Foi assim:
fazia um calor insuportável e a Pitty,
moça saída de Salvador e outrora
apelidada de Madá pelas amigas por causa
de seus cabelos excessivamente longos,
tinha sido escolhida a artista do ano
pelos leitores desta revista. Estamos no
Brasil, em 2006. Ano em que Pitty
excursionou país adentro e ganhou, no
VMB, os prêmios de melhor clipe de rock,
melhor site, vocalista da banda dos
sonhos (assim como em 2005) e, sua
especialidade, a escolha da audiência.
Tocou no Planeta Atlântida, em
Florianópolis, para cerca de 40 mil
pessoas. Esteve em todas as paradas de
todas as rádios de todas as cidades
deste país, enquanto, conseqüentemente,
os adolescentes cantavam os versos de
suas músicas. Ou estaria ela presente em
todas as paradas porque os adolescentes
cantavam os versos de suas músicas? Eu
não sei.
Seu
primeiro disco, Admirável Chip Novo,
lançado em 2003, vendeu 250 mil cópias e
começou a chamar a atenção com
"Máscara", aquela do "O importante é ser
você, mesmo que seja bizarrô", que
grudou na cabeça de todo mundo pelo
menos uma vez na vida. Pitty confessa
que faria tudo diferente. Mas o disco é
parte de sua história e bola pra frente.
Pra frente mesmo, já que em 2004, antes
de ser esse fenômeno todo, venceu
artistas como O Rappa e Sepultura na sua
segunda vez no páreo desses prêmios de
música brasileira com o clipe de
"Equalize". Graças à voz do povo - Pitty
sempre ganhou por escolha da audiência.
Quem escolheu nossa capa foi você,
leitor. Pitty foi escolhida pelos
leitores da BIZZ artista do ano e
"Memórias", do álbum Anacrônico (2005),
a música do ano.
Estamos
em uma padaria, depois de passar a tarde
na exaustiva sessão de fotos. Pedimos
sanduíches no balcão. As crianças querem
autógrafos. As balconistas também. Pitty
é uma espécie de Ivete Sangalo da
Galeria do Rock, cativando a todos, mas
sem ser amiga da Xuxa nem fazendo
aparições públicas vergonhosas,
obrigada. Existia uma grande lacuna de
uma mulher que não fosse
delicadinha-inha nem uma dessas que
forçam o ser sexy até cansar.
Existia
uma lacuna de uma mulher que tivesse
atitude, que botasse o pau na mesa. Uma
mulher que dissesse alguma coisa,
qualquer coisa, que demonstrasse vida
inteligente.
Pitty
não é estrela. Nem quer ser. Pitty não é
a voz da nova geração. Nem quer ser.
"Você acha que mudou desde que saiu do
underground?"
"Algumas coisas sim e outras não. Acho
que mudaria de qualquer forma. Estou
sempre mudando. Estou sempre diferente,
sou muito inquieta. Mas às vezes olho
pra mim e continuo sendo a mesma menina
que curte fazer coisas simples, ir para
a balada tomar cerveja com meus amigos
sossegada, ir ao cinema, cuidar dos meus
gatos, da minha casa. Isso são coisas
que não mudam."
Gritam
nossos nomes no balcão. Nossos
sanduíches estão prontos. Eu penso que,
se estivéssemos em outra época,
estaríamos tomando uns drinques, não
comendo sanduíches de mortadela e
pastrame. Sanduíches não são coisas
exatamente roqueiras. Decido fazer a
entrevista com a boca cheia. Ninguém vai
notar. Pitty mora perto da rua Augusta.
Seus amigos também. Ela anda pela rua e
conversa com as meretrizes. Ela gosta
das baladas alternativas, onde tocam
bandas alternativas e rock alternativo.
A Augusta é o novo reduto dela. Bem no
meio da putaria. "Você teve crise de
consciência por causa do sucesso?"
"Tive
muita sorte, eu podia ter me dado muito
mal. Me arrisquei com várias posturas
que tomei, do tipo o cara me chamar pra
fazer playback na maior emissora do
Brasil e eu dizer não. Algumas vezes,
claro, fiz coisas que não achava tão
incríveis, mas visando a algo que era
incrível. Tudo tem seu preço e, pra mim,
bastava ver se aquilo não era uma ofensa
grave a mim mesma, se não estava indo de
encontro às coisas em que acreditava."