SÃO PAULO - No dia 18 de dezembro,
desafortunadamente no mesmo dia em que morreu o americano Joseph
Barbera, o criador dos Flintstones e do Zé Colméia, morria no Recife
a ilustradora pernambucana Conceição Cahú, aos 62 anos.
No mundo da charge e do cartum nacional, poucas mulheres
pontificaram. Conceição, que assinava apenas Cahú, tinha 45 anos de
carreira e foi um dos grandes destaques femininos da ilustração,
tendo sido considerada "a maior ilustradora de bico-de-pena da
imprensa" do Brasil, segundo colegas e editores (um de seus maiores
admiradores foi o cartunista Henfil).
"A Conceição foi uma das únicas chargistas mulheres do País, além
da histórica Hilde Weber, do Estadão", disse o cartunista
José Alberto Lovetro, o Jal, que foi amigo de Cahú. Um dos elogiados
trabalhos de Cahú foi encartado no jornal O Estado de S. Paulo
- 400 mil exemplares de revista sobre os 120 anos do Liceu de Artes
e Ofício, que acompanhava o número de estréia do extinto suplemento
Zap.
Revisitando a obra de Cahú, descobrimos uma grande versatilidade.
Fazia caricaturas fantásticas, com um tempero clássico, às vezes um
ponto entre Araújo Porto-Alegre e J. Carlos (caso da caricatura do
pioneiro do futebol, Charles Miller, que ilustra esse perfil).
Também se arriscava de vez em quando em quadrinhos seqüenciais, como
na mini-HQ Uma História de Amor (Homenagem a Carlos Zéfiro),
com a qual foi premiada no 19.º Salão de Humor de Piracicaba, em
1992. E em parcerias, como nas histórias Trombadinhas e Um
Nasceu para o Outro, com Xalberto.
Ela ainda ilustrou sua cidade, a bela Floresta do Navio (PE), em
guaches fantásticos. Corintiana delirante, desenhou com rara argúcia
o time da Democracia Corintiana, o que lhe valeu nada menos do que o
título de Cidadã Corintiana, outorgado em sessão solene da Câmara
Municipal de São Paulo, em 2005.
Outros trabalhos
Conceição desenhou para a revista Placar, para movimentos
populares e sociais (como o movimento Diretas Já), fez ilustração
para o Dieese e para a Associação Nordestina de Crédito e
Assistência Rural.
Chegou a São Paulo no início dos anos 70, iniciando seu trabalho
na imprensa na Editora Abril. Ali, além de Placar, ilustrou nas
revistas Cláudia, Nova, Capricho e Playboy.
Em 1975, trabalhou na Folha de S.Paulo, passando depois por
Jornal da Tarde, Visão e Saúde em Debate.
Gostava de futebol, outra diferença em relação à maioria
feminina, e desenhou grandes caricaturas dos personagens da Copa do
Mundo de Futebol e dos times do Brasil. Depois, chegou à Gazeta
Mercantil, onde aprimorou seu estilo mais conhecido, o bico-de-pena,
recurso amplamente utilizado na publicação. Segundo especialistas,
seu trabalho nos anos 80 se tornou referência para novos
desenhistas, além de muito respeitado no meio.
"O talento de Cahú vicejou ao encontrar no caminho um jornal como
a Mercantil, que apostou no lúdico, no desenho, para quebrar um
pouco a sisudez de seu conteúdo e tratar com graça e leveza temas e
discursos áridos, embora consistentes", escreveu Eduardo Ribeiro, no
Observatório da Imprensa.
Maria da Conceição de Souza Cahú morreu de câncer. A última
empresa em que trabalhou foi o DCI - Diário Comércio e Indústria,
em 2005. Seu site, ainda hoje, destaca uma modesta exposição da
artista em 2003 na Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto,
a mostra Traços do sem Fim, dividindo o espaço como o escritor e
jornalista Ignácio de Loyola Brandão, que lançava seu livro O
Anônimo Célebre.