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10/06/2008
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O
casamento, romance de Nelson Rodrigues
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Único romance em que assinou com o próprio nome, O Casamento foi
proibido quando lançado, em 1966
Ubiratan
Brasil
Quando faz referência à
versão que levou ao cinema do romance O Casamento, de Nelson Rodrigues,
o cineasta e comentarista Arnaldo Jabor é enfático: 'É um filme duro,
violento e grotesco, esquisito, sexual, estomacal, intestinal, uma
grande explosão.' Também a adaptação teatral que João Fonseca e Antonio
Abujamra fizeram nos anos 1990 arrancou gargalhadas e aplausos em cena
aberta, quando encenada nos palcos cariocas. Mesmo nascido em 1966, o
romance rodriguiano mantém uma assustadora atualidade por sua violência
e dramaticidade ao revelar o brutal apodrecimento de uma família na
véspera do casamento da filha. É o que se pode constatar com a leitura
de O Casamento, recentemente relançado pela editora Agir que,
felizmente, investe na publicação da obra em prosa de Nelson Rodrigues -
o anterior foi A Vida como Ela É.
Único romance que o dramaturgo e cronista assinou com o próprio nome,
sem recorrer a pseudônimos folhetinescos, O Casamento foi um
extraordinário sucesso na época do lançamento, vendendo 8 mil exemplares
nas duas primeiras semanas de setembro de 1966, equiparando-se a Dona
Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado, lançado na mesma época.
Escrito em apenas dois meses, foi uma encomenda de Carlos Lacerda, que
queria um inédito de Nelson Rodrigues para inaugurar sua editora Nova
Fronteira. Mas, ao ler os originais, Lacerda ficou chocado e não quis
publicá-lo. Então armou um belo estratagema e repassou-o a um amigo
comum de ambos, Alfredo Machado, da Guanabara, que o aceitou correndo.
Mesmo assim, Nelson não tinha motivos para comemorar: dias depois de a
obra chegar às livrarias, ele foi surpreendido pela morte do irmão,
Mário Filho. Com isso, noites de autógrafos, entrevistas, coquetéis,
tudo foi cancelado. E, antes que pudesse recuperar-se do impacto, o
escritor levou outro baque ao ser informado de que O Casamento fora
proibido por Carlos Medeiros Silva, ministro da Justiça do então
presidente, o marechal Castelo Branco. Motivo: 'A torpeza das cenas
descritas e a linguagem indecorosa em que está vazado.' Segundo o
documento, o romance era um 'atentado' contra a 'organização da
família'.
Na verdade, a cegueira cultural da censura militar era latente - o livro
conta a história de uma família conservadora que revela o seu
desmoronamentovenenos acobertado pela tradicional hipocrisia. Estão, em
O Casamento, frases que se tornaram clássicas como 'Só os profetas
enxergam o óbvio', 'Não acredito que uma mulher possa amar o mesmo homem
por mais de dois anos', 'Qualquer um pode ser obsceno, menos o
ginecologista' e, talvez, a mais conhecida, 'Todo canalha é magro'.
A sociedade brasileira, porém, não parecia preparada para encarar um
retrato tão detalhista. A proibição pela censura federal praticamente
não repercutiu na imprensa, fruto da pesada mão que o governo militar
impunha aos meios de comunicação. Pior: o jornal O Globo, no qual Nelson
escrevia diariamente a coluna À Sombra das Chuteiras Imortais, publicou
um artigo de primeira página defendendo a proibição. O jornal não citava
diretamente o título da obra, mas elogiava a 'corajosa' atitude do
ministro ao proibir um livro que atentava contra 'os princípios
basilares da nossa organização social, e entre esses o matrimônio'.
Nelson tentou se defender - em entrevista ao Jornal do Brasil, o
escritor dizia que a medida era odiosa e analfabeta. 'O livro é de um
moralismo transparente, taxativo e ostensivo para quem sabe ler e para
quem não é analfabeto nato ou hereditário', protestou ele, conforme
relata Ruy Castro na biografia O Anjo Pornográfico (Companhia das
Letras). 'A esperança que tenho, apesar de tudo, é a de que não
assistirei à queima pública do meu livro como numa cerimônia nazista.'
A condenação, de fato, não chegou a tal extremo, mas o silêncio de seus
pares (apenas alguns amigos como Paulo Francis, Hélio Pellegrino e
Franklin de Oliveira protestaram publicamente contra a proibição)
decepcionou o escritor. Para completar, um de seus detratores se deu ao
trabalho de contar os palavrões em O Casamento e computou 147.
Curiosamente, ainda lembra Ruy Castro, as livrarias estavam abarrotadas
de exemplares do livro Trópico de Câncer. 'E o romance de Henry Miller
continha essa mesma quantidade de palavrões - só que por capítulo',
aponta.
Seis meses depois, já em 1967, o Tribunal Federal de Recursos liberou o
livro, considerando o ato do ministro da Justiça como de 'ilegalidade
máxima'. Mas o destino funéreo de O Casamento estava marcado: sem
críticas publicadas na imprensa, o interesse do público desapareceu e a
obra só voltou a despertar atenção em 1975, com o filme de Arnaldo
Jabor, e, em 1993, com sua republicação pela Companhia das Letras.
A volta da obra às livrarias oferece ao leitor a oportunidade de ter um
contato justamente com o inventário de obsessões mais caras a Nelson
Rodrigues. Adultério, incesto, assassinato e um austero moralismo
pontuam as páginas do livro, que volta a subverter a ordem mesmo no novo
milênio. Autor de uma dramaturgia que foi um divisor de águas no teatro
brasileiro, unindo elementos melodramáticos, naturalistas e
expressionistas, Nelson tornou-se, com o correr dos anos, uma das poucas
unanimidades dos palcos nacionais. E seus romances acompanham a mesma
trajetória, apresentando sua própria perspectiva política de um estilo
de vida familiar específico de um patriarcalismo muito local. Ruy Castro
aponta O Casamento como um dos três ou quatro maiores romances
brasileiros do século passado. Poucos desaprovam.
O Casamento, Nelson Rodrigues, Editora Agir,
372 págs., R$ 40
(©
Agência Estado)
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