)

(© Rádio Criciúma)

VÍDEO:

Veja Chico César cantando junto com Zeca Baleiro "Respeitem meus cabelos, brancos"

 


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